ALDIR BLANC

Compositor cuja qualidade da obra ajudou a colocar a canção dentro da sala de aula, como suporte de ensino. A morte, ocorrida em 04/05/2020, vítima do novo coronavírus, ensejou uma série de artigos e resenhas. Reproduzimos matéria de Luiz Fernando Vianna, da Folhapress, publicada na Zero Hora de 05/05/2020.

Aldir Blanc não saía de casa. Agora que ninguém deve mesmo sair, por causa do novo coronavírus, ele foi obrigado a sair, por culpa do vírus. Não voltou mais. A Covid-19 levou na madrugada desta segunda-feira (4), no Rio de Janeiro, um dos mais importantes letristas da música brasileira. Blanc tinha 73 anos e estava internado desde 15 de abril na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Universitário Pedro Ernesto, onde um exame confirmou a infecção pelo coronavírus. Antes, dera entrada no dia 10 no Hospital Municipal Miguel Couto com infecção urinária e pneumonia. Foram 24 dias de luta. Sua resistência impressionou médicos do Pedro Ernesto. Ele não quer ir embora, foi uma das frases que disseram durante o tratamento.

Em mais de cinco décadas de atividade, Blanc construiu uma obra marcada pela capacidade de fundir os contrários humor e fossa, devaneio e realidade, lirismo e grossura, a aldeia e o mundo. Para ele, a vida não comporta reciclagem de lixo. Tudo se mistura. Dava o mesmo valor à palavra mais bonita e ao palavrão mais chulo. Assim criou mais de 600 letras.

Dor e alegria já estavam embaralhadas na infância de Aldir Blanc Mendes. Ele nasceu em 2 de setembro de 1946, no bairro do Estácio, berço do samba urbano carioca. Sua mãe nunca se recuperou totalmente de uma depressão pós-parto. Seu pai, que se tornaria um grande amigo, era pouco afetuoso. O filho único foi ser feliz com os avós em Vila Isabel, bairro de um seus ídolos, Noel Rosa -e, triste coincidência, do hospital onde morreu. Recordou os tempos de criança no emotivo livro Vila Isabel Inventário da infância, de 1996. Na região conheceu (e reinventou) os personagens de suas crônicas, reunidas em volumes como Rua dos Artistas e Arredores, de 1978, e Porta de Tinturaria, de 1981. Mas foi a música que tornou seu nome conhecido nacionalmente. Em meados dos anos 1960, enquanto praticava letras e poemas, atuava como baterista em conjuntos semiprofissionais. Chegou a ser contratado para tocar num programa infantil da TV Globo.

As primeiras letras a chamar a atenção apareceram em festivais do final da década. O sucesso veio com Amigo é pra essas coisas, parceria com Silvio da Silva Jr. que ficou em segundo lugar no Festival Universitário de 1970. Foi o período em que ele integrou o MAU, o Movimento Artístico Universitário, ao lado de Ivan Lins, Gonzaguinha e outros. No ano seguinte, um rapaz chamado Pedro Lourenço se impressionou em Ouro Preto, em Minas Gerais, com um estudante de engenharia tocando violão. Disse a ele, João Bosco, mineiro de Ponte Nova, que tinha um amigo no Rio de Janeiro capaz de pôr palavras naquelas melodias. Nascia um dos encontros mais importantes da música brasileira.

A leva inicial de composições se deu por carta. Um exemplo: Agnus Sei, lançada em 1972 num disco compacto do jornal O Pasquim – no lado A, estava a então inédita Águas de Março, interpretada por seu autor, Tom Jobim. Naquele ano, com Bosco de passagem pelo Rio, mostraram algumas músicas para Elis Regina. Ela escolheu Bala com Bala para o disco que estava realizando e reservou outras para o trabalho seguinte. Passou a receber em primeira mão as novidades da dupla. Gravou 20 delas, além de duas de Blanc com outros parceiros -o irmão de fé Maurício Tapajós e a amiga Sueli Costa.

A assinatura de Bosco e Blanc consta de canções marcantes como “O mestre-sala dos mares”, “Incompatibilidade de gênios, O Ronco da cuíca, Transversal do tempo, Corsário, Bijuterias, Nação (esta também com outro grande amigo, Paulo Emílio) e, é claro, O Bêbado e a equilibrista. No Natal de 1977, inspirado na morte de Charlie Chaplin naquele dia, Bosco fez uma melodia citando Smile, composição do cineasta. Blanc achou que valeria associar a figura de Carlitos a outros deslocados na história, como os exilados pela ditadura militar. O movimento pela anistia ganhou um hino. Elis gravou em 1978, Bosco, em 1979. O verso inicial, caía a tarde feito um viaduto, evocava o desabamento do elevado Paulo de Frontin, no Rio, em 20 de novembro de 1971. 

Os dois amigos inseparáveis começaram a se separar em 1982. Foi gradual e, de acordo com eles, sem brigas. As melodias de um e as letras do outro passaram a não se encaixar. Talvez por influência de terceiros, mágoas surgiram. O reencontro (imprevisto) aconteceu só em 2002, numa gravação de O Bêbado e a equilibrista por Blanc para o songbook de Bosco. Desde então voltaram a se falar por telefone diariamente, além de compor, às vezes, sem a urgência dos anos de juventude.

O letrista engatou outras parcerias. Duas foram as mais produtivas com Guinga, violonista e compositor originalíssimo, explorador de vários gêneros, melodista de Catavento e girassol; e com Moacyr Luz, artista mais identificado com o samba, mas com quem Blanc criou a romântica Coração do agreste, tema da novela Tieta, da TV Globo, na voz de Fafá de Belém, e um dos maiores sucessos de sua carreira. Com Cristovão Bastos, entre outras, fez Resposta ao tempo, gravação de Nana Caymmi e abertura da minissérie Hilda Furacão. Ainda compôs com Edu Lobo, Carlos Lyra, Djavan, Ivan Lins, Raphael Rabello, Ed Motta, Jayme Vignoli e outros.

Intérpretes realizaram discos só com letras suas. Foram os casos recentes da portuguesa Maria João e das cariocas Mariana Baltar e Dorina. Ele passou a receber encomendas de artistas mais jovens. Ficava entusiasmado, mas sabia que dificilmente se converteriam em frutos financeiros. No panorama atual, direitos autorais rendem muito pouco, e Blanc dependia deles

Embora tivesse boa voz como provou no álbum Vida noturna, de 2005, e, antes, no de 1996, não fazia shows. Desenvolveu uma fobia social que se converteu em reclusão quase permanente. Contribuiu para isso um grave acidente de carro acontecido em 1991 e que lhe dificultou para sempre o movimento da perna esquerda. Também tinha diabetes. Havia mais de dez anos que, salvo dias de exceção, não fumava nem bebia. Passava a maior parte do tempo em seu escritório cultivando a obsessão por livros. Lia sem parar, de tudo –mitologia grega, Segunda Guerra Mundial, psicanálise, muitos romances policiais. Nunca saiu do Brasil, mas viajava com os livros. Adorava falar pelo telefone com os amigos. Comentava o noticiário – com humor e indignação – e compartilhava informações sobre a família. No primeiro casamento teve duas filhas, Mariana e Isabel. Tristeza maior de sua vida, perdeu gêmeas no dia do parto prematuro, em 1974. Dizia que ali se foi o ânimo para exercer a medicina profissionalmente. Ele se formara em 1971, com especialização em psiquiatria.

Quando se casou com a professora Mari Lucia, ela já tinha duas filhas, Tatiana e Patrícia. Viraram suas também. Das quatro vieram cinco netos e um bisneto. Nos dias anteriores à internação, falava sempre da Covid-19, com medo de que alguém amado fosse atingido. Não demonstrava preocupação consigo mesmo. Tudo aconteceu muito rápido. Numa quinta-feira estava bem, na sexta foi levado de ambulância para o hospital. Deixa, além da família, um sentimento de orfandade em incontáveis amigos e admiradores.

SEMPRE LITERATURA

Autoficção, memória, autobiografia, romance… Afinal, essas divisões funcionam na prática? Relacionando ofício e vivência, Tati Bernardi, em crônica saborosa, arremata: existe literatura e fim de papo. Tati é escritora, roteirista de cinema e TV. A crônica que reproduzimos foi publicada na Folha de São Paulo, 01/05/2020.

NÃO É VOCÊ, MÃE

Daqui a alguns dias lanço um livro. É sobre a relação de uma mulher grávida com a sua família. A protagonista, Karine, narra a genética de esquisitices dos parentes mais próximos, tentando adivinhar — preocupada e na mesma medida desejosa — se sua filha vai nascer com tal (e tamanha) herança neurótica. 

Minha mãe da vida real, que acaba de virar ficcional, porque isso é uma crônica, leu uma prova do livro e está há semanas sem querer muito papo comigo. Ela não se conforma com o tanto que eu posso “fantasiar, mentir e inventar” a respeito da minha história. Sim, mãe, obrigada por ser a única a perceber isso. Eu não aguento mais quando alguém me pergunta: “Como você se sente expondo tanto a si mesma e as pessoas?”.

Eu sei que deveria fazer um texto sobre a pandemia (ou sobre o pandemônio ou apenas sobre o demônio), como todos os cronistas deste jornal, mas eu peço licença para
escrever sobre a minha mãe. Eu gostaria de dizer que ela é a mulher mais linda, engraçada e inteligente que já conheci. E que, por essa frase estar tão mal escrita, ter cara de cartão
brega de aniversário e se afastar tanto de parecer literatura, talvez se aproxime da verdade.

Ninguém cozinha melhor do que ela, entende um filme melhor do que ela, fala mal do Bolsonaro melhor do que ela. Eu estudo inglês há três décadas e nunca consegui falar tão bem quanto ela (nem mesmo em português). Obrigada, mãe, por ter me ajudado financeiramente até eu ter quase vergonhosos 30 anos e por me sustentar psiquicamente até hoje. Minha mãe é meu maior exemplo de mulher. E é também chata e maluca.

Tem lá no livro uns 20% de fatos verídicos? Ah, sempre tem. Se eu tocasse violão, certamente daria meus tapas na madeira pra ganhar ritmo. Ninguém é escritor sem ser destrutivo. Ainda assim, mãe, por Deus, não é sobre você.

Ruth, nome verdadeiro da minha amada progenitora, não se conforma com a mãe vulgar, sem dotes culinários, perversa e de palavreado chulo do livro. Essa mulher que é criada a partir de tanta coisa que li e assisti e imaginei. E eu, que sempre escrevi tudo em primeira pessoa, que me exponho como única forma possível de oxigenar meus músculos, preciso dizer: não existe autoficção, romance memorialístico, autobiografia. Tampouco existe ficção pura. Existe literatura e fim de papo.

Eu escrevi um livro chamado Depois a louca sou eu sobre uma personagem que se dopa o dia inteiro para suportar a vida. Maluca, insegura, inconstante, apavorada, infantil. Tem lá uns 25% de verdade? Talvez 37%? Como saber? A obra vendeu bem, e, em todas as entrevistas, jamais me perguntaram da protagonista. Queriam saber como eu fazia pra pagar as contas sendo uma doida que vivia medicada. Eu tenho vontade de esfregar no asfalto mijado a cara da pessoa que me pergunta isso. Mas eu pago as contas e cuido de tanta gente e trabalho tanto, mas tanto, e escrevo pra jornal e cinema e teatro e televisão e podcast e crio minha filha tão maravilhosamente bem e passo tantas horas estudando psicanálise e lendo e aconselhando amigos e sendo mais equilibrada do que minha
fantasia aniquiladora de pessoas jamais imaginou, que me falta tempo pra rejeitar o simplismo.

Mãe, herdei de você a complexidade. Você sabe que um papel jamais será você. Você não é nenhuma coluna, nenhum livro. Nem meu pensamento e jamais minha fala. Você não é a mãe de um romance ou do meu divã. Você é imensa demais, e nem que passasse uma vida inteira escrevendo eu daria conta.