SOBRE LIVROS

∗A NOITE DO MEU BEM∗

A noite do meu bemLivro sobre a história e as histórias do samba-canção, traz informação de qualidade e confirma que o mineiro Ruy Castro faz jus ao benemérito título de cidadão carioca. Na obra, Castro descreve a cidade do Rio de Janeiro, desde o “Rio Colonial” até chegar ao tema principal, a partir de 1946, período em que os cassinos foram fechados e boates foram surgindo para acolher o “samba suavizado pela canção”.

Castro produz bastante. Há 27 anos, o “mineirioca” assumiu ser escritor, embora desenvolvesse o ofício da escrita na imprensa desde 1967. Teve 18 obras publicadas, participou de outras, mas ficou conhecido pela produção de biografias que ganharam destaque. Entre elas, O Anjo Pornográfico (1992), sobre a vida de Nelson Rodrigues; e Estrela Solitária (1995), sobre o jogador Garrincha, que lhe rendeu o prêmio Jabuti em 1996.

Em A Noite do Meu Bem, mais uma vez, o escritor exerce seu poder de recriar ambientes, ressuscitar pessoas e colocar o leitor diante delas. Assim, o biógrafo do samba-canção promove, mesmo no silêncio, a audição de belas músicas. Como se não bastasse, receitas culinárias como a do picadinho criado pelo vienense Stuckart, idealizador da boate Meia-Noite, irmã menor do Golden Room do Copacabana Palace, enchem a boca de quem as lê. Aos mais sensíveis, cuidado ao ler sobre o “penetra” e colunista social Ibrahim Sued (1924-1995), que tomou uísque batizado com urina de um playboy na boate Vogue. Porém, o livro traz muito mais. Só lendo para crer.

CASTRO, Ruy. A noite do bem bem. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 512 págs. R$ 59,00 e R$ 39,90 (e-book)

(FONTE: Maurício Meireles. Folha de São Paulo: 14/12/2015)

∗EU TE AMO, MAS ESTOU BÊBADO∗

 O jornalista Vinícius Novaes estreia na literatura com esta coletânea de 19 crônicas que investigam o sentimento amoroso. O autor transforma o amor em um ser antropomórfico de carne e osso que também sofre, sente e bebe para esquecer – e que lança líricos e bem-humorados protestos e reclamações ao autor por criá-lo para tantos infortúnios.

 NOVAES, Vinícius. Eu te amo, mas estou bêbado. Rio de Janeiro: Multifoco, 2015. 42 págs.  R$ 34,00

∗OUTROS CANTOS∗

 Maria Valéria Rezende, vencedora do Prêmio Jabuti com o romance Quarenta Dias, cuja trama se passa em Porto Alegre, lança agora nova narrativa longa inspirada em sua experiência como professora no sertão nordestino durante a Ditadura Militar. A protagonista, durante uma longa viagem de ônibus, rememora seu passado como educadora em Pernambuco.

REZENDE, Maria Valéria. Outros cantos. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015. 152 págs. R$ 34,90

LIVROS E EVENTOS CELEBRAM 150 ANOS DE EUCLYDES DA CUNHA

Em 1898, uma enchente levou a ponte de São José do Rio Pardo (SP). O enviado para recolocá-la de pé foi o escritor e engenheiro Euclydes da Cunha – que anos antes testemunhara a Guerra de Canudos. Na cidadezinha, ele ergueu a ponte e sua obra-prima: Os Sertões (1902), em que narra a luta das forças republicanas contra os fiéis de Antônio Conselheiro.

O autor de um dos marcos da literatura nacional completaria 150 anos em 20/01/2016. A comemoração é composta de atrações que se desdobrarão ao longo do ano. Três novos livros estão vindo por aí, e a cidade de São José do Rio Pardo vai celebrar a data.

A Casa Euclidiana, centro cultural localizada onde o autor escreveu Os Sertões, sedia eventos em memória do escritor. O auge ocorre na semana de 9 a 15/8 – quando a cidade promove, há quase 70 anos, a “Semana Euclidiana”.

Em março, a Unesp começa a editar a prosa completa de Euclydes acrescida de inéditos – em vários volumes, organizados por Leopoldo Bernucci, pesquisador da Universidade da Califórnia em Davis, e Felipe Rissatto, euclidiano independente. “Além dos inéditos, o primeiro tomo trará ensaios conhecidos, mas em versões diferentes”, afirma Leopoldo Bernucci.

O pesquisador publica ainda neste ano seu livro “Um Paraíso Suspeitoso”. Nele, Bernucci traça a relação entre o escritor, o poeta colombiano José Eustasio Rivera e o brasileiro Alberto Rangel -que, como Euclydes, denunciaram a escravidão nos seringais da Amazônia.

Também é este o ano de revisitar a “tragédia da Piedade”, episódio no qual Euclydes flagrou sua mulher, S’Anninha, com o amante, Dilermando de Assis, e acabou morto por este. Anna Sharp, neta de S’Anninha, prepara, para o meio do ano, um romance contando a história do ponto de vista de cada um dos vértices do triângulo amoroso.

O livro é baseado em um diário da avó encontrado em 2014. “Receber o diário dela foi um sinal”, diz Anna Sharp.

(Fonte: Maurício Meireles, colunista. Folha de São Paulo, 20/01/2016)

Caderneta Euclides

Desenho do Arraial de Canudos, feito por Euclydes da Cunha da perspectiva do Morro da Favela. Facsimile de caderneta do autor.

GHIGGIA

            Há certas conjugações de fatos, aproximações de aparentes lances fortuitos, que dá o que pensar.

            No futebol, dentro de campo, há muitas dessas.  Décio de Almeida Prado, estendendo a observação para outro campo de jogo – o da corrida de cavalos – afirmou uma vez que entendido em corridas é quem sabe prever no sábado que cavalo ganhará o Grande Prêmio do domingo e na segunda-feira sabe explicar por que ele não ganhou. Essa é a diferença entre ciência, onde os fatos são previsíveis – o sol nascerá amanhã às 6h46min – e o jogo, no qual não existem senão probabilidades.

            Mutatis mutandis – e para ficar nas sendas do futebol, ainda de acordo com as sábias palavras do saudoso professor Almeida Prado: “nunca desdenhe um bom treinador, sobretudo se conduzir à vitória. Mas não esqueça que pode haver no campo de futebol outras inteligências que não a dele”. Esta é a ressalva que Tostão seguidamente se impõe quando comenta um jogo ou determinado time: há muitas variáveis dentro das quatro linhas e muitas delas decorrem de circunstâncias do momento da disputa que, como tais, resolvem-se ao sabor do aleatório: um cruzamento que vira gol, um erro de passe que se transforma em drible desconcertante, e por aí vai.

            Qual foi, de fato, a motivação de Ghiggia ao bater uma bola cruzada naquele 16 de julho de 1950? Com a festa pronta e o flamante Maracanã lotado, o empate em 1 a 1 com o Uruguai conduzia o Brasil ao esperado campeonato mundial. Mas, a menos de 10 para o apito final (eram 34 do segundo tempo), o uruguaio Alcides Ghiggia escapou pela direita e, com pouco ângulo, chutou forte para a área brasileira. Era para ser um cruzamento? Ou, consciente do goleiro adiantado, buscara o canto desguarnecido?

            Fortuito ou consciente, o gol consagrou o mito da indomável bravura uruguaia. Ao morrer, no 16 de julho passado, na exata data dos 65 anos da batalha do Maracanã, o guerreiro Ghiggia, personagem emblemático daquela saga, acrescentou mais um lance a este quê de surpresa e mistério que, dentro e fora dos gramados, alimenta a imaginação e aquece a vida.

MORRESTE-ME

Morreste-me

∗LANÇAMENTO∗

Passados 15 anos do seu lançamento, a obra que inaugurou a carreira do português José Luís Peixoto é finalmente publicada no Brasil e, orgulho nosso, pela Dublinense, editora rio-grandense que vem procurando ampliar um cardápio de qualidade em seu catálogo. Publicada em 2000, Morreste-me é uma obra tocante e comovente: é o relato da morte do pai, o relato do luto e, ao mesmo tempo, uma homenagem, uma memória redentora. Destaca-se, na obra, dividida em quatro partes, o narrador que, a cada página, lembra-nos da urgência do tempo ante os antagonismos da vida e da morte perfilados na memória que atualiza a ausência sentida: “regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. É tudo como se continuasse”. Um dos destaques do volume está no trato refinado que empresta à língua portuguesa, recuperando, com ares de filólogo cuidadoso, uma sintaxe há muito esquecida, como no trecho seguinte: “na berma da estrada, entre extensões amarelecidas de mato e cardos secos, entre searas gigantes de trigo, rompem ervas corajosas poucas, rompem papoilas que do fogo sangue das suas chamas ateiam o louro, o áureo”. José Luís Peixoto, 40 anos, acumula obra ficcional e poéticas das mais festejadas, com imenso reconhecimento de público e crítica, que inclui, na última década, alguns dos mais prestigiados prêmios literários internacionais.

PEIXOTO, José Luís. Morreste-me. Porto Alegre: Dublinense, 2015. 64 págs. R$ 29,00.

LAURO HAGMANN

O radialista Lauro Hagmann, 84 anos, morreu na segunda-feira, 11/5, em Porto Alegre. Os obituários que saíram em vários espaços da mídia impressa e eletrônica deram conta de sua famosa passagem como locutor do Repórter Esso, versão RS. No período de 1950 a 1964, quando o noticiário deixou de existir, foi seu apresentador titular na Rádio Farroupilha. O que essas notas biográficas deixaram de lado foi sua passagem pela Rádio Guaíba entre os anos 60 e 70, quando integrou um dos mais famosos castings que o rádio rio-grandense conheceu ao lado de nomes como Enio Berwanger, Ruy Strelow, José Fontella, Euclides Prado, Nabor Couto e Egon Bueno. Hagmann tinha um ritmo muito peculiar, fazia um estilo com empostação grave e pausada, algo próximo, para quem ouviu e lembra, do Patrônio Cabral, que foi outro monstro sagrado daquela geração e que marcou época na nossa Rádio Imembui, aqui em Santa Maria. Por tempos a fio, quando saía para a aula de manhã, meu pai ficava ouvindo o Rádio Jornal Guaíba Correio do Povo. Ali, entre 7h e 7h30min, pontuava a voz do Lauro Hagmann. Meu tributo a esta memória rica da cena pública rio-grandense, engrandecida por sua passagem marcante pela política, como deputado comunista e como batalhador por sua classe. Não o conheci pessoalmente, mas em meus tímpanos ainda ecoa a cortina musical que me acordava para a aula naquela quadra de descoberta e aprendizado. É em sua memória que registro neste espaço a Marcha dos Violinos, que é como se chama o saudoso prefixo musical. Quem, como eu, já passou dos 50, há de lembrar…

Marchin’ violins (Franck Pourcel e Raymond Lefevre). Franck Pourcel Orchestra.

LONGE DAS ALDEIAS

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∗LANÇAMENTO∗

Robertson Frizero é escritor, tradutor, dramaturgo e professor de oficinas literárias. Mestre pela PUCRS, teve seu livro de estreia, o infantil Por que o Elvis não latiu? (2010), indicado como finalista do Prêmio Açorianos de Literatura (2011). Primeira narrativa longa do autor porto-alegrense e mais uma novidade de ficção no mercado editorial sulino, Longe das aldeias conta a história de Emanuel, um jovem de 17 anos, que, mirado em seus próprios traços físicos, tenta recompor as características do pai que não conheceu em virtude de circunstância dramática: quando garoto, migrou com a mãe para o Brasil em fuga de uma guerra civil. Próximo da maioridade, o jovem, concebido em meio ao caos do conflito armado, inicia a jornada de busca da identidade paterna. Para alcançar seu objetivo, porém, terá de enfrentar um desafio: percorrer as memórias da mãe, que sofre de uma doença que a faz se esquecer do passado. O romance desdobra-se a partir do núcleo familiar composto por Emanuel, o protagonista, a mãe, Marija, a tia, Mirna, e o buscado pai, ingredientes que, na opinião do comentador Gustavo Melo Czekster, revelam “o amor como um jogo de neblina e de espelhos e trata(m) a vida como uma longa história repleta de reticências e de pontas soltas”.

 FRIZERO, Robertson. Longe das aldeias. Porto Alegre: Terceiro Selo, 2015. 96 págs. R$ 32,90.

RUTH E A ARTE DO BEM-DIZER

            Com a professora Ruth Larré, que nos deixou semana passada, vai-se, também, um raro talento da arte do bem-dizer.

            A retórica, bastante em desuso na cena pública atual, é, afirma a tradição, a ciência do discurso persuasivo. No campo filosófico, encontra suas bases no mestre grego Aristóteles, para quem, é parte essencial das funções humanas. Seu exercício exige conhecimento a respeito do que se diz e, especialmente, do modo como se diz.

            Sei que a Ruth foi uma professora das mais dedicadas ao seu ofício – a compreensão e o ensino da língua, e deixou legiões de alunos, muitos, hoje, profissionais afirmados em várias áreas do saber, que aprenderam com ela a importância do domínio do idioma e a verdadeira arte que é saber expressar-se por diferentes meios – tanto na oratória como na escrita. Todos, por certo, capazes de evocá-la nos conhecidos versos de Cecília Meireles: “ai palavras, ai palavras, / que estranha potência a vossa!”

            Tivemos sorte os que aprendemos contigo, Ruth! Pedro, meu filho mais velho, por exemplo, foi aluno dos teus cursos e te deve muito pelo texto escorreito que tornou feitio seu. De minha parte, o registro mais presente é tua imagem de professora de português do Constantino Reis. Nas antigas coberturas de vestibular, pela velha Guarathan, tua presença marcante era atração certa, na hora das dicas, às vésperas das provas, ou na firmeza dos comentários, depois de conhecidas as questões. Ultimamente, ainda nesta seara radiofônica, tornei-me um ouvinte ocasional de tuas participações nas manhãs do programa da Salete Barbosa.

            Ouvir-te no rádio, de qualquer sorte, era sempre um privilégio, pois, ali, tua dicção clara e firme mostrava o irretorquível talento para a oratória.  Consola, Ruth, da perda de tua partida, o exemplo de tua devotada vida – para os teus e para todos nós que, de alguma maneira, convivemos contigo e contigo aprendemos a funda importância do bem-dizer. Pertences, agora, a esta parcela algo indecifrável, onde, desde sempre, as palavras fazem morada, como bem nos vaticinou a mestra Cecília: “sois de vento, ides no vento, e quedais com sorte nova”.

ALMANAQUE DO LUPI 100 ANOS

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∗LANÇAMENTO∗

O livro é organizado em capítulos temáticos. Ao tópico de abertura, seguem-se pequenos textos, notas, e profusão de ilustrações. Tudo isso para dispor, de maneira cronológica, vida e obra de Lupicínio Rodrigues, entre 1880 (nascimento do pai em Canguçu) e 1974 (a morte no Hospital Ernesto Dornelles, dias antes de completar 60 anos). Trechos de letras de músicas pontuam todas as páginas. No final, está a lista das 286 canções conhecidas, registradas ou não em editoras, os discos gravados por ele e por outros, os livros e trabalhos acadêmicos sobre sua obra. O autor, Marcello Campos, tem credencial. Jornalista e pesquisador, Marcello vinha mirando em Lupicínio desde que publicou seu primeiro trabalho, Week-end no Rio (2006), sobre o Conjunto Melódico Norberto Baldauf. Considerando a dificuldade prática de biografar o gênio da dor-de-cotovelo, o autor fez verdadeira preparação de campo, atividade que resultou em dois outros títulos: Minha Seresta – Vida e Obra de Alcides Gonçalves, de 2011, que versa sobre quem primeiro gravou Lupi e um de seus principais parceiros; e Johnson – O Boxeur-cantor, de 2013, sobre o maior amigo e compadre de Lupi. Almanaque integra as comemorações do centenário de nascimento do compositor e músico, ocorrido em 2014.

CAMPOS, Marcello. Almanaque do Lupi. 100 anos. Porto Alegre: Editora da Cidade/Letra&Vida, 2015. 102 pags. R$ 40,00.

O BRILHO DO BRONZE

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∗LANÇAMENTO∗

Diário escrito pelo historiador Boris Fausto (84 anos, professor aposentado da USP, autor da canônica História do Brasil). A princípio, voltado a reflexões dolorosas acerca do luto pela perda da esposa, companheira por 49 anos, os escritos pouco a pouco se abrem para o cotidiano concreto, ainda que envolto pela marca da ausência. O resultado revela um olhar crítico e atento à vida contemporânea, permeado pelo senso de humor inabalável do autor. O elemento central da narrativa, que motiva o título, é a lápide num túmulo do cemitério do Morumbi, em São Paulo. Em suas visitas, o autor do diário se demora diante da lápide, examina cada um dos seus contornos, passa ternamente os dedos no nome ali inscrito, letra a letra. Traz flores para enfeitá-la. Contrata um funcionário para que a mantenha sempre brilhante. A lápide não é, definitivamente, só uma lápide. A certa altura, escreve: “Não consigo e nem quero pensar que há ali apenas um memorial. Prefiro pensar que, de algum modo, nos comunicamos com muito amor”. O título leva o selo da Cosac Naify.

FAUSTO, Boris. O brilho do bronze. São Paulo: Cosac Naify, 2014. 140 pags. R$ 40,00.

TUPÃ DONA DA NOITE

            Das tantas recordações que me tocam da velha Rádio Tupã, na qual trabalhei como locutor entre 1974 e 1977, restou uma, materializada na moldura da parede. É um diploma que recebi, com pompa, em jantar festivo no Clube Comercial. Tenho vaga lembrança do nervosismo engomado daquela noite e de minhas mãos trêmulas segurando a comenda conferida a “Tupã Dona da Noite”.

            Bem mais à vontade, por certo, do alto de meus quinze anos, me perfilava no velho estúdio da General Osório, onde, das nove à meia noite, comandava o tom romântico, recheado com declamação de poemas e programação musical em geral ditada pelas cartinhas chegadas ao longo do dia e pelos bilhetinhos que os ouvintes, ligados no som do carro, depositavam na rádio enquanto circulavam, aos pares ou em turmas, naquela época de combustível farto e barato.

            (Esta experiência de fazer rádio noturno, em verdade, não passou do primeiro ano de uma carreira que continuaria de forma ininterrupta por bem mais de uma década e que ainda repercute na lembrança bondosa de tantos amigos. Lembro que, ao fim do curso ginasial, pedi transferência de aula para o turno da noite e, definitivamente, daí para a frente, concentrei o trabalho durante o dia e elegi o foco do jornalismo e do esporte, funções que, mais tarde, me trouxeram para Santa Maria e para o prefixo da Rádio Guarathan).

            O “Tupã Dona da Noite” era completamente inspirado – inclusive no nome e na eleição da cortina musical – no “Itaí Dona da Noite”. No entanto, corria em faixa própria, uma vez que a concorrente da capital não tinha potência suficiente para nos alcançar em Tupanciretã.

            A propósito do “Dona da Noite” porto-alegrense, é impressionante como tem gente insuspeita que confessa saudade daqueles tempos pré-fm. Para citar um exemplo, não faz muito, o jornalista David Coimbra registrou um post nostálgico que ilustra o prestígio do indigitado congênere:

Eu tinha lá meus 12 anos e namorava uma gatinha chamada Silvia Lemos. Namoro é forma de falar. Naquele tempo era coisa inocente, de pegar na mão e beijar no rosto e pronto. Mas era uma emoção, cara. A maior paixão. O irmão da Silvia Lemos era o meu melhor amigo, o Nique. Por coincidência, ele namorava com a minha irmã, que, por outra coincidência, também se chama Silvia. Então ficávamos nós dois com nossas Silvias, os quatro mais brincando que namorando, crianças que éramos, mas, de alguma forma, flutuando encantados nos primeiros vagidos do amor. Um dia, eu e o Nique ligamos para a rádio Itaí [Dona da noite] a fim de oferecer uma música para as nossas garotas. Pedimos o sucesso do momento e ouvimos enlevados no radinho de pilha, olhando para o céu azul-escuro de Porto Alegre através da janela do meu quarto às margens da Avenida Plínio Brasil Milano.

            Com o depoimento do David me dei conta de que, na verdade, registros radiofônicos como aqueles musicais notívagos dos anos 70 encarnavam um espírito lovemeter bem próprio da época. Prova está no grande apelo público que alcançaram.

            Em reconhecimento a esse espírito – e como tributo à minha empreitada juvenil, ora bolas – o prefixo musical daquela ode à vida. Na Rádio Tupã era a segunda faixa do lado A de um compacto duplo do Herb Alpert. A música chama-se “Mae”. Terminados os comerciais, com seus acordes ao fundo, caprichando nos graves e cuidando para não espichar conversa, o que era uma das marcas do horário, infalivelmente eu entrava com o Tupããã – Dooona da noite, dava a hora, registrava os ouvintes e anunciava as próximas duas músicas.

            Então, com vocês, Mae – Herb Alpert & Tijuana Brass…

         Mae. Herb Alpert & Tijuana Brass. A&M Records, 1965