EUCANAÃ FERRAZ

            Para mim, a leitura é um exercício de conhecimento. Talvez, por isso, me agradem particularmente os romances históricos, os textos memorialistas, justamente onde o dar-se a conhecer é mais imediato.

            Da poesia, gosto muito, mas, confesso, me falta o hábito. Invejo meu amigo Vítor Biasoli, para quem a poesia é quase uma necessidade física, uma compulsão, uma leitura que tem que ser reposta constantemente, como o insone repõe o sonífero para vencer o peso de ficar acordado no escuro. O Vítor, aliás, é um desses leitores desinteressados, que curte filigranas de textos. Leitor-leitor.

            Talvez eu seja um leitor mais apressado. Daí, por certo, meu gosto pela prosa, que se lê sofregamente. O poema exige lerdeza, cautela, uma passagem vagarosa pelos mesmos pontos. Não pense o leitor, porém, que desconsidero o gênero. Muito pelo contrário: admiro muito os poetas, a capacidade de construir imagens que sintetizam conceitos, as aproximações insólitas, a magia dos sons combinados. Mário de Andrade disse uma vez que Machado só se tornou grande depois de ter passado pela poesia. A sentença continua valendo: a poesia é uma admirável lição para os prosadores.

            A propósito de poesia, sou admirador da obra de Eucanaã Ferraz, professor de literatura da Federal do Rio de Janeiro, que está em seu quinto livro de poemas. Escuta, o mais recente, lançada pela Companhia das Letras em 2015, mostra o verso certeiro de Eucanaã que flagra os estados afetivos mais extremos. Entre o conjunto, flagro uma bela sequência (aliás, quase uma mistura poesia/prosa) que divulgo como uma mostra do bom poeta. Desses que, em uma palavra ou em uma frase, falam por dezenas de páginas de um prosador. Genial, não?

                             

CONTROLE REMOTO

            Em 80, comprei uma TV colorida no Stoever & Filhos (alguém lembra?) e escolhi um modelo sem controle remoto.

            O que me levou a dispensar o controle? Se a mim fosse feita a pergunta, na época, responderia logo que fui motivado pela diferença de preço. Para ter a engenhoca pagava-se bem mais caro.

            Acho, porém, que havia outros motivos, talvez menos salientes, em minha definição. Um deles, por certo, era bem pragmático. Para que controle remoto? Afinal, havia apenas dois ou três canais à disposição e, em quase cem por cento do tempo, optávamos mesmo era por um deles, quando mais não fosse, porque a qualidade da imagem era muito melhor. Outro motivo, creio, prendia-se ao fato de que ainda tinha muito presente certo peso de culpa diante do conforto. A própria televisão colorida cheirava a novidade no mercado e eu, às vezes por necessidade, às vezes por opção (ou formação, sei lá) convivia mal com os excessos materiais. Portanto, adquirir o aparelho já significava, em si, um luxo. Que dirá ter um controle remoto! Ademais, o que era levantar-se da poltrona e fazer a troca de canais no próprio aparelho?

            Recordo esse episódio e fico pensando que minha geração – que está entre os 50 e os 60 – contentava-se com pouco. Em geral, tínhamos poucas peças de roupas, poucos sapatos, poucos discos. Em viagem, às vezes, levava-se menos que o essencial. E não me refiro aos que estavam abaixo da linha de consumo. Na média, vivíamos, com nossos pais, a era da unidade: o carro único, a TV única, o rádio único.

            Acho que, mesmo assim, raramente aspirávamos ter mais do que tínhamos. Afinal, aquela parecia ser a ordem natural das coisas. Não lembro de um dia ter sentido algo na linha de uma angústia da falta. Já hoje, quando temos o mundo ao nosso alcance, a imensa e fácil oferta causa, sim, a angústia do excesso.

            Nossas salas, nossos quartos, nossas garagens estão cada vez mais atulhados. E, pior, o problema não é dispor de controle remoto. O problema é ter um e não saber o que fazer com ele.

LIVROS DA SEMANA

∗OPERAÇÃO IMPENSÁVEL∗

operacaoimpensável

A escritora paulista Vanessa Barbara apresenta uma história de amor e desamor entre a historiadora Lia e o programador Tito, construída em torno de comunhão de interesses por cultura pop e jogos de tabuleiro, até que a suspeita de uma traição dá início a um conflito conjugal que remete aos jogos de estratégia que faziam parte da intimidade do casal.

BARBARA, Vanessa. Operação impensável. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. 224 págs. R$ 39,90 impresso e R$ 19,90 em e-book.

∗O POVO BRASILEIRO∗

Reedição da obra máxima do sociólogo Darcy Ribeiro (1922 – 1997), espécie de súmula de seu pensamento e testamento intelectual. Publicado originalmente em 1995, é um elogio do Brasil escrito em tom apaixonado, recapitulando as matrizes étnicas e culturais da formação do povo brasileiro e de sua configuração como o atual “povo nação” com características próprias e únicas.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2015. 368 págs. R$ 49,00.

LIVROS E EVENTOS CELEBRAM 150 ANOS DE EUCLYDES DA CUNHA

Em 1898, uma enchente levou a ponte de São José do Rio Pardo (SP). O enviado para recolocá-la de pé foi o escritor e engenheiro Euclydes da Cunha – que anos antes testemunhara a Guerra de Canudos. Na cidadezinha, ele ergueu a ponte e sua obra-prima: Os Sertões (1902), em que narra a luta das forças republicanas contra os fiéis de Antônio Conselheiro.

O autor de um dos marcos da literatura nacional completaria 150 anos em 20/01/2016. A comemoração é composta de atrações que se desdobrarão ao longo do ano. Três novos livros estão vindo por aí, e a cidade de São José do Rio Pardo vai celebrar a data.

A Casa Euclidiana, centro cultural localizada onde o autor escreveu Os Sertões, sedia eventos em memória do escritor. O auge ocorre na semana de 9 a 15/8 – quando a cidade promove, há quase 70 anos, a “Semana Euclidiana”.

Em março, a Unesp começa a editar a prosa completa de Euclydes acrescida de inéditos – em vários volumes, organizados por Leopoldo Bernucci, pesquisador da Universidade da Califórnia em Davis, e Felipe Rissatto, euclidiano independente. “Além dos inéditos, o primeiro tomo trará ensaios conhecidos, mas em versões diferentes”, afirma Leopoldo Bernucci.

O pesquisador publica ainda neste ano seu livro “Um Paraíso Suspeitoso”. Nele, Bernucci traça a relação entre o escritor, o poeta colombiano José Eustasio Rivera e o brasileiro Alberto Rangel -que, como Euclydes, denunciaram a escravidão nos seringais da Amazônia.

Também é este o ano de revisitar a “tragédia da Piedade”, episódio no qual Euclydes flagrou sua mulher, S’Anninha, com o amante, Dilermando de Assis, e acabou morto por este. Anna Sharp, neta de S’Anninha, prepara, para o meio do ano, um romance contando a história do ponto de vista de cada um dos vértices do triângulo amoroso.

O livro é baseado em um diário da avó encontrado em 2014. “Receber o diário dela foi um sinal”, diz Anna Sharp.

(Fonte: Maurício Meireles, colunista. Folha de São Paulo, 20/01/2016)

Caderneta Euclides

Desenho do Arraial de Canudos, feito por Euclydes da Cunha da perspectiva do Morro da Favela. Facsimile de caderneta do autor.

A CENSURA

            Clark Gable, Spencer Tracey, Joan Crawford, John Wayne e Bette Davis foram algumas das míticas estrelas cinematográficas usadas pela indústria de tabaco.

            Entre os anos 30 e 40 viveu-se o auge da entronização do cigarro como atributo indispensável de um tipo elegante e algo enigmático. O cinema contribuiu muito para a afirmação dessa imagem. O cigarro era adereço indispensável das grandes estrelas. Tempos atrás divulgou-se contratos milionários assinados entre a indústria tabagista e os astros de Hollywood. Os papéis indicam que o auge da prática situa-se em um intervalo de três décadas, entre o início do cinema falado, no final dos anos 20 e a chegada da TV, na década de 50.

            Sob muitos aspectos, o século XX foi um tempo de descobertas, de vida sem culpa, enfim, de sexo, drogas e rock’n roll. O cinema teve um papel muito importante na difusão de modismos que, pela primeira vez na história, alcançaram rápidas repercussões planetárias.

            Este início de século XXI, em contrapartida, revela-se um tempo de vidas vigiadas, proibições, limitações. A onda anti-tabagismo é uma dessas reações em cadeia bem típicas de nosso tempo. Todo mundo já está repetindo que faz mal, pega mal e, em muitas situações, é ilegal.  Leio que até no Japão – onde, aliás, fuma-se demais – as máquinas automáticas de vendas de cigarros já precisam de um cartão eletrônico que somente é liberado para fumantes que preencherem cadastro. Com isso, os japoneses pretendem tornar tais máquinas inacessíveis aos menores e aos jovens em geral.

            Nunca fumei e, de minha parte, vejo com simpatia as campanhas antifumo. Porém, o perigo dos julgamentos em nossa época de sofisticado controle digital é que a fronteira entre a democracia e o moralismo punitivo está ficando cada vez mais tênue. E, em certo sentido, perigosa.

 

 

 

GAÚCHOS DE 30

            Por estes dias, tenho teimado contra o tempo para fechar um artigo que trata de autores gaúchos que produziram ao redor de 1930.

            Entre eles, avulta a figura de Aureliano de Figueiredo Pinto. É impressionante reler Aureliano e auscultar o eco de sua crescente importância. Nascido na zona rural em região adstrita a então vila de Tupanciretã, alfabetizou-se com a ajuda da mãe em casa. Com 10 anos ingressa no Colégio Santa Maria para cursar o Ginásio. Daqui, ganha mundo: vive em Porto Alegre e no Rio de Janeiro até concluir o Curso de Medicina em 1931.

            Em seguida já aparece clinicando em nossa vizinha Santiago. Com breves interrupções, motivadas por saídas motivadas pelo trabalho, Santiago é sua cidade definitiva, onde, até morrer, dividirá as funções da clínica médica com o hábito regular de escrever.

            Consta que foi dos primeiros a reconhecer o valor da obra literária de João Simões Lopes Neto, da mesma maneira que era versado na literatura criolla platina. Como o velho tapejara criado por João Simões, seus narradores e personas poéticas traduzem ao horizonte de vivências campeiras os dramas maiores da existência como a solidão, a velhice, o empobrecimento, a traição e a vingança.

            O ano de sua morte, 1959, coincide com o lançamento, pela Editora Globo, de Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo. Foi o primeiro livro, que, ironicamente, lhe chegou às mãos nos últimos instantes da existência. Os demais títulos foram póstumos. Dois são de poemas: Romances de Estância e Querência – Armonial de Estância e Outros Poemas (Sulina, 1963) e Itinerário – Poemas de cada instante (Movimento, 1998). A esses volumes, soma-se a novela Memórias do Coronel Falcão, espécie de contraprova da capacidade inventiva do autor. A comprovar-lhe o peso e o alcance, tardiamente recompensados, a obra, escrita na década de 30, recebeu três edições em sequência, todas da Editora Movimento (1973/74/86).

            Seus livros confirmam a reconhecida dotação intelectual que, no transcurso da existência, granjeou testemunhas ilustres e continua somando novos e interessados leitores, como grande literatura que é.

ENVELHECER

            Fernanda Torres fez 50 anos. Sou um pouco mais velho, lapso que me permitiu vê-la atriz menina na TV e no teatro. Por isso, lendo-a, me abateu o dito gasto implacável das horas e dos dias.

            É aquela coisa: um dia a gente acorda, e como canta Renato Russo, sente que “mudaram as estações, (nada mudou) mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim tão diferente”. Ir ficando velho é, enfim, sentir com frêmito de pressa que tudo está passando. E como afirma Santo Agostinho, Deus, que é eterno, é o único que existe fora do tempo. É famosa a passagem do Livro XI das “Confissões”, na qual o santo pensador dirige-se ao Senhor nesses termos: “Nenhuns tempos Vos são coeternos porque Vós permaneceis imutável, e se os tempos assim permanecessem, já não seriam tempos”.

            Agostinho foi um sábio do tempo. A nós, comuns mortais, que mais sabemos por experiência vivida do que por sabedoria lida, resta enfrentar com dignidade – e se der, com boa dose de coragem e resignação, a mudança das estações. Como verseja Renato Russo, poeta profano da canção citada: “Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está, agora tanto faz: estamos indo de volta pra casa”.

            Ocorre que a Fernanda Torres fez 50 anos. Li um depoimento pungente da atriz reclamando do tabu do envelhecimento da mulher e me enterneci com sua dignidade: “numa época em que o sexo é encarado com naturalidade e a causa gay defendida no horário nobre, surpreende o quanto a menopausa se mantém velada, secreta”.

            Fernanda disse mais. Falou sobre o desmanche da indústria fonográfica, na virada do milênio, e da jovialidade que graça nas redações de jornal, nas produtoras de TV, no mercado editorial, na publicidade, no teatro, no cinema. Em suas próprias palavras, “no mundo como eu o conheço”.

            Sabemos, sim, Fernanda, que outras formas de pensar surgirão, mas, de fato, “impressiona testemunhar a história”. E, ante o tempo que urge, já não encontro fecho mais adequado do que fechar contigo: “Envelhecer. Jamais achei que fosse acontecer comigo”.

CACHORROS

            Fidelidade e utilidade: eis o que o encontro do homem com o cachorro nos sugere na comovente passagem da Odisseia, texto da antiguidade grega.

            Sozinho, com sua tripulação dizimada, vinte anos após ter partido, Ulisses, enfim, retorna a casa onde Penélope, sua mulher, resiste ao assédio constante de muitos pretendentes que o julgam morto. Quando, disfarçado de velho mendigo, mistura-se aos forasteiros que lhe invadem o lar e, incógnita, fica a observar o que se passa, a primeira criatura que lhe reconhece e põe em risco seu hábil estratagema é o velho cão Argus. Idoso, sem conseguir se levantar, Argus fareja-lhe, levanta as orelhas e sacode o rabo.

            Li, a propósito, um artigo chamado “Laertes e o mundo do trabalho na Odisséia”, de autoria da professora paulista Adriane Duarte. A estudiosa observa que o herói, em seu retorno a Ítaca, cerca-se de trabalhadores, por vezes humildes, como o porqueiro Eumeu, o cabreiro Filécio ou a criada Euricleia. Com isso, reafirma-se em sua cidade através de uma aliança que é garantida pelo trabalho.

            A mesma lógica que o aproxima dos criados se vê reforçada nos laços familiares e afetivos de Ulisses: Penélope é exímia tecelã, Laertes, hábil agricultor e – no que nos interessa – o próprio Argus, o cão do herói, merece menção pela reconhecida habilidade de caçador, firmada em seus anos de juventude.

            Fidelidade e utilidade. Esses conceitos já mudaram muito desde os tempos de Homero. Hoje, há quem busque no animal simplesmente um aliado contra a solidão, dispensando-lhe a utilidade prática. Porém, mais constantes que os homens, os cães, quando nos abanam o rabo ou levantam as orelhas, estão simplesmente nos mostrando o quanto continua atual o gesto do velho Argus.

CIDADE E LITERATURA

               Reli no final de semana A ilha do tesouro e outros poemas, livro do Claudio Cruz, professor da Federal de Santa Catarina e estudioso do assunto cidade.

            Trata-se de um belo conjunto de poemas que revisita a Porto Alegre onde o Claudio foi menino e virou gente grande. São construções breves que se orientam pelo condão de um herói grego imaginário a repisar sua Ítaca eterna. A prova mais evidente da empatia do tema e da funcionalidade da forma está no fato de que a gente lê em voz alta e sente aquela vontade de não interromper a leitura.

            Quando pensamos na continuada produção que ocorre em Santa Maria observamos o quanto essa produção está voltada para a cidade, sua história, seus personagens e lugares característicos. Pois, identificando o livro do Claudio nessa mesma linha de interesse, fiquei pensando o quão vasta é a tradição de literatura que toma a cidade como tema central. Poderíamos lembrar, por exemplo, que Erico Veríssimo foi o escritor de Porto Alegre nos romances da fase inicial. Na poesia, quase na mesma época, Mário de Andrade elegeu São Paulo como o grande assunto de seus versos.

            Em Erico, temos o painel, a paisagem urbana e a variedade de seus tipos, cada um representando seu papel sem necessariamente se cruzar com os demais. Em Mário, o poeta inquieto mistura seus sentimentos e sensações com o espaço urbano, vê ruas e gentes como uma extensão de suas idéias e de seu corpo.

            O interessante, em ambos, é delinear uma espécie de cartografia simbólica decalcada das cidades reais – no caso, Porto Alegre e São Paulo das primeiras décadas do século XX. O efeito literário é rico. As cidades se confundem mesmo com a própria estrutura dos textos, moldam frases, expressões, enfim, garantem uma espécie de enredo comum no qual nós, adultos e crianças, habitantes de outras cidades e outros tempos, nos reconhecemos com facilidade e, no limite, criamos nossas próprias formas de contar as urbes em que habitamos.

RODA-VIVA

            Como dizem os versos do Chico, tem dias que “a gente quer ter voz ativa/ no nosso destino mandar/ mas eis que chega a roda-viva/ e carrega o destino pra lá”.

            O problema é que tudo que gira tende ao moto contínuo. E a dinâmica, lá pelas tantas, ganha vida própria, para além de nossas forças e controles.
É nesse ponto que, não raro, como diz aquele verso sugestivo do Aureliano de Figueiredo Pinto, assumimos a condição do taura que “arrisca a vida só pra honrar a patacoada”.

            Outro dia li um arrazoado do escritor argentino Ricardo Piglia que, com bom humor e inspiração marxista, discorre sobre as teias que nos enredam na sociedade que habitamos e, de certo modo, chancelamos.

            Lá pelas tantas, o texto se debruça sobre o problema da delinquência e, a seu modo, nos alerta sobre as redes insuspeitas que o ato de delinquir produz: “o delinquente não produz somente delitos. Produz o direito penal e, com ele, ao mesmo tempo, o professor encarregado de sustentar cursos sobre esta matéria e, ademais, o inevitável compêndio em que este mesmo professor lança ao mercado suas lições como uma mercadoria. O qual contribui para aumentar a riqueza nacional, a parte da fruição privada que, segundo nos fazem crer alguns testemunhos, o manuscrito do compêndio produz em seu próprio autor”.

            Poderíamos ir adiante e lembrar que o delinquente ainda gera toda a polícia e a administração de justiça penal, que representam outras tantas categorias da divisão social do trabalho, desenvolvem diferentes capacidades do espírito humano, criam novas necessidades e novos modos de satisfazê-las.

            Essa teia de relações nos traz de volta, naturalmente, ao preceito marxista de que, no capitalismo, as próprias mazelas redundam em possibilidades criativas que despertam a ascensão e a edificação da ordem social e econômica. O texto de Ricardo Piglia não despreza a assertiva de Marx. Mas, abre também outras questões que me pareceram bastante apropriadas ao que temos vivido por aqui. Sem delitos nacionais, haveria o mercado mundial? Quiçá, existiriam nações? Afinal, não é a árvore do pecado, ao mesmo tempo e desde Adão, a árvore do conhecimento?