ARES CONDICIONADOS

Se um dia chovesse ares condicionados

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E se um dia chovesse condicionadores de ar? A pergunta pode parecer estranha, mas não surpreende o leitor que passou pelas páginas de Ares-Condicionados, novo livro do músico e escritor Demétrio Panarotto. Lançada em Porto Alegre na semana passada, esta é a primeira reunião de contos do autor catarinense, que já publicou quatro volumes de poemas e é também músico e doutor em Teoria da Literatura. Cenas de surrealismo e personagens fantasiosos percorrem a maior parte das narrativas de Panarotto. Os ares-condicionados do conto-título, por exemplo, despencam do céu diante de um personagem um tanto indiferente, que lá pelas tantas se vê numa cidade que mais parece um videogame. Com muito humor, característica também marcante da banda Repolho, grupo musical do qual participa desde 1991, o escritor questiona os limites da poesia e o papel das leis de incentivo para a literatura. Para tanto, além de graça, as histórias usam de autoironia, já que o próprio Panarotto é poeta e teve seu livro publicado com apoio do Funcultural, iniciativa do governo de Santa Catarina.

PANAROTTO, Demétrio. Ares-Condicionados. Contos. Florianópolis: Nave Editora, 2015. 120 págs. R$ 20,00

A SEGUNDA PÁTRIA

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A ficção científica é uma forma literária que lida, principalmente, com o impacto da ciência, tanto verdadeira como imaginada, sobre a sociedade ou os indivíduos. Seu exercício mais freqüente é colocar em marcha uma espécie de invasão de futuro. O que acontece, porém, quando a livre imaginação envolve fatos já consagrados do passado histórico? Este é o desafio lançado pelo escritor paranaense Miguel Sanches Neto (Hóspede secreto, Contos para ler no bar, A primeira mulher, entre outros). O ponto de partida de A segunda pátria repousa em transformar a posição do Brasil na Segunda Guerra Mundial, colocando-nos como aliados do Eixo. Como parte do acordo, é estabelecido que os estados do Sul, com grande presença de descendentes alemães, podem pôr em prática os princípios do nazismo, como o racismo, o antissemitismo e a eugenia. Em Blumenau, à medida que a saudação Heil Hitler se torna corriqueira, o engenheiro Adolpho Ventura convive atônito com o progressivo cerceamento de sua liberdade. Seu crime é ser negro e pai de uma criança mestiça. Em meio a isso, num clima de mistério e tensão, a jovem Hertha, que encarna todos os predicados da superioridade ariana, recebe uma inusitada missão. Com o uso de violência e sensualidade, Miguel Sanches Neto revela uma paixão proibida, enquanto subverte os fatos para criar um Brasil que não está nos livros de história, mas nem por isso deixa de ser assustadoramente plausível.

SANCHES NETO, Miguel. A segunda pátria. Curitiba: Intrínseca, 2015. 320 pags. R$ 35,00.

O CORONEL E O LOBISOMEM

O coronel e o lobisomem

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Título que inaugura, no mercado editorial brasileiro, o projeto da Companhia das Letras de reedição das obras de José Cândido de Carvalho (1914-1989). O livro saiu originalmente em 1964 e continua sendo, até hoje, destaque do fértil veio da literatura regionalista. A adaptação para o cinema, em 2005, com direção de Maurício Farias e Diogo Vilela de protagonista, reforçou vigor da fatura literária. Conta a história de Ponciano de Azevedo Furtado, cujo juízo agrava-se depois de trocar o campo pela cidade. Tudo isso, porém, numa linguagem viva, com situações que alternam o humor e o fantástico e com direito a sereias, onças, rabos de saia e – claro – o dito lobisomem do título.

CARVALHO, José Candido de. O coronel e o lobisomem. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 408 pags. R$ 49,00.