EUCANAÃ FERRAZ

            Para mim, a leitura é um exercício de conhecimento. Talvez, por isso, me agradem particularmente os romances históricos, os textos memorialistas, justamente onde o dar-se a conhecer é mais imediato.

            Da poesia, gosto muito, mas, confesso, me falta o hábito. Invejo meu amigo Vítor Biasoli, para quem a poesia é quase uma necessidade física, uma compulsão, uma leitura que tem que ser reposta constantemente, como o insone repõe o sonífero para vencer o peso de ficar acordado no escuro. O Vítor, aliás, é um desses leitores desinteressados, que curte filigranas de textos. Leitor-leitor.

            Talvez eu seja um leitor mais apressado. Daí, por certo, meu gosto pela prosa, que se lê sofregamente. O poema exige lerdeza, cautela, uma passagem vagarosa pelos mesmos pontos. Não pense o leitor, porém, que desconsidero o gênero. Muito pelo contrário: admiro muito os poetas, a capacidade de construir imagens que sintetizam conceitos, as aproximações insólitas, a magia dos sons combinados. Mário de Andrade disse uma vez que Machado só se tornou grande depois de ter passado pela poesia. A sentença continua valendo: a poesia é uma admirável lição para os prosadores.

            A propósito de poesia, sou admirador da obra de Eucanaã Ferraz, professor de literatura da Federal do Rio de Janeiro, que está em seu quinto livro de poemas. Escuta, o mais recente, lançada pela Companhia das Letras em 2015, mostra o verso certeiro de Eucanaã que flagra os estados afetivos mais extremos. Entre o conjunto, flagro uma bela sequência (aliás, quase uma mistura poesia/prosa) que divulgo como uma mostra do bom poeta. Desses que, em uma palavra ou em uma frase, falam por dezenas de páginas de um prosador. Genial, não?

                             

OUTROS LANÇAMENTOS

∗O IMPOSTOR∗

O IMPOSTORO novo livro do romancista espanhol Javier Cerca reconta a história verdadeira por trás de uma das grandes decepções de seu país. Trata-se do sindicalista Enric Marco Battle, que comoveu por décadas a população com sua história de luta ao lado dos republicanos na Guerra Civil Espanhola e de sobrevivência em um campo de concentração nazista. Só em 2005 um pesquisador descobriu que tudo era mentira.

CERCA, Javier. O impostor. Trad. Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2015. 464 págs. R$ 49,90

∗ZÉ DO CAIXÃO, MALDITO – A BIOGRAFIA∗

A trajetória repleta de sucessos e fracassos do mais popular ícone do cinema fantástico brasileiro é revisitada nesta biografia de André Barcinski e Ivan Finotti. O livro sobre o cineasta José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, foi originalmente lançado em 1998, estando há anos esgotado. A nova edição, que comemora os 80 anos do diretor, vem em formato luxuoso, com fotos inéditas e capa dura.

Barcinski, André  e Finotti,  Ivan.  Zé do Caixão, maldito – A Biografia. São Paulo: Darkside Books, 666 págs. R$ 99,90

∗KAOS TOTAL∗

Por ocasião de seus 75 anos, completados no último domingo (17/01), o múltiplo artista Jorge Mautner acaba de ganhar uma coletânea de seus trabalhos. O volume conta com todas as canções do autor, como as pérolas “Maracatu Atômico” (em parceria com Nelson Jacobina e conhecida nas vozes de Gilberto Gil e Chico Science) e “Todo Errado” (gravada com Caetano Veloso), além de poemas, prosas poéticas e pinturas inéditas.

MAUTNER, Jorge. Kaos total. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 384 págs. R$ 54,90

 

A SETE CHAVES

A SETE CHAVES

∗LANÇAMENTO∗

Cada poeta é um mundo, afirma Dilan Camargo na apresentação deste A sete chaves. O livro, com selo da santa-mariense Rio das Letras, reúne sete autores conhecidos dos leitores da região: Haydée Hostin, Humberto Gabbi Zanatta, Marcelo Soriano, Odemir Tex Junior, Orlando Fonseca, Tânia Lopes e Vitor Biasoli. Como informam os organizadores na orelha do livro: “embora haja uma coincidência de tempo e lugar, reúnem-se nesta obra diferentes gerações e diversos olhares. Humberto Zanata, Vítor Biasoli e Orlando Fonseca começaram a sua trajetória em meio aos acontecimentos dos anos setenta. Se, por um lado, tínhamos a ocorrência de um estado de exceção e censura no país – o que demandava do artista a especialidade da metáfora – por outro, reaviva-se no Estado uma ligação telúrica e nativista com as coisas do campo e a cultura gaúcha. Odemir Tex Jr. e Marcelo Soriano são poetas da virada do século, marcados por esta permamência das grandes indagações humanas. Tânia Lopes e Haydée Hostin trazem a sensibilidade e a afirmação da mulher nesta trajetória de busca pela harmonia da humanidade”. E conclui: “a partir deste molho de chaves, acrescente a chave da sua sensibilidade para acessar o conteúdo desta coletânea que temos guardado a sete chaves”. A variedade, de fato, faz bem à poesia. E, melhor ainda, ao leitor.

HOSTIN, Haydée et al. A sete chaves. Santa Maria: Rio das Letras, 2015. 122 págs. R$ 20,00.

PEREGRINAS INQUIETUDES

PEREGRINAS INQUIETUDES.doc

∗LANÇAMENTO∗

A poesia de Moisés Silveira de Menezes, cujo compromisso telúrico é frequentemente afirmado, seja na apurada seleção do vocabulário regional, seja no recorte de assuntos e motivos, desliza com naturalidade para o “sentimento do lugar”, de onde as imagens concorrem para resgatar as vivências do poeta entre seus semelhantes. De pronto, isso significa uma fácil aproximação com o leitor, até mesmo porque, não apenas as figuras humanas são chamadas para o universo do poeta, mas também – e principalmente, a natureza física e material do mundo. Está visto, pois, que este é o caminho através do qual o poema nos coloca em contato com gente e fatos e também em meio a cenários, objetos, animais, árvores, rios, caminhos e circunstâncias.

Escrevi as linhas acima no texto crítico que acompanha “Décima inconclusa aos recuerdos”. O Moisés gentilmente convidou-me para integrar o naipe de críticos e comentadores que ajudam a fazer seu livro adequadamente intitulado Peregrinas Inquietudes. O projeto é interessante e produtivo para o leitor: cada poema é seguido por uma apreciação crítica, fato que ajuda na leitura e deciframento de texto tão peculiar como o da poesia. A orelha é assinada por Joaquim Moncks, escritor, titular da Academia Rio-Grandense de Letras. O prefácio é de Victor Aquino, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, de raízes tupanciretanenses, como eu e o Moisés. Moisés, além de poeta, é historiador, e em 2011 publicou Tupan-Cy-Retan, Face Missioneira. No segmento poesia é autor de Imagens do Sul, de 2000. Com Peregrinas inquietudes volta ao gênero com expressão madura e afeiçoada às imagens da terra.

 MENEZES, Moisés. Peregrinas inquietudes. Santa Maria: Rio das Letras, 2015. 256 págs. R$ 28,00.

VENTO NORTE CARTONERO

E agora José

∗LANÇAMENTOS∗

A mais nova editora santa-mariense de livros artesanais lançou, no último dia 8/4, seus três primeiros títulos: Xorok Kopox do poeta, desenhista e criador de fábulas Zuca Sardan, brasileiro radicado na Alemanha e considerado um dos pais da literatura marginal; Interferências, poesias do escritor mineiro Bruno Brum; E Agora José?, ensaios do professor venezuelano Fernando Villarraga (UFSM), que, através de uma linguagem “nada acadêmica”, propõem uma reflexão sobre o ambiente universitário. Entre os volumes de poemas, destaque-se que Sardan é arquiteto de formação e diplomata de profissão. Nos anos 70, integrou a geração mimeógrafo e, posteriormente, destacou-se no circuito editorial brasileiro (Editora da UNICAMP, Ossos do coração e As de colete; Companhia das Letras, Babylon; Cosac Naify, Ximerix). Quanto a Bruno Brum, mineiro de Belo Horizonte, Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2010), é curador da coleção Leve um Livro, projeto destinado a distribuir em Belo Horizonte, de forma gratuita, microantologias de 24 poetas contemporâneos. Já no tocante à ensaística, entre os lançamentos da semana,  Villarraga, que é professor de Literatura, cujas primeiras letras foram cursadas “na cidade mais feia do mundo, segundo a frase cáustica de Gabo”, através de uma visada crítica, enfoca particularmente a área de Letras, questionando uma noção produtivista diante da qual perderam espaço os referenciais relevantes de quem, como o autor, teve sua formação na “ciudad letrada”, “sabendo que, pelas condições de uma modernidade periférica, a de América Latina, apresentava uma peculiar fisionomia transculturada e heterogênea”. Títulos como “Divagações de um homo sapiens diplomado”, “Do passado das Letras às Letras do passado” e “Os Cursos de Letras na época do pós-tudo ou o mordomo levou a passear as Letras” dão o tom algo sarcástico do autor que, como ele mesmo ressalta, já lhe valeu a pecha, entre os pares, de “forasteiro fora do lugar”. Vale a pena conferir.

 VILLARRAGA, Fernando. E agora José? Santa Maria: Vento Norte Cartonero, 2015. 94 págs. R$ 10,00

SARDAN, Zuca. Xorok Kopox. Santa Maria: Vento Norte Cartonero, 2015. 34 págs. R$ 10,00.

BRUM, Bruno. Interferências. Santa Maria: Vento Norte Cartonero, 2015. 34 págs. R$ 10,00

SONETOS DE SHAKESPEARE

William Shakespeare

∗LANÇAMENTO∗

Chega ao mercado brasileiro, pela Editora Landmark, os Sonetos Completos, de William Shakespeare. Trata-se de edição bilíngue dos 154 sonetos escritos no final do século XVI pelo maior dramaturgo inglês. Sobre a Landmark, é interessante lembrar o rumoroso caso de alguns anos atrás, quando esta editora processou a tradutora Denise Bottmann. À época, Denise mostrara diversas semelhanças entre a tradução do livro Persuasão, de Jane Austin, assinada por Fábio Cyrino, diretor editorial da empresa, e a versão de Isabel Sequeira, publicada pela portuguesa Europa-América em 1996. O processo não prosperou e Denise mantém ativos seus posts contra plagiadores de traduções. Esta de Shakespeare, em todo caso, parece não correr riscos. O trabalho é assinado pelo poeta e escritor Vasco Graça Moura. O livro, originalmente publicado em Portugal em 2002, foi elogiado pela crítica especializada por seu preciosismo.

SHAKESPEARE, William. Sonetos completos. São Paulo: Landmark, 2014. 344 pags. R$ 55,00.

A IDADE DO SERROTE

A idade do serrote

∗LANÇAMENTO∗

Publicado originalmente em 1968 e esgotado há muitos anos, era um dos livros difíceis de encontrar, mesmo em sebos. É, pois, bem vinda a bela reedição feita pela Cosac Naify, dentro do projeto de relançar a obra de Murilo Mendes (1901-1975). A idade do serrote é um texto memorialístico, no qual o autor, através de uma estrutura melódica e repleta de citações, reconstitui lembranças, ora na ficção, ora na dicção. Apesar de o autor ter vivido grande parte da vida em outro país, sua obra salienta a infância e a adolescência na cidade de Juiz de Fora. Nesse universo afetivo, destacam-se a Rua Halfeld, as pessoas com quem o autor conviveu, tios, tias, o padre Júlio Maria e outros tantos que fizeram parte de sua trajetória. A edição da Cosac traz posfácio assinado por Cleusa Rios Passos, professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo. Há também uma crônica de Carlos Drummond de Andrade sobre o livro, publicada no jornal Correio da Manhã, em 1968, e uma carta-resposta de Murilo – ambas inéditas em livro.

MENDES, Murilo. A idade do serrote. São Paulo: Cosac Naify, 2014. 130 pags. R$ 36,00 em média.