SÍNDROME DE VIRA-LATA

            Estou entre os 20 por cento de brasileiros que adotam cães SRD, de longe, os campeões da preferência nacional.

            Os populares vira-latas, de fato, são resistentes, flexíveis e, de quebra, exclusivos: sem raça definida, não possuem termo de comparação. Porém, malgrado as vantagens decantadas por seus donos, volta e meia esses simpáticos cãezinhos servem de parâmetro a situações desabonadoras.

            Esta, aliás, foi a inspiração de Nelson Rodrigues que, sob o impacto da fatídica derrota brasileira para os uruguaios na Copa de 50, com o intuito de explicar nossa sina de falhar na “hora H”, consagrou a expressão “complexo de vira-lata”. Desde então, muita queixa tem se entoado sobre nossa emotiva origem lusa, fadada ao fracasso diante da frieza de saxões, vikings e nórdicos em geral, quando não, de hispânicos e gauleses.

            Em tempos do politicamente correto, não faltará quem se levante argumentando que a comparação desmerece a brava classe dos vira-latas. Não foi o caso do professor Jessé Souza. Pertencente à Federal Fluminense e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, o professor subiu o tom e aplicou a sanha da viralatice a nomes de alto coturno da intelectualidade pátria.

            Com o livro “A tolice da inteligência brasileira”, Souza soma mais um título polêmico em que acusa próceres como Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Henrique Cardoso e Roberto da Matta. Para ele, são nomes que ajudaram a fomentar o famoso complexo de inferioridade acusado por Nelson Rodrigues.

            De acordo com Jessé Souza, somente a síndrome do vira-lata pode explicar o desprezo manifestado por esses autores ao fato de que nossos problemas não nascem de deficiências culturais que tenhamos frente a outros povos – em especial os ditos desenvolvidos. Imaginar que existam países onde não haja a apropriação privada do Estado para fins particulares e defender a existência de um patrimonialismo à brasileira, de acordo com o acusador, são posições equivocadas e danosas.

           A tese do doutor Jessé é ousada. Minha dúvida é se terá fôlego para se manter com tanto cachorro grande no seu rabo.

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