O NOME DA ROSA

            Sempre que, em aula, instado a responder sobre verossimilhança, isto é, sobre o recurso usado pela literatura para parecer verdadeira, recorro ao exemplo de “O nome da rosa”.

            O romance de Umberto Eco, como se sabe, discorre sobre o possível sumiço da Poética II, obra atribuída a Aristóteles. O caso é o seguinte: nas anotações que chegaram até nós e criaram uma tradição conhecida como Poética, o filósofo grego discorre sobre a tragédia e a epopeia prometendo tratar da comédia em outro lugar. Eis o problema: as notas sobre a comédia nunca apareceram o que deu origem a uma indagação histórica de que a Igreja poderia tê-las consumido.

            Razões para a suspeita não faltam. Escritos medievais dão conta de que o riso não só teria o poder de suspender a razão como de desarmá-la. Liberá-lo poderia livrar o indivíduo do medo do demônio, tornando-o vulnerável às suas armadilhas. É com base em afirmações dessa ordem que estudiosos contemporâneos aventam a hipótese de a Igreja ter consumido a Poética II, isto é, o livro que Aristóteles teria destinado ao trato da comédia.

            Em “O nome da Rosa”, Umberto Eco explora exemplarmente este argumento. Na obra, estranhas mortes começam a ocorrer num mosteiro beneditino localizado na Itália durante a baixa Idade Média. Um fato estranho cerca o caso: as vítimas aparecem sempre com os dedos e a língua roxos. A chegada de um monge franciscano levará, por fim, ao cerne do mistério: os mortos envenenavam-se ao folhear a Poética II que repousava em sala secreta da biblioteca do mosteiro.

            Onde, pois, está o exemplo da verossimilhança na ficção de Eco? Elementar: no fato de que o apregoado livro maldito ser consumido pelas chamas exatamente no episódio em que é descoberto pelo detetive franciscano. Portanto, à semelhança do que teria ocorrido na realidade factual, também no romance o destino da Poética II é sumir no fogo e no obscurantismo.

            Como ensinou o próprio Eco, seja com os truques de semelhança, seja com o salvo conduto do saber, o livro ainda é o meio ideal para aprender.

SOBRE LIVROS

∗A NOITE DO MEU BEM∗

A noite do meu bemLivro sobre a história e as histórias do samba-canção, traz informação de qualidade e confirma que o mineiro Ruy Castro faz jus ao benemérito título de cidadão carioca. Na obra, Castro descreve a cidade do Rio de Janeiro, desde o “Rio Colonial” até chegar ao tema principal, a partir de 1946, período em que os cassinos foram fechados e boates foram surgindo para acolher o “samba suavizado pela canção”.

Castro produz bastante. Há 27 anos, o “mineirioca” assumiu ser escritor, embora desenvolvesse o ofício da escrita na imprensa desde 1967. Teve 18 obras publicadas, participou de outras, mas ficou conhecido pela produção de biografias que ganharam destaque. Entre elas, O Anjo Pornográfico (1992), sobre a vida de Nelson Rodrigues; e Estrela Solitária (1995), sobre o jogador Garrincha, que lhe rendeu o prêmio Jabuti em 1996.

Em A Noite do Meu Bem, mais uma vez, o escritor exerce seu poder de recriar ambientes, ressuscitar pessoas e colocar o leitor diante delas. Assim, o biógrafo do samba-canção promove, mesmo no silêncio, a audição de belas músicas. Como se não bastasse, receitas culinárias como a do picadinho criado pelo vienense Stuckart, idealizador da boate Meia-Noite, irmã menor do Golden Room do Copacabana Palace, enchem a boca de quem as lê. Aos mais sensíveis, cuidado ao ler sobre o “penetra” e colunista social Ibrahim Sued (1924-1995), que tomou uísque batizado com urina de um playboy na boate Vogue. Porém, o livro traz muito mais. Só lendo para crer.

CASTRO, Ruy. A noite do bem bem. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 512 págs. R$ 59,00 e R$ 39,90 (e-book)

(FONTE: Maurício Meireles. Folha de São Paulo: 14/12/2015)

∗EU TE AMO, MAS ESTOU BÊBADO∗

 O jornalista Vinícius Novaes estreia na literatura com esta coletânea de 19 crônicas que investigam o sentimento amoroso. O autor transforma o amor em um ser antropomórfico de carne e osso que também sofre, sente e bebe para esquecer – e que lança líricos e bem-humorados protestos e reclamações ao autor por criá-lo para tantos infortúnios.

 NOVAES, Vinícius. Eu te amo, mas estou bêbado. Rio de Janeiro: Multifoco, 2015. 42 págs.  R$ 34,00

∗OUTROS CANTOS∗

 Maria Valéria Rezende, vencedora do Prêmio Jabuti com o romance Quarenta Dias, cuja trama se passa em Porto Alegre, lança agora nova narrativa longa inspirada em sua experiência como professora no sertão nordestino durante a Ditadura Militar. A protagonista, durante uma longa viagem de ônibus, rememora seu passado como educadora em Pernambuco.

REZENDE, Maria Valéria. Outros cantos. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015. 152 págs. R$ 34,90

LIVROS DA SEMANA

∗OPERAÇÃO IMPENSÁVEL∗

operacaoimpensável

A escritora paulista Vanessa Barbara apresenta uma história de amor e desamor entre a historiadora Lia e o programador Tito, construída em torno de comunhão de interesses por cultura pop e jogos de tabuleiro, até que a suspeita de uma traição dá início a um conflito conjugal que remete aos jogos de estratégia que faziam parte da intimidade do casal.

BARBARA, Vanessa. Operação impensável. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. 224 págs. R$ 39,90 impresso e R$ 19,90 em e-book.

∗O POVO BRASILEIRO∗

Reedição da obra máxima do sociólogo Darcy Ribeiro (1922 – 1997), espécie de súmula de seu pensamento e testamento intelectual. Publicado originalmente em 1995, é um elogio do Brasil escrito em tom apaixonado, recapitulando as matrizes étnicas e culturais da formação do povo brasileiro e de sua configuração como o atual “povo nação” com características próprias e únicas.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2015. 368 págs. R$ 49,00.

OUTROS LANÇAMENTOS

∗O IMPOSTOR∗

O IMPOSTORO novo livro do romancista espanhol Javier Cerca reconta a história verdadeira por trás de uma das grandes decepções de seu país. Trata-se do sindicalista Enric Marco Battle, que comoveu por décadas a população com sua história de luta ao lado dos republicanos na Guerra Civil Espanhola e de sobrevivência em um campo de concentração nazista. Só em 2005 um pesquisador descobriu que tudo era mentira.

CERCA, Javier. O impostor. Trad. Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2015. 464 págs. R$ 49,90

∗ZÉ DO CAIXÃO, MALDITO – A BIOGRAFIA∗

A trajetória repleta de sucessos e fracassos do mais popular ícone do cinema fantástico brasileiro é revisitada nesta biografia de André Barcinski e Ivan Finotti. O livro sobre o cineasta José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, foi originalmente lançado em 1998, estando há anos esgotado. A nova edição, que comemora os 80 anos do diretor, vem em formato luxuoso, com fotos inéditas e capa dura.

Barcinski, André  e Finotti,  Ivan.  Zé do Caixão, maldito – A Biografia. São Paulo: Darkside Books, 666 págs. R$ 99,90

∗KAOS TOTAL∗

Por ocasião de seus 75 anos, completados no último domingo (17/01), o múltiplo artista Jorge Mautner acaba de ganhar uma coletânea de seus trabalhos. O volume conta com todas as canções do autor, como as pérolas “Maracatu Atômico” (em parceria com Nelson Jacobina e conhecida nas vozes de Gilberto Gil e Chico Science) e “Todo Errado” (gravada com Caetano Veloso), além de poemas, prosas poéticas e pinturas inéditas.

MAUTNER, Jorge. Kaos total. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 384 págs. R$ 54,90

 

ARES CONDICIONADOS

Se um dia chovesse ares condicionados

∗LANÇAMENTO∗

E se um dia chovesse condicionadores de ar? A pergunta pode parecer estranha, mas não surpreende o leitor que passou pelas páginas de Ares-Condicionados, novo livro do músico e escritor Demétrio Panarotto. Lançada em Porto Alegre na semana passada, esta é a primeira reunião de contos do autor catarinense, que já publicou quatro volumes de poemas e é também músico e doutor em Teoria da Literatura. Cenas de surrealismo e personagens fantasiosos percorrem a maior parte das narrativas de Panarotto. Os ares-condicionados do conto-título, por exemplo, despencam do céu diante de um personagem um tanto indiferente, que lá pelas tantas se vê numa cidade que mais parece um videogame. Com muito humor, característica também marcante da banda Repolho, grupo musical do qual participa desde 1991, o escritor questiona os limites da poesia e o papel das leis de incentivo para a literatura. Para tanto, além de graça, as histórias usam de autoironia, já que o próprio Panarotto é poeta e teve seu livro publicado com apoio do Funcultural, iniciativa do governo de Santa Catarina.

PANAROTTO, Demétrio. Ares-Condicionados. Contos. Florianópolis: Nave Editora, 2015. 120 págs. R$ 20,00

GAÚCHOS DE 30

            Por estes dias, tenho teimado contra o tempo para fechar um artigo que trata de autores gaúchos que produziram ao redor de 1930.

            Entre eles, avulta a figura de Aureliano de Figueiredo Pinto. É impressionante reler Aureliano e auscultar o eco de sua crescente importância. Nascido na zona rural em região adstrita a então vila de Tupanciretã, alfabetizou-se com a ajuda da mãe em casa. Com 10 anos ingressa no Colégio Santa Maria para cursar o Ginásio. Daqui, ganha mundo: vive em Porto Alegre e no Rio de Janeiro até concluir o Curso de Medicina em 1931.

            Em seguida já aparece clinicando em nossa vizinha Santiago. Com breves interrupções, motivadas por saídas motivadas pelo trabalho, Santiago é sua cidade definitiva, onde, até morrer, dividirá as funções da clínica médica com o hábito regular de escrever.

            Consta que foi dos primeiros a reconhecer o valor da obra literária de João Simões Lopes Neto, da mesma maneira que era versado na literatura criolla platina. Como o velho tapejara criado por João Simões, seus narradores e personas poéticas traduzem ao horizonte de vivências campeiras os dramas maiores da existência como a solidão, a velhice, o empobrecimento, a traição e a vingança.

            O ano de sua morte, 1959, coincide com o lançamento, pela Editora Globo, de Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo. Foi o primeiro livro, que, ironicamente, lhe chegou às mãos nos últimos instantes da existência. Os demais títulos foram póstumos. Dois são de poemas: Romances de Estância e Querência – Armonial de Estância e Outros Poemas (Sulina, 1963) e Itinerário – Poemas de cada instante (Movimento, 1998). A esses volumes, soma-se a novela Memórias do Coronel Falcão, espécie de contraprova da capacidade inventiva do autor. A comprovar-lhe o peso e o alcance, tardiamente recompensados, a obra, escrita na década de 30, recebeu três edições em sequência, todas da Editora Movimento (1973/74/86).

            Seus livros confirmam a reconhecida dotação intelectual que, no transcurso da existência, granjeou testemunhas ilustres e continua somando novos e interessados leitores, como grande literatura que é.

CACHORROS

            Fidelidade e utilidade: eis o que o encontro do homem com o cachorro nos sugere na comovente passagem da Odisseia, texto da antiguidade grega.

            Sozinho, com sua tripulação dizimada, vinte anos após ter partido, Ulisses, enfim, retorna a casa onde Penélope, sua mulher, resiste ao assédio constante de muitos pretendentes que o julgam morto. Quando, disfarçado de velho mendigo, mistura-se aos forasteiros que lhe invadem o lar e, incógnita, fica a observar o que se passa, a primeira criatura que lhe reconhece e põe em risco seu hábil estratagema é o velho cão Argus. Idoso, sem conseguir se levantar, Argus fareja-lhe, levanta as orelhas e sacode o rabo.

            Li, a propósito, um artigo chamado “Laertes e o mundo do trabalho na Odisséia”, de autoria da professora paulista Adriane Duarte. A estudiosa observa que o herói, em seu retorno a Ítaca, cerca-se de trabalhadores, por vezes humildes, como o porqueiro Eumeu, o cabreiro Filécio ou a criada Euricleia. Com isso, reafirma-se em sua cidade através de uma aliança que é garantida pelo trabalho.

            A mesma lógica que o aproxima dos criados se vê reforçada nos laços familiares e afetivos de Ulisses: Penélope é exímia tecelã, Laertes, hábil agricultor e – no que nos interessa – o próprio Argus, o cão do herói, merece menção pela reconhecida habilidade de caçador, firmada em seus anos de juventude.

            Fidelidade e utilidade. Esses conceitos já mudaram muito desde os tempos de Homero. Hoje, há quem busque no animal simplesmente um aliado contra a solidão, dispensando-lhe a utilidade prática. Porém, mais constantes que os homens, os cães, quando nos abanam o rabo ou levantam as orelhas, estão simplesmente nos mostrando o quanto continua atual o gesto do velho Argus.

A LIÇÃO DE ANATOMIA DO TEMÍVEL DR. LOUISON

A lição de anatomia

∗CRÍTICA∗

Meu colega de UFSM, Enéias Tavares, ganha destaque no cenário da literatura contemporânea com A lição de anatomia do temível Dr. Louison. Se o prezado leitor é medianamente informado, já deve ter lido ou ouvido algo a respeito. Como esclarece uma das apresentações da obra, “em um Brasil retrofuturista [onde] serviçais robóticos e geringonças apocalípticas coexistem com o sobrenatural, o jornalista Isaías Caminha desembarca em Porto Alegre para cobrir a prisão do infame assassino Dr. Antoine Louison, aprisionado no lendário asilo São Pedro para Psicóticos e Histéricas. Na noite anterior à sua execução, porém, o facínora escapa, desaparecendo como um fantasma de folhetim”. Romance de ação com sacadas de folhetim, inscreve Enéias na onda que a banda Arrase traduz com a linguagem musical do hard rock: “botas y tirantes, crestas y remaches/ dicen que nos vieron ayer por la noche, /todos estranados, nos creian enemigos, / el mismo camino, juntos hasta el fin… /Punks y Skins, punks y skins”. Skinpunk, vizinho do steampunk significa isso que está na mensagem da música: circular por caminhos misteriosos e pouco movimentados, de preferência sob o ar secreto da noite, em nome de um ideal que nem todos entendem.

Quando passeamos pela galeria de tipos exóticos como a que nos apresenta o livro que temos em mãos, logo reconhecemos essas referências da música e do pop contemporâneos. De acordo com a definição do próprio autor: “o steampunk é um gênero de ficção especulativa que, ao invés de ambientar seu enredo no futuro, prioriza o passado, ou ao menos uma visão alternativa de passado. O salto imaginativo deste universo se dá em três direções: na reimaginação da tecnologia da época, na revisão da história como a conhecemos e na possibilidade de utilizarmos personagens reais ou ficcionais (em especial os que já caíram em domínio público), para contar uma história fantástica”.

No livro, aproximações improváveis desfilam sob as hostes do Parthenon Místico – sociedade secreta que reúne o imoral satanista Solfieri de Azevedo, o cientista louco Dr. Benignus, a médium indígena Vitória Acauã e os aventureiros do oculto Sergio Pompeu e Bento Alves. Tudo isso, com o requinte morfológico e sintático de certa recuperação de época na linguagem (à maneira da norma das primeiras décadas do século XX, tempo em que se situam as ações narradas, a “graphia” incorpora alguns arcaísmos, bem como, em determinados períodos, ecoa aquele torneio frasal próprio de certo expressionismo literário que entre nós ganhou fama na pena de Raul Pompeia, como na sentença de abertura – “colimando glórias extraordinárias, deixei a carruagem mecanizada e dirigi-me ao aerocampo”).

O livro tem outras sofisticações. Uma delas, lembra passo de alcance semiótico, a la Umberto Eco. Trata-se da reprodução de um mapa de época, apresentado como “Planta da Cidade de Porto Alegre, Capital do Estado do Rio Grande do Sul”. Porto Alegre dos Amantes, aliás, é como se denomina o espaço que é palco das ações centrais. Entre as demais referências espaciais, no que nos diz respeito, destaque para Santa Maria da Bocarra do Monte, que figura ao final do texto como o espaço para onde viaja uma das personagens após o desembaraço do enredo principal. No capítulo das intertextualidades, ao modo steampunk, nada supera o reaproveitamento de personagens “vividos” ao redor da época em que se passam as aventuras do dr. Antoine Louison – alguns, em verdade, um pouco antes. A lista referenciada é ampla e tem nomes consagrados de nossa historiografia literária. Entre eles estão Álvares de Azevedo e seu Noite na Taverna (de onde vem o personagem Solfieri); Joaquim Manuel de Macedo, a Luneta Mágica (Simplício), Machado de Assis, O Alienista (de onde são decalcados Simão e Evarista Bacamarte), Raul Pompeia, O Ateneu (Sergio e Bento); Aluísio Azevedo, O Cortiço (Rita Baiana, Pombinha e Léonie) e Lima Barreto, Recordações do escrivão Isaías Caminha (de onde revive o trio Isaías Caminha, Floc e Loberant).

De outro modo, dirigíveis, criaturas robóticas, mensagens telegráphicas e gravações (também robóticas) se encarregam de completar o embaralhar de tempos de acordo com o gênero em questão que, conforme seus comentadores, define o caráter técnico da sociedade contemporânea recorrendo a uma tradição oriunda do romantismo dos séculos XVIII e XIX, sobretudo dos contos góticos e de horror. Enéias Tavares, especialista nos livros iluminados de William Blake e professor de Literatura Clássica na nossa UFSM, também entra no clima. Na orelha de contracapa, a nota biográfica confessional declara que “quando perde a inspiração, [ele] diverte-se colecionando escorpiões robóticos, lembranças photoelétricas e amizades improváveis”.

A lição de anatomia do temível Dr. Louison coloca Enéias na senda de um dos gêneros que ganha público cativo, organizado em legiões de seguidores, e venceu o concorridíssimo concurso da Fantasy, selo da editora Casa da Palavra, do Rio de Janeiro. Leitura obrigatória para atualizar nossa agenda com a ampliação dos horizontes literários nos dias que correm e também para verificar que, como o autor nos prova, a discussão entre mainstream vs. underground, mesmo em tempos mal educados e truculentos, pode se dar em alto nível. E, claro, com bom gosto e alta dose de criatividade.

TAVARES, Enéias. A lição de anatomia do temível Dr. Louison. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014. 320 págs. R$ 34,90.

RESPEITÁVEL PÚBLICO

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∗LANÇAMENTO∗

Mais um autor rio-grandense com novidades na praça. Trata-se de Henrique Schneider, escritor radicado em Novo Hamburgo, narrador já experimentado em títulos anteriores como Contramão (finalista do Prêmio Jabuti em 2009) e A vida é breve e passa ao lado. O enredo de Respeitável público trata da chegada de um circo mambembe a Galateia, uma pequena cidade interiorana. Alba Rosa, filha de Teodoro Alegria, o influente prefeito da localidade, apaixona-se pelo trapezista, a contragosto do pai, que, ultrajado pela ocupação do rapaz, arregimenta um exército para tirá-la do circo. Cabe à moça de 17 anos impedir o confronto. Para isso contará com uma força inexplicável que surge como ameaça ao poder do prefeito.

SCHNEIDER, Henrique. Respeitável público. Porto Alegre: Dublinense, 2015. 128 págs. R$ 34,90.

LIVROS E LEITORES

            Por esses dias andei às voltas com um romance que é da categoria dos muito citados e pouco lidos.

            Aliás, não precisamos ir longe para encontrá-los. Em alguns casos, por tratarem-se de livros ou autores com os quais um grande número de leitores simplesmente não se identifica. Meu cunhado, por exemplo, já tentou algumas vezes o José Saramago. Nunca passa da décima página. Derrapa na pontuação (no caso, na falta dela) e soçobra nos detalhamentos empilhados pelo narrador.

            Mas, como contava, voltei a um desses rejeitados. Trata-se de A consciência de Zeno. Seu autor, Italo Svevo, um italiano de Trieste (que morreria num acidente de carro em 28) já contava mais de 50 quando lançou, em 1923, esta, que é considerada sua obra prima. O detalhe: na época era mais conhecido como romancista fracassado, por duas ou três tentativas malogradas da mocidade.

            Há uma particularidade que envolve a biografia de Svevo e, de certo modo, seu festejado livro da maturidade. Ao redor de 1910, o autor contratara lições particulares de inglês a um estrangeiro que mudara para sua cidade. Este estrangeiro era nada menos que James Joyce, na temporada em que morou em Trieste. Fizeram amizade e o aluno deu a ler ao mestre aqueles livros fracassados das primícias.

            Muitos anos depois, quando o antigo professor de inglês já se tornara celebridade universal, retribuiu uma velha dívida, reconhecendo publicamente as sugestões preciosas que colheu naquela velharia relegada por seu aprendiz de idiomas. Joyce identificou nesses romances naturalistas, à maneira da época, uma nova psicologia novelística, antecipação fabulosa da psicanálise.

            A vida distribui desgraças e felicidades sem consideração dos méritos. Em A consciência de Zeno, já liberto das influências naturalistas e impregnado da gratuidade modernista, Svevo caracteriza suas personagens como vítimas desarmadas da vida. O romance é testemunha de uma época. Entendê-lo nesta chave valoriza o gosto da leitura. De quebra, nos reforça que tempo e paciência são aliados dos bons livros. E dos leitores persistentes.