A DIFICULDADE DA CRÔNICA

Afeita ao jornal, a crônica consagrou o estilo de cruzar poesia e cotidiano, não raro atravessada pelo humor, em texto de prosa corrida. Grandes nomes da literatura a exerceram com desenvoltura: Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues. E há os que, como Rubem Braga, impuseram à crônica posição destacada entre os gêneros textuais. Nesses tempos de Brasil fraturado, é lícito perguntar como anda a crônica nas páginas de nossos jornais? Atriz, roteirista e escritora Fernanda Torres desenvolve reflexão instigante sobre o tema. Artigo publicado na Folha de São Paulo, 31/05/2020.

Aos poucos, o Brasil vai sendo tragado por Olavo, Havan, centrão e fake news

Tati Bernardi, caríssima,

Li, neste jornal, que você gostaria de voltar a escrever crônicas, mas o estupor a impede. Eu também, Tati, tenho saudade das minhas. E penso que parei de escrevê- las bem antes de você, que ainda reflete sobre a maternidade, os amores tortos, o sexo no casamento, os vizinhos e as eternas neuroses. Foi a releitura de Rubem Braga que lhe fez notar o desvio. Amo Rubem Braga. Você conhece uma crônica chamada “Defuntos”, sobre a diferença entre os obituários da Alemanha e do Brasil? É das minhas preferidas.

O Millôr me deu uma coletânea com 36 joias do Rubem ilustradas por ele. Guardo o tesouro num lugar de honra da estante. O prefácio é do Millôr, um texto que eu daria tudo para ter escrito. Chama-se “A Última Vez que Vi Rubem Braga”.

Nele, o inventor do frescobol conta dos acenos efusivos que trocava com o cronista, ele no seu estúdio, na General Osório, e o amigo numa cobertura, alguns quarteirões afastada. Em íntima distância, Millôr admirava Rubem ao sol e Rubem via Millôr na prancheta.

Mas “veio o governo Carlos Lacerda, que aprovou a ideia de mudar o gabarito de Ipanema transformando-se o bairro numa favela igual a Copacabana”. E assim, a cidade que ambos conheceram, feita de casas e prédios baixos, foi posta abaixo.

“A exploração imobiliária, liberada para todas as cobiças e todas as monstruosidades arquitetônicas, começou a rodear o edifício de Rubem Braga com massas gigantescas de concreto e aço, construções as mais estranhas, sem ar nem luz —atentados que ninguém parece ver, e contra os quais, aparentemente, ninguém pode. E, pouco a pouco, Rubem Braga foi desaparecendo de minha vista, tragado pela Nova York, oculto pela Canadá, emparedado pela Sergen, sepultado pela Gomes de Almeida Fernandes.”

Um dia, um desses caixotes de cimento horrendo barrou, em definitivo, a comunicação do Millôr com o parceiro. Foi a última vez que ele viu Rubem Braga. É um relato estupendo sobre a amizade, a convivência, a catástrofe urbanística e a mudança inexorável das coisas. Um libelo contra o mau gosto, além de um epitáfio da geração dos dois, insinuado no título. E tudo sem perder a dimensão humana, dos sentimentos, ou se valer de denúncias, protestos e estatísticas enfadonhas.

O problema é que o mundo perdeu a poesia, Tati. O humor, a inteligência e a poesia. Estamos todos como a tartaruga que cai de pernas para o ar e vive à espera de alguém que a desvire. Passo os dias quarentenada. À noitinha, assisto ao noticiário das inomináveis tragédias, afundo na lista de óbitos, medro diante das improbidades e conspirações mais torpes e, por fim, coro ao som de palavrões chulos.

A monstruosidade impera travestida de decência. Quando me sento para escrever, só vem o assombro com a última meleca misturada com cachorro- quente, o susto com a carreata armada, a indignação com as maracutaias da saúde e o pânico com aquela reunião ministerial.

Quem virá nos resgatar? Antônio Prata é de lavar a alma. Gregorio não se intimida, você é o melhor espelho que se pode ter, mas somos todos do jardim de infância, se comparados ao Rubem e ao Millôr. A geração deles se criou num país que ainda existia. Nota-se, na elegância da pena dupla, ecos da ironia do Machado, da melancolia do Bandeira. Mas não tem  Machado e nem Bandeira, não tem Suassuna, Rosa, Drummond, Graciliano, Nelson ou Clarice nesse buraco em que nos metemos.

Ontem, fui dormir certa de que rumamos para a Venezuela. Talvez aconteça aqui. O dinheiro grosso não se importa de abrir mão da educação, da cultura, da ciência e da justiça. Celso de Mello se insurge contra a “gravíssima aleivosia” do “discurso contumelioso” do louco do Weintraub. Não defendo que os magistrados corrompam o seu excelentíssimo português, mas o decano precisa de legenda para ser compreendido; ao contrário dos porras, foda-ses, trozobas, emorróidas, bostas e estrumes do capitão.

“Atentados que ninguém parece ver e contra os quais, aparentemente, ninguém pode”, volto ao Millôr. E, pouco a pouco, o Brasil vai desaparecendo da minha vista, tragado pela América do Olavo, oculto pela Estátua da Liberdade da Havan, emparedado pelo velho centrão, sepultado pelas fake news.

Eu também gostaria de escrever uma crônica, mas diante dos acontecimentos, o que resta é a inutilidade da análise. Os brioches da Maria Antonieta.

Nos vemos na guilhotina.

CULTURA

REGINA DUARTE

“Como artistas, formamos a maioria que repudia as palavras e as atitudes de Regina Duarte como Secretária de Cultura. Ela não nos representa”. Trecho de Carta de Repúdio assinada por mais de 500 representantes entre atores, cantores, intelectuais, produtores e diretores e divulgada em 09/05/2020. Reproduzimos texto instigante de Marcelo Coelho, que enfoca comportamento da atriz como ocupante de cargo público relevante (Folha de São Paulo, 13/05/2020)

Presa à própria farsa, Regina parece ter algum distúrbio de personalidade

Marcelo Coelho – Membro do Conselho Editorial da Folha, autor dos romances Jantando com Melvin e Noturno. É mestre em sociologia pela USP.

Como nunca fui de assistir a novela, não tenho muito a dizer sobre a atuação profissional de Regina Duarte. E também não quero ser repetitivo ao criticar os pontos mais desastrosos de sua entrevista à CNN. 

A questão, que me causa tanto pena quanto repulsa, vai além do conteúdo lamentável de suas declarações. A entrevista sugere a presença de um distúrbio de personalidade — ou, se quisermos, um distúrbio de falta de personalidade. Acho que isso acontece com algumas pessoas famosas. Penso em Marilyn Monroe, talvez Madonna, não sei se Pelé. São casos em que uma imagem pública é tão forte, e tão invariável, que o indivíduo já não sabe mais quem é realmente. Sou do tempo em que Regina Duarte era a “namoradinha do Brasil”. Esse tempo passou, é claro. Mas ela não se desvencilhou.

Vejo sua entrevista na íntegra. O momento do “chilique” talvez seja o mais suportável. O que vem depois me incomoda mais. São os momentos de doçura; a cabecinha que se inclina para o lado; os suspirozinhos de sinceridade; os sorrisos de puro amor. É um negócio enjoativo e aterrorizante ao mesmo tempo.

Uma das primeiras perguntas foi sobre as desavenças de Regina com um olavista do governo. Ela faz uma cara de incompreensão, de dúvida, um pouco como se acordasse de um pesadelo e perguntasse “onde estou?”. Que farsa. Ela olha para algum lugar vazio nas primeiras filas da plateia, fingindo incredulidade. As coisas são tão distorcidas, diz, que ela já “nem sabe” se o fulano é seu inimigo. Tudo se perde numa fumaça de incompreensão. É o papel da menininha, pega no meio de alguma fofoca. Nossa, gente… juuuro que eu não sei do que vocês estão falando…

E sobre Olavo de Carvalho, o que Regina tem a dizer? Leu dois livros dele. Respeita-o. Mas, quando foi ler o terceiro, ai, geeente… Tinha muito palavrão. Muito “nome feio”. “Não gosto”. Ah, não gosto mesmo. Fico de mal. “Nome feio”: a terminologia, mais uma vez, é a da aluninha de escola. Regina Duarte se infantiliza quase que por automatismo. Na dúvida, diante de qualquer ameaça, sua saída é piscar os olhinhos e mostrar que criança adorável ela é.

Ela insiste na regressividade, na má-fé, na clássica aposta noveleira —o público é burro e gosta da gente. A cartada do Amor e da Verdade Pessoal aparece nas perguntas mais difíceis. Por que a Secretaria da Cultura não manifestou pesar diante da morte de Aldir Blanc, Moraes Moreira, Flávio Migliaccio? Regina diz que preferiu escrever para as famílias. “Diretamente”, orgulha-se. Tudo fica “pessoal”. Antes de ser alguém com um cargo no governo, ela é “a Regina”, essa moça simples e adorável que todos conhecem.

Na hora do “chilique”, quando Maitê Proença aparece numa gravação cobrando medidas do governo, Regina diz que a colega deveria ter ligado, falado com ela pessoalmente. É como se a política, o Estado, o cargo público não existissem. Da carta de pêsames ao problema dos artistas na miséria, tudo se resolveria pela intimidade melosa do contato pessoal. Estamos na esfera da telenovela, evidentemente: o mundo privado das birras, dos beijos, dos beicinhos e reconciliações se transfere obscenamente ao público. A Regina secretária é a mesma Regina que nós amamos, que é a Regina das novelas; e a própria Regina já não sabe mais quem é.

Vem então a pergunta sobre os mortos e os torturados da ditadura. Ela não vai se preocupar, por várias razões. Uma é “filosófica”: morte e vida sempre andam lado a lado.Outra é “histórica”: Hitler e Stálin mataram e torturaram. Seria bom perguntar se ela participaria de um governo de admiradores de Hitler. A terceira razão é clássica: “Não vamos olhar para trás”.

Eis a Regina que afirma a vida, a alegria e o amor. Para insistir no ponto, e numa espécie de sedução desesperada com o repórter, ela começa a cantar a marchinha do “Pra frente, Brasil, salve a seleção”. Sorri: “Não era bom quando a gente cantava isso?”. Puxa, pensei, mas ela justamente dizia que não queria olhar para o retrovisor… Deu uma vasta trombada, é claro. Ela quer recuperar, doidamente, a época em que “Regina Duarte” era uma unanimidade nacional. Vive num delírio de ternura falsa e indiferença bruta, de sedução e batatada, de beijinho e choque elétrico, sem nem saber de fato quem é. Não quer saber; não aguentaria se soubesse.