LIVROS DA SEMANA

∗OPERAÇÃO IMPENSÁVEL∗

operacaoimpensável

A escritora paulista Vanessa Barbara apresenta uma história de amor e desamor entre a historiadora Lia e o programador Tito, construída em torno de comunhão de interesses por cultura pop e jogos de tabuleiro, até que a suspeita de uma traição dá início a um conflito conjugal que remete aos jogos de estratégia que faziam parte da intimidade do casal.

BARBARA, Vanessa. Operação impensável. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. 224 págs. R$ 39,90 impresso e R$ 19,90 em e-book.

∗O POVO BRASILEIRO∗

Reedição da obra máxima do sociólogo Darcy Ribeiro (1922 – 1997), espécie de súmula de seu pensamento e testamento intelectual. Publicado originalmente em 1995, é um elogio do Brasil escrito em tom apaixonado, recapitulando as matrizes étnicas e culturais da formação do povo brasileiro e de sua configuração como o atual “povo nação” com características próprias e únicas.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2015. 368 págs. R$ 49,00.

CIDADE E LITERATURA

               Reli no final de semana A ilha do tesouro e outros poemas, livro do Claudio Cruz, professor da Federal de Santa Catarina e estudioso do assunto cidade.

            Trata-se de um belo conjunto de poemas que revisita a Porto Alegre onde o Claudio foi menino e virou gente grande. São construções breves que se orientam pelo condão de um herói grego imaginário a repisar sua Ítaca eterna. A prova mais evidente da empatia do tema e da funcionalidade da forma está no fato de que a gente lê em voz alta e sente aquela vontade de não interromper a leitura.

            Quando pensamos na continuada produção que ocorre em Santa Maria observamos o quanto essa produção está voltada para a cidade, sua história, seus personagens e lugares característicos. Pois, identificando o livro do Claudio nessa mesma linha de interesse, fiquei pensando o quão vasta é a tradição de literatura que toma a cidade como tema central. Poderíamos lembrar, por exemplo, que Erico Veríssimo foi o escritor de Porto Alegre nos romances da fase inicial. Na poesia, quase na mesma época, Mário de Andrade elegeu São Paulo como o grande assunto de seus versos.

            Em Erico, temos o painel, a paisagem urbana e a variedade de seus tipos, cada um representando seu papel sem necessariamente se cruzar com os demais. Em Mário, o poeta inquieto mistura seus sentimentos e sensações com o espaço urbano, vê ruas e gentes como uma extensão de suas idéias e de seu corpo.

            O interessante, em ambos, é delinear uma espécie de cartografia simbólica decalcada das cidades reais – no caso, Porto Alegre e São Paulo das primeiras décadas do século XX. O efeito literário é rico. As cidades se confundem mesmo com a própria estrutura dos textos, moldam frases, expressões, enfim, garantem uma espécie de enredo comum no qual nós, adultos e crianças, habitantes de outras cidades e outros tempos, nos reconhecemos com facilidade e, no limite, criamos nossas próprias formas de contar as urbes em que habitamos.

LENDO J. M. COETZE

Lendo Coetze

∗LANÇAMENTO∗

Lendo J. M. Coetzee reúne mais de dez críticos brasileiros e estrangeiros que abordam por diversos ângulos a quase totalidade da obra do autor sul-africano. Essa abordagem de fôlego é o resultado de um diálogo que começou em 2010, quando a obra Diário de um ano ruim serviu como um filtro de releitura do famoso ensaio de Freud “O Mal-estar na Cultura”, em um evento de mesmo nome em Porto Alegre. Os professores Kathrin Rosenfield (UFRGS) e Lawrence Flores Pereira (UFSM), além de assinarem capítulos no livro, são seus organizadores. Todos os participantes do evento referido contribuem com ensaios de síntese sobre os aspectos mais evidentes e importantes desta obra: violência, trauma, injustiça, sofrimento, censura, opressão, tortura e também do engajamento que caracteriza o ficcionista relativamente a seres que desaparecem do horizonte imediato da sociedade por terem sofrido mutilações físicas, psíquicas ou por terem sido exilados. Além da revisão do escritor na encruzilhada de realidade e ficção, o volume ainda aborda uma avaliação da obra crítica e teórica de Coetzee. Este livro é a primeira e, por enquanto, única coletânea crítica no Brasil sobre este autor que foi Prêmio Nobel de Literatura de 2003. O selo é Editora da UFSM.

PEREIRA, Lawrence Flores e ROSENFIELD, Kathrin (Orgs.) Lendo J. M. Coetze. Santa Maria: Editora UFSM, 2015. 320 págs. R$ 55,00.

LITERATURA E MEMÓRIA POLÍTICA

Literatura e memória política

∗LANÇAMENTO∗

Com uma longa tradição de trabalhos na linha de pontes literária e autor de títulos como Literatura comparada e relações comunitáriasLiteratura, história e política, Benjamin Abdala Junior, professor titular da USP, assina este Literatura e Memória Política em parceria com Rejane Vecchia Rocha e Silva, docente da mesma instituição. Trata-se de coletânea de ensaios sobre literaturas de língua portuguesa (com enfoque em obras representativas de Angola, Brasil, Moçambique e Portugal). Figuram no volume nomes bem conhecidos da crítica e da historiografia brasileira e que há tempos trabalham nessa linha de articulação entre o social, o político e o literário no concerto de expressões de língua portuguesa. Entre eles, Laura Cavalcante Padilha, Regina Zilberman, Tania Macedo, Eneida Leal Cunha e Jane Tutikian. Como afirmam os organizadores (também arrolados entre os ensaístas), a obra “pretende trazer uma necessária contribuição para pensar politicamente as produções de nosso comunitarismo linguístico-cultural em uma situação internacional de redefinição em termos de poder”.

ABDALA JUNIOR, Benjamin; ROCHA E SILVA, Rejane Vecchia (Orgs.) Literatura e memória política. Angola. Brasil. Moçambique. Portugal. Cotia, SP: 2015. 308 págs. R$ 45,00.

PEREGRINAS INQUIETUDES

PEREGRINAS INQUIETUDES.doc

∗LANÇAMENTO∗

A poesia de Moisés Silveira de Menezes, cujo compromisso telúrico é frequentemente afirmado, seja na apurada seleção do vocabulário regional, seja no recorte de assuntos e motivos, desliza com naturalidade para o “sentimento do lugar”, de onde as imagens concorrem para resgatar as vivências do poeta entre seus semelhantes. De pronto, isso significa uma fácil aproximação com o leitor, até mesmo porque, não apenas as figuras humanas são chamadas para o universo do poeta, mas também – e principalmente, a natureza física e material do mundo. Está visto, pois, que este é o caminho através do qual o poema nos coloca em contato com gente e fatos e também em meio a cenários, objetos, animais, árvores, rios, caminhos e circunstâncias.

Escrevi as linhas acima no texto crítico que acompanha “Décima inconclusa aos recuerdos”. O Moisés gentilmente convidou-me para integrar o naipe de críticos e comentadores que ajudam a fazer seu livro adequadamente intitulado Peregrinas Inquietudes. O projeto é interessante e produtivo para o leitor: cada poema é seguido por uma apreciação crítica, fato que ajuda na leitura e deciframento de texto tão peculiar como o da poesia. A orelha é assinada por Joaquim Moncks, escritor, titular da Academia Rio-Grandense de Letras. O prefácio é de Victor Aquino, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, de raízes tupanciretanenses, como eu e o Moisés. Moisés, além de poeta, é historiador, e em 2011 publicou Tupan-Cy-Retan, Face Missioneira. No segmento poesia é autor de Imagens do Sul, de 2000. Com Peregrinas inquietudes volta ao gênero com expressão madura e afeiçoada às imagens da terra.

 MENEZES, Moisés. Peregrinas inquietudes. Santa Maria: Rio das Letras, 2015. 256 págs. R$ 28,00.

CURSO DE LITERATURA PORTUGUESA E BRASILEIRA

Curso de Literatura BrasileiraMeu colega Roberto Acízelo de Souza (professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em trabalho admirável de organizador, acaba de colocar no mercado editorial brasileiro e, particularmente, à disposição de estudiosos e público interessado, dois títulos importantes: Curso de Literatura portuguesa e brasileira, de Francisco Sotero dos Reis, e Historiografia da Literatura Brasileira, Textos Fundadores. O Curso de Literatura saiu originalmente em cinco volumes entre 1866 e 1873. A obra desse maranhense tem sido reconhecida pela crítica especializada por seu pioneirismo. Antonio Candido, por exemplo, classifica-o como “o primeiro livro coerente e pensado de história literária”. A edição organizada por Acízelo de Souza reúne, em um único volume, os escritos de Sotero dos Reis, mediante texto cuidadosamente estabelecido, anotado, e enriquecido, ainda, pelo estudo crítico que o precede.

Historiografia brasileiraHistoriografia da literatura brasileira, em dois volumes, apresenta um conjunto de textos considerados fundadores dessa disciplina em território pátrio. Os textos selecionados possuem em comum a circunstância de constituírem esforços iniciais para a instituição de uma literatura nacional brasileira.  Destacam-se, entre outras, contribuições como as de Januário da Cunha Barbosa, Domingos José Gonçalves de Magalhães, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, Manuel Antonio Álvares de Azevedo, José de Alencar, Machado de Assis, José Verissimo e Silvio Romero. Trata-se, pois, de cobrir todo o período em que, no contexto do nacionalismo pós-independência, produziram-se os primeiros ensaios que propunham a criação correlata de uma literatura autenticamente brasileira e de sua historiografia, com vistas a se implantar uma cultura literária nova e original em território pátrio. São títulos altamente recomendáveis para estudiosos, interessados e público em geral.

REIS, Francisco Sotero. Curso de Literatura Portuguesa e Brasileira. Fundamentos teóricos e autores brasileiros. (Org. Roberto Acízelo de Souza) Rio de Janeiro: Caetés, 2014. 368 págs.  R$ 40,00.

 SOUZA, Roberto Acízelo (Org.). Historiografia da Literatura Brasileira: Textos fundadores (1825-1888). (volumes 1 e 2). Rio de Janeiro: Caetés, 2014. V. 1 – 584 págs. R$ 42,00.  V. 2 – 488 págs. R$ 42,00.

VENTO NORTE CARTONERO

E agora José

∗LANÇAMENTOS∗

A mais nova editora santa-mariense de livros artesanais lançou, no último dia 8/4, seus três primeiros títulos: Xorok Kopox do poeta, desenhista e criador de fábulas Zuca Sardan, brasileiro radicado na Alemanha e considerado um dos pais da literatura marginal; Interferências, poesias do escritor mineiro Bruno Brum; E Agora José?, ensaios do professor venezuelano Fernando Villarraga (UFSM), que, através de uma linguagem “nada acadêmica”, propõem uma reflexão sobre o ambiente universitário. Entre os volumes de poemas, destaque-se que Sardan é arquiteto de formação e diplomata de profissão. Nos anos 70, integrou a geração mimeógrafo e, posteriormente, destacou-se no circuito editorial brasileiro (Editora da UNICAMP, Ossos do coração e As de colete; Companhia das Letras, Babylon; Cosac Naify, Ximerix). Quanto a Bruno Brum, mineiro de Belo Horizonte, Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2010), é curador da coleção Leve um Livro, projeto destinado a distribuir em Belo Horizonte, de forma gratuita, microantologias de 24 poetas contemporâneos. Já no tocante à ensaística, entre os lançamentos da semana,  Villarraga, que é professor de Literatura, cujas primeiras letras foram cursadas “na cidade mais feia do mundo, segundo a frase cáustica de Gabo”, através de uma visada crítica, enfoca particularmente a área de Letras, questionando uma noção produtivista diante da qual perderam espaço os referenciais relevantes de quem, como o autor, teve sua formação na “ciudad letrada”, “sabendo que, pelas condições de uma modernidade periférica, a de América Latina, apresentava uma peculiar fisionomia transculturada e heterogênea”. Títulos como “Divagações de um homo sapiens diplomado”, “Do passado das Letras às Letras do passado” e “Os Cursos de Letras na época do pós-tudo ou o mordomo levou a passear as Letras” dão o tom algo sarcástico do autor que, como ele mesmo ressalta, já lhe valeu a pecha, entre os pares, de “forasteiro fora do lugar”. Vale a pena conferir.

 VILLARRAGA, Fernando. E agora José? Santa Maria: Vento Norte Cartonero, 2015. 94 págs. R$ 10,00

SARDAN, Zuca. Xorok Kopox. Santa Maria: Vento Norte Cartonero, 2015. 34 págs. R$ 10,00.

BRUM, Bruno. Interferências. Santa Maria: Vento Norte Cartonero, 2015. 34 págs. R$ 10,00

PILATOS E JESUS

Pilatos e jesus

∗LANÇAMENTO∗

Influente filósofo e historiador de origem italiana, profundo conhecedor das obras de Walter Benjamin, Heidegger, Nietzsche e Foucault, Giorgio Agamben mostra como o encontro fugaz entre Pilatos e Jesus colocou em jogo um evento enorme e inédito. Trata-se de ensaio breve, saliente por destacar que em nenhum outro momento a eternidade cruzou a história de modo tão contundente. Há tempos, Giorgio Agamben vem construindo uma obra extensa que visa a dar conta, entre outras coisas, dos desafios próprios à ação política na contemporaneidade. É o que também procura fazer neste Pilatos e Jesus, aproximando atualidade e passado distante ao observar a forma do processo que foi montado à época. A tradução é de Patricia Peterle e Silvana de Gaspari. O selo é Boitempo em consórcio com a Editora da UFSC.

AGAMBEN, Giorgio. Pilatos e Jesus. Trad. Patricia Peterle e Silvana de Gaspari. São Paulo: Boitempo; Florianópolis: Editora UFSC, 2014. 80 pags. R$ 28,00