CONTROLE REMOTO

            Em 80, comprei uma TV colorida no Stoever & Filhos (alguém lembra?) e escolhi um modelo sem controle remoto.

            O que me levou a dispensar o controle? Se a mim fosse feita a pergunta, na época, responderia logo que fui motivado pela diferença de preço. Para ter a engenhoca pagava-se bem mais caro.

            Acho, porém, que havia outros motivos, talvez menos salientes, em minha definição. Um deles, por certo, era bem pragmático. Para que controle remoto? Afinal, havia apenas dois ou três canais à disposição e, em quase cem por cento do tempo, optávamos mesmo era por um deles, quando mais não fosse, porque a qualidade da imagem era muito melhor. Outro motivo, creio, prendia-se ao fato de que ainda tinha muito presente certo peso de culpa diante do conforto. A própria televisão colorida cheirava a novidade no mercado e eu, às vezes por necessidade, às vezes por opção (ou formação, sei lá) convivia mal com os excessos materiais. Portanto, adquirir o aparelho já significava, em si, um luxo. Que dirá ter um controle remoto! Ademais, o que era levantar-se da poltrona e fazer a troca de canais no próprio aparelho?

            Recordo esse episódio e fico pensando que minha geração – que está entre os 50 e os 60 – contentava-se com pouco. Em geral, tínhamos poucas peças de roupas, poucos sapatos, poucos discos. Em viagem, às vezes, levava-se menos que o essencial. E não me refiro aos que estavam abaixo da linha de consumo. Na média, vivíamos, com nossos pais, a era da unidade: o carro único, a TV única, o rádio único.

            Acho que, mesmo assim, raramente aspirávamos ter mais do que tínhamos. Afinal, aquela parecia ser a ordem natural das coisas. Não lembro de um dia ter sentido algo na linha de uma angústia da falta. Já hoje, quando temos o mundo ao nosso alcance, a imensa e fácil oferta causa, sim, a angústia do excesso.

            Nossas salas, nossos quartos, nossas garagens estão cada vez mais atulhados. E, pior, o problema não é dispor de controle remoto. O problema é ter um e não saber o que fazer com ele.