CONTROLE REMOTO

            Em 80, comprei uma TV colorida no Stoever & Filhos (alguém lembra?) e escolhi um modelo sem controle remoto.

            O que me levou a dispensar o controle? Se a mim fosse feita a pergunta, na época, responderia logo que fui motivado pela diferença de preço. Para ter a engenhoca pagava-se bem mais caro.

            Acho, porém, que havia outros motivos, talvez menos salientes, em minha definição. Um deles, por certo, era bem pragmático. Para que controle remoto? Afinal, havia apenas dois ou três canais à disposição e, em quase cem por cento do tempo, optávamos mesmo era por um deles, quando mais não fosse, porque a qualidade da imagem era muito melhor. Outro motivo, creio, prendia-se ao fato de que ainda tinha muito presente certo peso de culpa diante do conforto. A própria televisão colorida cheirava a novidade no mercado e eu, às vezes por necessidade, às vezes por opção (ou formação, sei lá) convivia mal com os excessos materiais. Portanto, adquirir o aparelho já significava, em si, um luxo. Que dirá ter um controle remoto! Ademais, o que era levantar-se da poltrona e fazer a troca de canais no próprio aparelho?

            Recordo esse episódio e fico pensando que minha geração – que está entre os 50 e os 60 – contentava-se com pouco. Em geral, tínhamos poucas peças de roupas, poucos sapatos, poucos discos. Em viagem, às vezes, levava-se menos que o essencial. E não me refiro aos que estavam abaixo da linha de consumo. Na média, vivíamos, com nossos pais, a era da unidade: o carro único, a TV única, o rádio único.

            Acho que, mesmo assim, raramente aspirávamos ter mais do que tínhamos. Afinal, aquela parecia ser a ordem natural das coisas. Não lembro de um dia ter sentido algo na linha de uma angústia da falta. Já hoje, quando temos o mundo ao nosso alcance, a imensa e fácil oferta causa, sim, a angústia do excesso.

            Nossas salas, nossos quartos, nossas garagens estão cada vez mais atulhados. E, pior, o problema não é dispor de controle remoto. O problema é ter um e não saber o que fazer com ele.

A CENSURA

            Clark Gable, Spencer Tracey, Joan Crawford, John Wayne e Bette Davis foram algumas das míticas estrelas cinematográficas usadas pela indústria de tabaco.

            Entre os anos 30 e 40 viveu-se o auge da entronização do cigarro como atributo indispensável de um tipo elegante e algo enigmático. O cinema contribuiu muito para a afirmação dessa imagem. O cigarro era adereço indispensável das grandes estrelas. Tempos atrás divulgou-se contratos milionários assinados entre a indústria tabagista e os astros de Hollywood. Os papéis indicam que o auge da prática situa-se em um intervalo de três décadas, entre o início do cinema falado, no final dos anos 20 e a chegada da TV, na década de 50.

            Sob muitos aspectos, o século XX foi um tempo de descobertas, de vida sem culpa, enfim, de sexo, drogas e rock’n roll. O cinema teve um papel muito importante na difusão de modismos que, pela primeira vez na história, alcançaram rápidas repercussões planetárias.

            Este início de século XXI, em contrapartida, revela-se um tempo de vidas vigiadas, proibições, limitações. A onda anti-tabagismo é uma dessas reações em cadeia bem típicas de nosso tempo. Todo mundo já está repetindo que faz mal, pega mal e, em muitas situações, é ilegal.  Leio que até no Japão – onde, aliás, fuma-se demais – as máquinas automáticas de vendas de cigarros já precisam de um cartão eletrônico que somente é liberado para fumantes que preencherem cadastro. Com isso, os japoneses pretendem tornar tais máquinas inacessíveis aos menores e aos jovens em geral.

            Nunca fumei e, de minha parte, vejo com simpatia as campanhas antifumo. Porém, o perigo dos julgamentos em nossa época de sofisticado controle digital é que a fronteira entre a democracia e o moralismo punitivo está ficando cada vez mais tênue. E, em certo sentido, perigosa.

 

 

 

ENVELHECER

            Fernanda Torres fez 50 anos. Sou um pouco mais velho, lapso que me permitiu vê-la atriz menina na TV e no teatro. Por isso, lendo-a, me abateu o dito gasto implacável das horas e dos dias.

            É aquela coisa: um dia a gente acorda, e como canta Renato Russo, sente que “mudaram as estações, (nada mudou) mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim tão diferente”. Ir ficando velho é, enfim, sentir com frêmito de pressa que tudo está passando. E como afirma Santo Agostinho, Deus, que é eterno, é o único que existe fora do tempo. É famosa a passagem do Livro XI das “Confissões”, na qual o santo pensador dirige-se ao Senhor nesses termos: “Nenhuns tempos Vos são coeternos porque Vós permaneceis imutável, e se os tempos assim permanecessem, já não seriam tempos”.

            Agostinho foi um sábio do tempo. A nós, comuns mortais, que mais sabemos por experiência vivida do que por sabedoria lida, resta enfrentar com dignidade – e se der, com boa dose de coragem e resignação, a mudança das estações. Como verseja Renato Russo, poeta profano da canção citada: “Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está, agora tanto faz: estamos indo de volta pra casa”.

            Ocorre que a Fernanda Torres fez 50 anos. Li um depoimento pungente da atriz reclamando do tabu do envelhecimento da mulher e me enterneci com sua dignidade: “numa época em que o sexo é encarado com naturalidade e a causa gay defendida no horário nobre, surpreende o quanto a menopausa se mantém velada, secreta”.

            Fernanda disse mais. Falou sobre o desmanche da indústria fonográfica, na virada do milênio, e da jovialidade que graça nas redações de jornal, nas produtoras de TV, no mercado editorial, na publicidade, no teatro, no cinema. Em suas próprias palavras, “no mundo como eu o conheço”.

            Sabemos, sim, Fernanda, que outras formas de pensar surgirão, mas, de fato, “impressiona testemunhar a história”. E, ante o tempo que urge, já não encontro fecho mais adequado do que fechar contigo: “Envelhecer. Jamais achei que fosse acontecer comigo”.

BOKO MOKO E OUTRAS MAIS

            Semana passada, falei do bigorrilho, expressão em alta nos anos 60. Sua voga deveu-se à música popular de época.

            Isso me levou a outras expressões que entraram e saíram de cena muito em decorrência do apelo de veículos de massa. Os que, como eu, acompanharam quadra importante da modernização da propaganda nacional, hão de lembrar de boko moko (escrito assim mesmo, com “k”). Era uma gíria usada no final dos anos 60 e início dos 70. Dizia do sujeito brega, kitch, de mau gosto. O sucesso decorreu de bem sucedida campanha de uma marca de guaraná. O bordão boko-moko, um neologismo sem explicações etimológicas, foi criado pelo falecido publicitário Sérgio Andrade e transformou-se rapidamente em gíria de grande apelo.

            Na linha do boko moko, que é da ordem da criação de palavras ou expressões novas, houve registros que não foram assim tão inocentes. Refiro-me aos que buscavam burlar a censura e driblar o “é proibido reclamar”, então em vigor. Pertence a essa seara a expressão utilizada por Toquinho e Vinícius que é, na verdade, como a própria letra da canção sugere, um xingamento afro – “eu saio da fossa xingando em nagô”. Daí os versos que pretendiam mandar o “status quo” da época pra aquele lugar (aliás, bem merecido): “você que fuma e não traga/ E que não paga pra ver/ Vou lhe rogar uma praga/ Eu vou é mandar você/ Pra Tonga da mironga do cabuletê”.

            Tonga da mironga do cabuletê – era a poesia e a canção popular estabelecendo, a seu modo, o diálogo tenso e enigmático com o regime censor. O modismo, porém, vinha de outra banda, responsável por verdadeira enxurrada lexical. Refiro-me à Jovem Guarda e a seu jargão que ecoava no rádio e na estreante televisão. Aí reconhecemos como jóias aqueles tempos de papo firme e de calhambeque, bip! bip! Tempos em que o broto legal era uma brasa, mora! O bacana era a gata de minissaia e tremendão era o cara do “pode vir quente que eu estou fervendo”.

            E por aí a coisa andou. Tempos bicudos, sim, mas, como poucos, tempos de linguagem rica e desafiante.

O BAR

            Meus primos mais velhos estariam na faixa dos 20 quando eu mal tinha chegado aos 10 e eram frequentadores assíduos de bares.

            Tinha a turma das 11, mas sem dúvida a galera mais numerosa era a que se reunia a partir das 6 da tarde. Ficavam normalmente em pé, num canto, próximo ao balcão e raramente se misturavam com clientes eventuais. Ali, num convívio genuinamente masculino, faziam tipos inteligentes, comentavam as últimas ouvidas no noticiário, defendiam teses sobre a Guerra Vietnam, falavam das sacadas lidas no Pasquim e até discutiam literatura. Pelo que contam ainda hoje, o mais letrado da roda era o consultor de plantão para as dúvidas sobre música, literatura, cinema, enfim, o que rolasse.

            No seu Bar Don Juan, livro de 71, Antonio Callado propõe uma interessante recuperação dessa nossa cultura cotidiana de gregarismo. As ações se passam no Rio de Janeiro. Diferentemente de meus primos, perdidos e alienados em pequena comunidade interiorana, a turma do Don Juan é uma verdadeira fauna. Estudantes, cineastas, escritores, homens, mulheres, estrangeiros, todos fazem o gênero engajado. Anima-os o fascínio pela resistência à ditadura, algo que encaram com certo espírito aventureiro. Nos encontros diários, gastam o tempo em intermináveis discussões teóricas, regadas, é claro, a bebedeiras memoráveis e a ardentes encontros amorosos. A turma, enfim, reproduz o propalado gênero conhecido como esquerda festiva.

            Tudo poderia, de fato, terminar em festa, não fosse a aventura de Corumbá, na fronteira com a Bolívia, de onde o grupo planejava seguir para encontrar Guevara na selva. Após uma série de trapalhadas, a turma acaba descoberta e quase todos são eliminados. Tal desfecho trágico coincide com o episódio histórico do assassinato de Guevara, cujo registro nas páginas de Callado é indicativo de que o sonho ingênuo da liberdade estava terminado. Da turma do Don Juan, restaram vidas despedaçadas lambendo chagas destinadas a ficarem abertas por décadas afora.

            Antonio Callado pegou muito bem o clima daquela geração e viu no bar, mais do que um espaço privilegiado de convivência, um ponto de resistência: “quando o processo histórico se interrompe, a impossibilidade se alia ao ócio, a hora é boa para se abrir um bar”. Hoje há muitos outros espaços de convivência nas cidades, os públicos também se ampliam e se diversificam. Mas não é difícil perceber que os bares, esses que cativam clientes e formam suas rodas permanentes, resiste aos tempos e às gerações.

TUPÃ DONA DA NOITE

            Das tantas recordações que me tocam da velha Rádio Tupã, na qual trabalhei como locutor entre 1974 e 1977, restou uma, materializada na moldura da parede. É um diploma que recebi, com pompa, em jantar festivo no Clube Comercial. Tenho vaga lembrança do nervosismo engomado daquela noite e de minhas mãos trêmulas segurando a comenda conferida a “Tupã Dona da Noite”.

            Bem mais à vontade, por certo, do alto de meus quinze anos, me perfilava no velho estúdio da General Osório, onde, das nove à meia noite, comandava o tom romântico, recheado com declamação de poemas e programação musical em geral ditada pelas cartinhas chegadas ao longo do dia e pelos bilhetinhos que os ouvintes, ligados no som do carro, depositavam na rádio enquanto circulavam, aos pares ou em turmas, naquela época de combustível farto e barato.

            (Esta experiência de fazer rádio noturno, em verdade, não passou do primeiro ano de uma carreira que continuaria de forma ininterrupta por bem mais de uma década e que ainda repercute na lembrança bondosa de tantos amigos. Lembro que, ao fim do curso ginasial, pedi transferência de aula para o turno da noite e, definitivamente, daí para a frente, concentrei o trabalho durante o dia e elegi o foco do jornalismo e do esporte, funções que, mais tarde, me trouxeram para Santa Maria e para o prefixo da Rádio Guarathan).

            O “Tupã Dona da Noite” era completamente inspirado – inclusive no nome e na eleição da cortina musical – no “Itaí Dona da Noite”. No entanto, corria em faixa própria, uma vez que a concorrente da capital não tinha potência suficiente para nos alcançar em Tupanciretã.

            A propósito do “Dona da Noite” porto-alegrense, é impressionante como tem gente insuspeita que confessa saudade daqueles tempos pré-fm. Para citar um exemplo, não faz muito, o jornalista David Coimbra registrou um post nostálgico que ilustra o prestígio do indigitado congênere:

Eu tinha lá meus 12 anos e namorava uma gatinha chamada Silvia Lemos. Namoro é forma de falar. Naquele tempo era coisa inocente, de pegar na mão e beijar no rosto e pronto. Mas era uma emoção, cara. A maior paixão. O irmão da Silvia Lemos era o meu melhor amigo, o Nique. Por coincidência, ele namorava com a minha irmã, que, por outra coincidência, também se chama Silvia. Então ficávamos nós dois com nossas Silvias, os quatro mais brincando que namorando, crianças que éramos, mas, de alguma forma, flutuando encantados nos primeiros vagidos do amor. Um dia, eu e o Nique ligamos para a rádio Itaí [Dona da noite] a fim de oferecer uma música para as nossas garotas. Pedimos o sucesso do momento e ouvimos enlevados no radinho de pilha, olhando para o céu azul-escuro de Porto Alegre através da janela do meu quarto às margens da Avenida Plínio Brasil Milano.

            Com o depoimento do David me dei conta de que, na verdade, registros radiofônicos como aqueles musicais notívagos dos anos 70 encarnavam um espírito lovemeter bem próprio da época. Prova está no grande apelo público que alcançaram.

            Em reconhecimento a esse espírito – e como tributo à minha empreitada juvenil, ora bolas – o prefixo musical daquela ode à vida. Na Rádio Tupã era a segunda faixa do lado A de um compacto duplo do Herb Alpert. A música chama-se “Mae”. Terminados os comerciais, com seus acordes ao fundo, caprichando nos graves e cuidando para não espichar conversa, o que era uma das marcas do horário, infalivelmente eu entrava com o Tupããã – Dooona da noite, dava a hora, registrava os ouvintes e anunciava as próximas duas músicas.

            Então, com vocês, Mae – Herb Alpert & Tijuana Brass…

         Mae. Herb Alpert & Tijuana Brass. A&M Records, 1965

SUCESSÃO

 

Por estes dias em que me ocupo entre encerramento do semestre acadêmico e algumas viagens, tem sobrado pouco tempo para dar o ar da graça por aqui. Também por isso, continuo aproveitando para dividir algumas leituras feitas ao correr do tempo. A crônica seguinte é do Luis Augusto Fischer e saiu na ZH de domingo, 09/11/2014. Ainda é sobre o resultado da eleição e há, nela, alguma coisa de geração que o Fischer pega muito bem, como sempre. Segue a reprodução.

     A derrota da candidatura de Tarso Genro ao governo do Estado (e a de Olívio Dutra ao Senado) me deixou com um desconforto que ainda agora estou tentando entender. Não se trata apenas da derrota dos candidatos da minha predileção, nem da vitória do Sartori, a quem, falando nisso, desejo um excelente governo, esperando que se cerque de gente boa e faça o que cabe fazer. Para a Cultura, não são poucos nem são fracos os potenciais secretários. Na minha área, estão aí José Fogaça e Sergius Gonzaga, duas figuras de primeiro nível.

     E, bem, não estou aqui para dar palpites, nem o futuro governo precisa deles, bem sei. Quero é tentar encontrar o fio da meada do meu desconforto. Onde ele começa?


     Acho que é uma certa sensação de orfandade o meu ponto. O primeiro enunciado me surgiu assim: bá, os meus candidatos, agora derrotados, andam na volta dos 70 anos. É certo que hoje em dia ter 70 anos não impede nada em matéria de vida produtiva, até na política, essa arena tão particular e agora tão rebaixada da vida. Mas mesmo assim aos 70 anos a curva da vida é outra que aos 50, nem falar dela aos 40 ou 30. (E aproveito para desejar vida longuíssima e fértil aos setentões em causa.)

     Tarso, Olívio, Raul Pont, Flávio Koutzii, para ficar nos mais notórios líderes petistas do Estado, vêm de pendurar as metafóricas chuteiras eleitorais. O Flávio já tinha largado quatro anos atrás, agora foi o Raul, e os dois se somam aos derrotados de agora. Minha pergunta é: o que se aposenta com eles?

      Não sei responder. Certo que há setentões e mesmo oitentões na ativa, no PT e em outros partidos palatáveis para um eleitor e cidadão como eu, capazes de vir a fazer coisas boas e importantes na gestão pública; mas algo se perdeu nas derrotas e aposentadorias aqui evocadas. E me dou conta de que estou fazendo é um balanço da minha geração.

     Nós, que andamos entre os 50 e os 60, mais ou menos, quem somos, na arena da política? Sem citar nomes, porque não se trata disso (meus deputados são da minha geração e são gente de valor), penso que não obtivemos mais a síntese que os aposentandos eram e simbolizaram – de algum modo, eles reuniam em si as características de serem ao mesmo tempo gente de ação e de formulação, de eleição e palanque, como de pensamento e crítica teórica. Uns mais, outros menos, essas figuras foram e são a maturidade, talvez o zênite, de um específico jeito de ser de esquerda depois da II Guerra Mundial – e aqui é inevitável ajuntar o adjetivo “sartreano” a esse jeito.

     Com o Olívio, o Tarso, o Raul e o Koutzii deu sempre para falar de um grande romance, um filme marcante, um poema, tanto quanto para formular uma leitura da conjuntura política de varejo e para discutir os fundamentos e estruturas do poder. (Evito perguntar ao meu eventual leitor de quantos mais se poderá dizer o mesmo.)

     Sei, ainda dá para falar com eles, que estão aí, com saúde e inteligência, e sei que gente como eu vai continuar a contar com eles. Repito que desejo tê-los perto por décadas ainda, mas não consigo deixar de me sentir um tanto órfão com as aposentadorias e derrotas recentes.


     Diria um latino, já de si uma figura de outra época: “Tempus fugit”. Bem isso.