O NOME DA ROSA

            Sempre que, em aula, instado a responder sobre verossimilhança, isto é, sobre o recurso usado pela literatura para parecer verdadeira, recorro ao exemplo de “O nome da rosa”.

            O romance de Umberto Eco, como se sabe, discorre sobre o possível sumiço da Poética II, obra atribuída a Aristóteles. O caso é o seguinte: nas anotações que chegaram até nós e criaram uma tradição conhecida como Poética, o filósofo grego discorre sobre a tragédia e a epopeia prometendo tratar da comédia em outro lugar. Eis o problema: as notas sobre a comédia nunca apareceram o que deu origem a uma indagação histórica de que a Igreja poderia tê-las consumido.

            Razões para a suspeita não faltam. Escritos medievais dão conta de que o riso não só teria o poder de suspender a razão como de desarmá-la. Liberá-lo poderia livrar o indivíduo do medo do demônio, tornando-o vulnerável às suas armadilhas. É com base em afirmações dessa ordem que estudiosos contemporâneos aventam a hipótese de a Igreja ter consumido a Poética II, isto é, o livro que Aristóteles teria destinado ao trato da comédia.

            Em “O nome da Rosa”, Umberto Eco explora exemplarmente este argumento. Na obra, estranhas mortes começam a ocorrer num mosteiro beneditino localizado na Itália durante a baixa Idade Média. Um fato estranho cerca o caso: as vítimas aparecem sempre com os dedos e a língua roxos. A chegada de um monge franciscano levará, por fim, ao cerne do mistério: os mortos envenenavam-se ao folhear a Poética II que repousava em sala secreta da biblioteca do mosteiro.

            Onde, pois, está o exemplo da verossimilhança na ficção de Eco? Elementar: no fato de que o apregoado livro maldito ser consumido pelas chamas exatamente no episódio em que é descoberto pelo detetive franciscano. Portanto, à semelhança do que teria ocorrido na realidade factual, também no romance o destino da Poética II é sumir no fogo e no obscurantismo.

            Como ensinou o próprio Eco, seja com os truques de semelhança, seja com o salvo conduto do saber, o livro ainda é o meio ideal para aprender.

GAÚCHOS DE 30

            Por estes dias, tenho teimado contra o tempo para fechar um artigo que trata de autores gaúchos que produziram ao redor de 1930.

            Entre eles, avulta a figura de Aureliano de Figueiredo Pinto. É impressionante reler Aureliano e auscultar o eco de sua crescente importância. Nascido na zona rural em região adstrita a então vila de Tupanciretã, alfabetizou-se com a ajuda da mãe em casa. Com 10 anos ingressa no Colégio Santa Maria para cursar o Ginásio. Daqui, ganha mundo: vive em Porto Alegre e no Rio de Janeiro até concluir o Curso de Medicina em 1931.

            Em seguida já aparece clinicando em nossa vizinha Santiago. Com breves interrupções, motivadas por saídas motivadas pelo trabalho, Santiago é sua cidade definitiva, onde, até morrer, dividirá as funções da clínica médica com o hábito regular de escrever.

            Consta que foi dos primeiros a reconhecer o valor da obra literária de João Simões Lopes Neto, da mesma maneira que era versado na literatura criolla platina. Como o velho tapejara criado por João Simões, seus narradores e personas poéticas traduzem ao horizonte de vivências campeiras os dramas maiores da existência como a solidão, a velhice, o empobrecimento, a traição e a vingança.

            O ano de sua morte, 1959, coincide com o lançamento, pela Editora Globo, de Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo. Foi o primeiro livro, que, ironicamente, lhe chegou às mãos nos últimos instantes da existência. Os demais títulos foram póstumos. Dois são de poemas: Romances de Estância e Querência – Armonial de Estância e Outros Poemas (Sulina, 1963) e Itinerário – Poemas de cada instante (Movimento, 1998). A esses volumes, soma-se a novela Memórias do Coronel Falcão, espécie de contraprova da capacidade inventiva do autor. A comprovar-lhe o peso e o alcance, tardiamente recompensados, a obra, escrita na década de 30, recebeu três edições em sequência, todas da Editora Movimento (1973/74/86).

            Seus livros confirmam a reconhecida dotação intelectual que, no transcurso da existência, granjeou testemunhas ilustres e continua somando novos e interessados leitores, como grande literatura que é.

A LIÇÃO DE ANATOMIA DO TEMÍVEL DR. LOUISON

A lição de anatomia

∗CRÍTICA∗

Meu colega de UFSM, Enéias Tavares, ganha destaque no cenário da literatura contemporânea com A lição de anatomia do temível Dr. Louison. Se o prezado leitor é medianamente informado, já deve ter lido ou ouvido algo a respeito. Como esclarece uma das apresentações da obra, “em um Brasil retrofuturista [onde] serviçais robóticos e geringonças apocalípticas coexistem com o sobrenatural, o jornalista Isaías Caminha desembarca em Porto Alegre para cobrir a prisão do infame assassino Dr. Antoine Louison, aprisionado no lendário asilo São Pedro para Psicóticos e Histéricas. Na noite anterior à sua execução, porém, o facínora escapa, desaparecendo como um fantasma de folhetim”. Romance de ação com sacadas de folhetim, inscreve Enéias na onda que a banda Arrase traduz com a linguagem musical do hard rock: “botas y tirantes, crestas y remaches/ dicen que nos vieron ayer por la noche, /todos estranados, nos creian enemigos, / el mismo camino, juntos hasta el fin… /Punks y Skins, punks y skins”. Skinpunk, vizinho do steampunk significa isso que está na mensagem da música: circular por caminhos misteriosos e pouco movimentados, de preferência sob o ar secreto da noite, em nome de um ideal que nem todos entendem.

Quando passeamos pela galeria de tipos exóticos como a que nos apresenta o livro que temos em mãos, logo reconhecemos essas referências da música e do pop contemporâneos. De acordo com a definição do próprio autor: “o steampunk é um gênero de ficção especulativa que, ao invés de ambientar seu enredo no futuro, prioriza o passado, ou ao menos uma visão alternativa de passado. O salto imaginativo deste universo se dá em três direções: na reimaginação da tecnologia da época, na revisão da história como a conhecemos e na possibilidade de utilizarmos personagens reais ou ficcionais (em especial os que já caíram em domínio público), para contar uma história fantástica”.

No livro, aproximações improváveis desfilam sob as hostes do Parthenon Místico – sociedade secreta que reúne o imoral satanista Solfieri de Azevedo, o cientista louco Dr. Benignus, a médium indígena Vitória Acauã e os aventureiros do oculto Sergio Pompeu e Bento Alves. Tudo isso, com o requinte morfológico e sintático de certa recuperação de época na linguagem (à maneira da norma das primeiras décadas do século XX, tempo em que se situam as ações narradas, a “graphia” incorpora alguns arcaísmos, bem como, em determinados períodos, ecoa aquele torneio frasal próprio de certo expressionismo literário que entre nós ganhou fama na pena de Raul Pompeia, como na sentença de abertura – “colimando glórias extraordinárias, deixei a carruagem mecanizada e dirigi-me ao aerocampo”).

O livro tem outras sofisticações. Uma delas, lembra passo de alcance semiótico, a la Umberto Eco. Trata-se da reprodução de um mapa de época, apresentado como “Planta da Cidade de Porto Alegre, Capital do Estado do Rio Grande do Sul”. Porto Alegre dos Amantes, aliás, é como se denomina o espaço que é palco das ações centrais. Entre as demais referências espaciais, no que nos diz respeito, destaque para Santa Maria da Bocarra do Monte, que figura ao final do texto como o espaço para onde viaja uma das personagens após o desembaraço do enredo principal. No capítulo das intertextualidades, ao modo steampunk, nada supera o reaproveitamento de personagens “vividos” ao redor da época em que se passam as aventuras do dr. Antoine Louison – alguns, em verdade, um pouco antes. A lista referenciada é ampla e tem nomes consagrados de nossa historiografia literária. Entre eles estão Álvares de Azevedo e seu Noite na Taverna (de onde vem o personagem Solfieri); Joaquim Manuel de Macedo, a Luneta Mágica (Simplício), Machado de Assis, O Alienista (de onde são decalcados Simão e Evarista Bacamarte), Raul Pompeia, O Ateneu (Sergio e Bento); Aluísio Azevedo, O Cortiço (Rita Baiana, Pombinha e Léonie) e Lima Barreto, Recordações do escrivão Isaías Caminha (de onde revive o trio Isaías Caminha, Floc e Loberant).

De outro modo, dirigíveis, criaturas robóticas, mensagens telegráphicas e gravações (também robóticas) se encarregam de completar o embaralhar de tempos de acordo com o gênero em questão que, conforme seus comentadores, define o caráter técnico da sociedade contemporânea recorrendo a uma tradição oriunda do romantismo dos séculos XVIII e XIX, sobretudo dos contos góticos e de horror. Enéias Tavares, especialista nos livros iluminados de William Blake e professor de Literatura Clássica na nossa UFSM, também entra no clima. Na orelha de contracapa, a nota biográfica confessional declara que “quando perde a inspiração, [ele] diverte-se colecionando escorpiões robóticos, lembranças photoelétricas e amizades improváveis”.

A lição de anatomia do temível Dr. Louison coloca Enéias na senda de um dos gêneros que ganha público cativo, organizado em legiões de seguidores, e venceu o concorridíssimo concurso da Fantasy, selo da editora Casa da Palavra, do Rio de Janeiro. Leitura obrigatória para atualizar nossa agenda com a ampliação dos horizontes literários nos dias que correm e também para verificar que, como o autor nos prova, a discussão entre mainstream vs. underground, mesmo em tempos mal educados e truculentos, pode se dar em alto nível. E, claro, com bom gosto e alta dose de criatividade.

TAVARES, Enéias. A lição de anatomia do temível Dr. Louison. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014. 320 págs. R$ 34,90.

A SETE CHAVES

A SETE CHAVES

∗LANÇAMENTO∗

Cada poeta é um mundo, afirma Dilan Camargo na apresentação deste A sete chaves. O livro, com selo da santa-mariense Rio das Letras, reúne sete autores conhecidos dos leitores da região: Haydée Hostin, Humberto Gabbi Zanatta, Marcelo Soriano, Odemir Tex Junior, Orlando Fonseca, Tânia Lopes e Vitor Biasoli. Como informam os organizadores na orelha do livro: “embora haja uma coincidência de tempo e lugar, reúnem-se nesta obra diferentes gerações e diversos olhares. Humberto Zanata, Vítor Biasoli e Orlando Fonseca começaram a sua trajetória em meio aos acontecimentos dos anos setenta. Se, por um lado, tínhamos a ocorrência de um estado de exceção e censura no país – o que demandava do artista a especialidade da metáfora – por outro, reaviva-se no Estado uma ligação telúrica e nativista com as coisas do campo e a cultura gaúcha. Odemir Tex Jr. e Marcelo Soriano são poetas da virada do século, marcados por esta permamência das grandes indagações humanas. Tânia Lopes e Haydée Hostin trazem a sensibilidade e a afirmação da mulher nesta trajetória de busca pela harmonia da humanidade”. E conclui: “a partir deste molho de chaves, acrescente a chave da sua sensibilidade para acessar o conteúdo desta coletânea que temos guardado a sete chaves”. A variedade, de fato, faz bem à poesia. E, melhor ainda, ao leitor.

HOSTIN, Haydée et al. A sete chaves. Santa Maria: Rio das Letras, 2015. 122 págs. R$ 20,00.

MORRESTE-ME

Morreste-me

∗LANÇAMENTO∗

Passados 15 anos do seu lançamento, a obra que inaugurou a carreira do português José Luís Peixoto é finalmente publicada no Brasil e, orgulho nosso, pela Dublinense, editora rio-grandense que vem procurando ampliar um cardápio de qualidade em seu catálogo. Publicada em 2000, Morreste-me é uma obra tocante e comovente: é o relato da morte do pai, o relato do luto e, ao mesmo tempo, uma homenagem, uma memória redentora. Destaca-se, na obra, dividida em quatro partes, o narrador que, a cada página, lembra-nos da urgência do tempo ante os antagonismos da vida e da morte perfilados na memória que atualiza a ausência sentida: “regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. É tudo como se continuasse”. Um dos destaques do volume está no trato refinado que empresta à língua portuguesa, recuperando, com ares de filólogo cuidadoso, uma sintaxe há muito esquecida, como no trecho seguinte: “na berma da estrada, entre extensões amarelecidas de mato e cardos secos, entre searas gigantes de trigo, rompem ervas corajosas poucas, rompem papoilas que do fogo sangue das suas chamas ateiam o louro, o áureo”. José Luís Peixoto, 40 anos, acumula obra ficcional e poéticas das mais festejadas, com imenso reconhecimento de público e crítica, que inclui, na última década, alguns dos mais prestigiados prêmios literários internacionais.

PEIXOTO, José Luís. Morreste-me. Porto Alegre: Dublinense, 2015. 64 págs. R$ 29,00.

LITERATURA E MEMÓRIA POLÍTICA

Literatura e memória política

∗LANÇAMENTO∗

Com uma longa tradição de trabalhos na linha de pontes literária e autor de títulos como Literatura comparada e relações comunitáriasLiteratura, história e política, Benjamin Abdala Junior, professor titular da USP, assina este Literatura e Memória Política em parceria com Rejane Vecchia Rocha e Silva, docente da mesma instituição. Trata-se de coletânea de ensaios sobre literaturas de língua portuguesa (com enfoque em obras representativas de Angola, Brasil, Moçambique e Portugal). Figuram no volume nomes bem conhecidos da crítica e da historiografia brasileira e que há tempos trabalham nessa linha de articulação entre o social, o político e o literário no concerto de expressões de língua portuguesa. Entre eles, Laura Cavalcante Padilha, Regina Zilberman, Tania Macedo, Eneida Leal Cunha e Jane Tutikian. Como afirmam os organizadores (também arrolados entre os ensaístas), a obra “pretende trazer uma necessária contribuição para pensar politicamente as produções de nosso comunitarismo linguístico-cultural em uma situação internacional de redefinição em termos de poder”.

ABDALA JUNIOR, Benjamin; ROCHA E SILVA, Rejane Vecchia (Orgs.) Literatura e memória política. Angola. Brasil. Moçambique. Portugal. Cotia, SP: 2015. 308 págs. R$ 45,00.

A CRÔNICA BRASILEIRA DO SÉCULO XIX

A crônica brasileira século xixO livro, de natureza acadêmica, defende a tese de que a crônica é um gênero jornalístico. Antes de analisar a situação brasileira oitocentista da produção de crônicas, o autor faz um breve retorno ao contexto francês, identificando o momento em que surge o feuilleton, a nova seção criada ao pé da página surgida nos começos do XIX. Em seguida, acompanha a trajetória do folhetim no Brasil, iniciada em 1830. O impulso e o desenvolvimento do gênero passa pelas penas de Francisco Otaviano, José de Alencar e Machado de Assis, todos devidamente destacados na cronologia em questão. Marcos Vinicius Nogueira Soares, doutor em Literatura Comparada pela UERJ, é professor associado de Literatura Brasileira da mesma instituição.

SOARES, Marcos Vinícius Nogueira. A crônica brasileira do século XIX. Uma breve história. São Paulo: É Realizações Editora, 2015. 280 págs. R$ 44,70.

CURSO DE LITERATURA PORTUGUESA E BRASILEIRA

Curso de Literatura BrasileiraMeu colega Roberto Acízelo de Souza (professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em trabalho admirável de organizador, acaba de colocar no mercado editorial brasileiro e, particularmente, à disposição de estudiosos e público interessado, dois títulos importantes: Curso de Literatura portuguesa e brasileira, de Francisco Sotero dos Reis, e Historiografia da Literatura Brasileira, Textos Fundadores. O Curso de Literatura saiu originalmente em cinco volumes entre 1866 e 1873. A obra desse maranhense tem sido reconhecida pela crítica especializada por seu pioneirismo. Antonio Candido, por exemplo, classifica-o como “o primeiro livro coerente e pensado de história literária”. A edição organizada por Acízelo de Souza reúne, em um único volume, os escritos de Sotero dos Reis, mediante texto cuidadosamente estabelecido, anotado, e enriquecido, ainda, pelo estudo crítico que o precede.

Historiografia brasileiraHistoriografia da literatura brasileira, em dois volumes, apresenta um conjunto de textos considerados fundadores dessa disciplina em território pátrio. Os textos selecionados possuem em comum a circunstância de constituírem esforços iniciais para a instituição de uma literatura nacional brasileira.  Destacam-se, entre outras, contribuições como as de Januário da Cunha Barbosa, Domingos José Gonçalves de Magalhães, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, Manuel Antonio Álvares de Azevedo, José de Alencar, Machado de Assis, José Verissimo e Silvio Romero. Trata-se, pois, de cobrir todo o período em que, no contexto do nacionalismo pós-independência, produziram-se os primeiros ensaios que propunham a criação correlata de uma literatura autenticamente brasileira e de sua historiografia, com vistas a se implantar uma cultura literária nova e original em território pátrio. São títulos altamente recomendáveis para estudiosos, interessados e público em geral.

REIS, Francisco Sotero. Curso de Literatura Portuguesa e Brasileira. Fundamentos teóricos e autores brasileiros. (Org. Roberto Acízelo de Souza) Rio de Janeiro: Caetés, 2014. 368 págs.  R$ 40,00.

 SOUZA, Roberto Acízelo (Org.). Historiografia da Literatura Brasileira: Textos fundadores (1825-1888). (volumes 1 e 2). Rio de Janeiro: Caetés, 2014. V. 1 – 584 págs. R$ 42,00.  V. 2 – 488 págs. R$ 42,00.

CACHORROS, POESIA E FEIRAS

            Observo o cachorro que atravessa a faixa de pedestres. Não é a primeira vez que vejo a cena e a cada repetição há um apelo poético que me toca.

            O animalzinho segue resoluto até o canteiro do meio. Então, para, observa o fluxo do lado oposto, e segue adiante. De minha cômoda posição de motorista, desacelero e posso testemunhar a travessia completa. É um cachorro cheio de autoconfiança e que, além de tudo, já percebeu que aquela trilha pintada no chão lhe garante certa imunidade frente a máquinas nervosas e apressadas. Sua inteligência prática (seria instinto?) permite calcular a exata proporção distância vs. risco, de sorte que segue adiante sem temer direção alheia.

            Quando nossos olhos são capazes de ver além do que enxergamos entramos no campo do poético. Não refiro o poema pronto, esse que pode ser, sim, tradução de uma experiência fundada no real, testemunho inequívoco do que se vê ou se viu. Falo de nossa capacidade de apreender com a sensibilidade do poeta, este gesto que é anterior ao próprio poema, como algo que precisamos cultivar ao modo de uma forma de ver e sentir. Como dizem os versos famosos de João Cabral de Melo Neto: ”a física do susto percebida entre os gestos diários; susto das coisas jamais pousadas porém imóveis naturezas vivas”.

            Esta semana, falando para os alunos do ensino médio de Caçapava do Sul, durante a Feira do Livro de lá, salientei exatamente que a vida e a poesia estão bem mais perto uma da outra do que às vezes imaginamos. E que uma e outra se misturam nos pequenos gestos do cotidiano. Acho que livros e autores abertos à interação com o público reforçam exatamente esse sentido comunitário e cotidiano da literatura. Por isso, viva as nossas Feiras! A de Caçapava está bela e movimentada, como a nossa, aqui de Santa Maria.

            E já que o tema é recorrente, aproveito para agradecer acolhidas e reforçar convites. O João Pedro, com Vida de criança, já foi a Caçapava e estará na Feira de Santa Maria nesta quarta, às 15h30min. Com direito à poesia e, claro, com o devido louvor aos cachorros.

CRIAR E TRANSFORMAR

         Dar a cara a tapa, eis um ato de coragem nestes tempos de julgamentos apressados e de exposição midiática frenética.

            Essa é a bronca que meu colega Fernando Villarraga resolveu encarar. Com um grupo de alunos, o Fernando está à frente da Vento Norte Cartonero, uma editora que tem por objetivo fazer livros artesanais e colocá-los no mercado a baixo custo. Numa época que o próprio Fernando costuma chamar de pós-tudo, esta atenção manual à fabricação de livros (capas personalizadas de papelão, uso de pintura, colagens e que tais) é um eco de singularidade em meio a um mar de igualdade. O lançamento dos três primeiros títulos – entre eles o volume de ensaios E agora José?, do próprio Fernando – ocorreu semana passada. O pessoal é talentoso e promete. Pude abraçar colegas e ex-alunos. Parabéns a todos.

           Ainda neste papo livro e a propósito de produções caseiras, aproveito para registrar o orgulho pelo Vida de criança. Os textos (poemas, relatos infantis e mini contos) foram escritos pelo João Pedro, a maioria entre os 6 e os 9 anos. Agora ele está com 11. A edição ganhou ilustração artística cuidada e requintada da mamãe Lisianne. Foi um trabalho bem família. O Walmor (da WS) acreditou e encampou. O lançamento ocorrerá no próximo sábado, dia 18, às 10h30min na Athena Livraria. Estaremos todos lá. Orgulhosos do João Pedro e esperando pelos leitores. Presentes e futuros.

            Por fim, no capítulo coragem e iniciativa, preciso registrar que a ascensão pública de Renato Janine Ribeiro à Educação teve, para mim, o sabor de ver um colega de minhas relações nesta posição estratégica. O Renato sempre me pareceu um sujeito de posições firmes, mas também afável e aberto ao diálogo. Foi dele, por exemplo, na Comissão de Avaliação da CAPES, a iniciativa, ainda hoje vigente, de, uma vez ao ano, levar todos os coordenadores de cursos de pós-gradação a Brasília para, numa reunião geral, discutir os problemas afetos ao sistema.

          Torço para que dê certo. Pelo Renato, claro. Mas, principalmente, por todos nós que acreditamos na força transformadora da criação.