TUDO OUTRA VEZ

            Morrer aos 45 anos, ainda com o viço da juventude e permanecer ídolo como Gardel é uma coisa. Outra bem diferente é sobreviver às intempéries, aos males do corpo e da alma e chegar ídolo aos 70.

            Quem assiste Roberto Carlos todo fim de ano na TV sabe que nosso Papai Noel tem voz doce e afinada, cabelos que as eras não branqueiam e um jeito de bom moço. Com ele na sala, há sempre um modo surpreendente de dizer velhas e novas canções, garantia de que as coisas, de algum modo, permanecem no seu lugar.

            Na sociedade globalizada em que vivemos, os saberes tradicionais perdem sentido. Houve um tempo, em que mudar não constituía dimensão importante. Hoje, os povos que valorizam o movimento de retorno, transmitido de geração em geração, a partir dos mais antigos, são cada vez mais escassos. Para esses povos, porém, a tradição tem peso forte.

            Em nossa era, é o indivíduo que constitui um centro privilegiado dotado de uma consciência única a ser valorizada e revelada. Ao colocarmos nossa própria existência como um objeto vital no interior do coletivo, nós transformamos nossa história particular em um  fenômeno importante que deve ser promovido, divulgado. A manifestação mais avançada desse processo é a geração de blogs e flogs que se multiplicam na internet.

            O curioso disso tudo é que um sujeito como Roberto cabe nas duas pontas do processo.  Por um lado, sua carreira – como a de todo ídolo de massa – deve muito a esse individualismo apartado do conjunto que marca nosso tempo. Por outro lado, sua sobrevivência midiática subverte a própria lógica do sistema – que, de resto, é amplo o suficiente para absorver essas subversões – e vai virando tradição, evocando tempos idos, alertando-nos da importância vital dos ciclos e dos retornos.

            Enfim, marcas do que se foi. Sinais do que está por vir.

A CENSURA

            Clark Gable, Spencer Tracey, Joan Crawford, John Wayne e Bette Davis foram algumas das míticas estrelas cinematográficas usadas pela indústria de tabaco.

            Entre os anos 30 e 40 viveu-se o auge da entronização do cigarro como atributo indispensável de um tipo elegante e algo enigmático. O cinema contribuiu muito para a afirmação dessa imagem. O cigarro era adereço indispensável das grandes estrelas. Tempos atrás divulgou-se contratos milionários assinados entre a indústria tabagista e os astros de Hollywood. Os papéis indicam que o auge da prática situa-se em um intervalo de três décadas, entre o início do cinema falado, no final dos anos 20 e a chegada da TV, na década de 50.

            Sob muitos aspectos, o século XX foi um tempo de descobertas, de vida sem culpa, enfim, de sexo, drogas e rock’n roll. O cinema teve um papel muito importante na difusão de modismos que, pela primeira vez na história, alcançaram rápidas repercussões planetárias.

            Este início de século XXI, em contrapartida, revela-se um tempo de vidas vigiadas, proibições, limitações. A onda anti-tabagismo é uma dessas reações em cadeia bem típicas de nosso tempo. Todo mundo já está repetindo que faz mal, pega mal e, em muitas situações, é ilegal.  Leio que até no Japão – onde, aliás, fuma-se demais – as máquinas automáticas de vendas de cigarros já precisam de um cartão eletrônico que somente é liberado para fumantes que preencherem cadastro. Com isso, os japoneses pretendem tornar tais máquinas inacessíveis aos menores e aos jovens em geral.

            Nunca fumei e, de minha parte, vejo com simpatia as campanhas antifumo. Porém, o perigo dos julgamentos em nossa época de sofisticado controle digital é que a fronteira entre a democracia e o moralismo punitivo está ficando cada vez mais tênue. E, em certo sentido, perigosa.

 

 

 

GAÚCHOS DE 30

            Por estes dias, tenho teimado contra o tempo para fechar um artigo que trata de autores gaúchos que produziram ao redor de 1930.

            Entre eles, avulta a figura de Aureliano de Figueiredo Pinto. É impressionante reler Aureliano e auscultar o eco de sua crescente importância. Nascido na zona rural em região adstrita a então vila de Tupanciretã, alfabetizou-se com a ajuda da mãe em casa. Com 10 anos ingressa no Colégio Santa Maria para cursar o Ginásio. Daqui, ganha mundo: vive em Porto Alegre e no Rio de Janeiro até concluir o Curso de Medicina em 1931.

            Em seguida já aparece clinicando em nossa vizinha Santiago. Com breves interrupções, motivadas por saídas motivadas pelo trabalho, Santiago é sua cidade definitiva, onde, até morrer, dividirá as funções da clínica médica com o hábito regular de escrever.

            Consta que foi dos primeiros a reconhecer o valor da obra literária de João Simões Lopes Neto, da mesma maneira que era versado na literatura criolla platina. Como o velho tapejara criado por João Simões, seus narradores e personas poéticas traduzem ao horizonte de vivências campeiras os dramas maiores da existência como a solidão, a velhice, o empobrecimento, a traição e a vingança.

            O ano de sua morte, 1959, coincide com o lançamento, pela Editora Globo, de Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo. Foi o primeiro livro, que, ironicamente, lhe chegou às mãos nos últimos instantes da existência. Os demais títulos foram póstumos. Dois são de poemas: Romances de Estância e Querência – Armonial de Estância e Outros Poemas (Sulina, 1963) e Itinerário – Poemas de cada instante (Movimento, 1998). A esses volumes, soma-se a novela Memórias do Coronel Falcão, espécie de contraprova da capacidade inventiva do autor. A comprovar-lhe o peso e o alcance, tardiamente recompensados, a obra, escrita na década de 30, recebeu três edições em sequência, todas da Editora Movimento (1973/74/86).

            Seus livros confirmam a reconhecida dotação intelectual que, no transcurso da existência, granjeou testemunhas ilustres e continua somando novos e interessados leitores, como grande literatura que é.

ENVELHECER

            Fernanda Torres fez 50 anos. Sou um pouco mais velho, lapso que me permitiu vê-la atriz menina na TV e no teatro. Por isso, lendo-a, me abateu o dito gasto implacável das horas e dos dias.

            É aquela coisa: um dia a gente acorda, e como canta Renato Russo, sente que “mudaram as estações, (nada mudou) mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim tão diferente”. Ir ficando velho é, enfim, sentir com frêmito de pressa que tudo está passando. E como afirma Santo Agostinho, Deus, que é eterno, é o único que existe fora do tempo. É famosa a passagem do Livro XI das “Confissões”, na qual o santo pensador dirige-se ao Senhor nesses termos: “Nenhuns tempos Vos são coeternos porque Vós permaneceis imutável, e se os tempos assim permanecessem, já não seriam tempos”.

            Agostinho foi um sábio do tempo. A nós, comuns mortais, que mais sabemos por experiência vivida do que por sabedoria lida, resta enfrentar com dignidade – e se der, com boa dose de coragem e resignação, a mudança das estações. Como verseja Renato Russo, poeta profano da canção citada: “Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está, agora tanto faz: estamos indo de volta pra casa”.

            Ocorre que a Fernanda Torres fez 50 anos. Li um depoimento pungente da atriz reclamando do tabu do envelhecimento da mulher e me enterneci com sua dignidade: “numa época em que o sexo é encarado com naturalidade e a causa gay defendida no horário nobre, surpreende o quanto a menopausa se mantém velada, secreta”.

            Fernanda disse mais. Falou sobre o desmanche da indústria fonográfica, na virada do milênio, e da jovialidade que graça nas redações de jornal, nas produtoras de TV, no mercado editorial, na publicidade, no teatro, no cinema. Em suas próprias palavras, “no mundo como eu o conheço”.

            Sabemos, sim, Fernanda, que outras formas de pensar surgirão, mas, de fato, “impressiona testemunhar a história”. E, ante o tempo que urge, já não encontro fecho mais adequado do que fechar contigo: “Envelhecer. Jamais achei que fosse acontecer comigo”.

CACHORROS

            Fidelidade e utilidade: eis o que o encontro do homem com o cachorro nos sugere na comovente passagem da Odisseia, texto da antiguidade grega.

            Sozinho, com sua tripulação dizimada, vinte anos após ter partido, Ulisses, enfim, retorna a casa onde Penélope, sua mulher, resiste ao assédio constante de muitos pretendentes que o julgam morto. Quando, disfarçado de velho mendigo, mistura-se aos forasteiros que lhe invadem o lar e, incógnita, fica a observar o que se passa, a primeira criatura que lhe reconhece e põe em risco seu hábil estratagema é o velho cão Argus. Idoso, sem conseguir se levantar, Argus fareja-lhe, levanta as orelhas e sacode o rabo.

            Li, a propósito, um artigo chamado “Laertes e o mundo do trabalho na Odisséia”, de autoria da professora paulista Adriane Duarte. A estudiosa observa que o herói, em seu retorno a Ítaca, cerca-se de trabalhadores, por vezes humildes, como o porqueiro Eumeu, o cabreiro Filécio ou a criada Euricleia. Com isso, reafirma-se em sua cidade através de uma aliança que é garantida pelo trabalho.

            A mesma lógica que o aproxima dos criados se vê reforçada nos laços familiares e afetivos de Ulisses: Penélope é exímia tecelã, Laertes, hábil agricultor e – no que nos interessa – o próprio Argus, o cão do herói, merece menção pela reconhecida habilidade de caçador, firmada em seus anos de juventude.

            Fidelidade e utilidade. Esses conceitos já mudaram muito desde os tempos de Homero. Hoje, há quem busque no animal simplesmente um aliado contra a solidão, dispensando-lhe a utilidade prática. Porém, mais constantes que os homens, os cães, quando nos abanam o rabo ou levantam as orelhas, estão simplesmente nos mostrando o quanto continua atual o gesto do velho Argus.

CIDADE E LITERATURA

               Reli no final de semana A ilha do tesouro e outros poemas, livro do Claudio Cruz, professor da Federal de Santa Catarina e estudioso do assunto cidade.

            Trata-se de um belo conjunto de poemas que revisita a Porto Alegre onde o Claudio foi menino e virou gente grande. São construções breves que se orientam pelo condão de um herói grego imaginário a repisar sua Ítaca eterna. A prova mais evidente da empatia do tema e da funcionalidade da forma está no fato de que a gente lê em voz alta e sente aquela vontade de não interromper a leitura.

            Quando pensamos na continuada produção que ocorre em Santa Maria observamos o quanto essa produção está voltada para a cidade, sua história, seus personagens e lugares característicos. Pois, identificando o livro do Claudio nessa mesma linha de interesse, fiquei pensando o quão vasta é a tradição de literatura que toma a cidade como tema central. Poderíamos lembrar, por exemplo, que Erico Veríssimo foi o escritor de Porto Alegre nos romances da fase inicial. Na poesia, quase na mesma época, Mário de Andrade elegeu São Paulo como o grande assunto de seus versos.

            Em Erico, temos o painel, a paisagem urbana e a variedade de seus tipos, cada um representando seu papel sem necessariamente se cruzar com os demais. Em Mário, o poeta inquieto mistura seus sentimentos e sensações com o espaço urbano, vê ruas e gentes como uma extensão de suas idéias e de seu corpo.

            O interessante, em ambos, é delinear uma espécie de cartografia simbólica decalcada das cidades reais – no caso, Porto Alegre e São Paulo das primeiras décadas do século XX. O efeito literário é rico. As cidades se confundem mesmo com a própria estrutura dos textos, moldam frases, expressões, enfim, garantem uma espécie de enredo comum no qual nós, adultos e crianças, habitantes de outras cidades e outros tempos, nos reconhecemos com facilidade e, no limite, criamos nossas próprias formas de contar as urbes em que habitamos.

RODA-VIVA

            Como dizem os versos do Chico, tem dias que “a gente quer ter voz ativa/ no nosso destino mandar/ mas eis que chega a roda-viva/ e carrega o destino pra lá”.

            O problema é que tudo que gira tende ao moto contínuo. E a dinâmica, lá pelas tantas, ganha vida própria, para além de nossas forças e controles.
É nesse ponto que, não raro, como diz aquele verso sugestivo do Aureliano de Figueiredo Pinto, assumimos a condição do taura que “arrisca a vida só pra honrar a patacoada”.

            Outro dia li um arrazoado do escritor argentino Ricardo Piglia que, com bom humor e inspiração marxista, discorre sobre as teias que nos enredam na sociedade que habitamos e, de certo modo, chancelamos.

            Lá pelas tantas, o texto se debruça sobre o problema da delinquência e, a seu modo, nos alerta sobre as redes insuspeitas que o ato de delinquir produz: “o delinquente não produz somente delitos. Produz o direito penal e, com ele, ao mesmo tempo, o professor encarregado de sustentar cursos sobre esta matéria e, ademais, o inevitável compêndio em que este mesmo professor lança ao mercado suas lições como uma mercadoria. O qual contribui para aumentar a riqueza nacional, a parte da fruição privada que, segundo nos fazem crer alguns testemunhos, o manuscrito do compêndio produz em seu próprio autor”.

            Poderíamos ir adiante e lembrar que o delinquente ainda gera toda a polícia e a administração de justiça penal, que representam outras tantas categorias da divisão social do trabalho, desenvolvem diferentes capacidades do espírito humano, criam novas necessidades e novos modos de satisfazê-las.

            Essa teia de relações nos traz de volta, naturalmente, ao preceito marxista de que, no capitalismo, as próprias mazelas redundam em possibilidades criativas que despertam a ascensão e a edificação da ordem social e econômica. O texto de Ricardo Piglia não despreza a assertiva de Marx. Mas, abre também outras questões que me pareceram bastante apropriadas ao que temos vivido por aqui. Sem delitos nacionais, haveria o mercado mundial? Quiçá, existiriam nações? Afinal, não é a árvore do pecado, ao mesmo tempo e desde Adão, a árvore do conhecimento?

RAUL SEIXAS

            Se vivo fosse, Raul Seixas, o roqueiro brasileiro, teria feito 70 anos no final do mês passado.

            Li um depoimento emotivo de Ruy Castro, um nome conhecido pela dedicação à biografia de famosos, falando de experiência desconfortável que dividiu com Raul: em fevereiro de 1988 ambos tomaram parte da comunidade restrita de 15 sujeitos recém-saídos de clínicas de dependência química em São Paulo. Reuniam-se semanalmente para trocar experiências e ajudarem-se mutuamente no mais difícil para quem entra nessa – que é não reincidir no vício.

            O quadro, por óbvio, não era alentador: “todos entre 30 e 50 anos, casados e alcóolatras, alguns com uma segunda droga na história: cocaína, ácido, bolinhas. A de Raul era éter”. A confiança na recuperação tinha em conta retomar profissão, carreira, casamento, saúde e amigos. Alheio, porém, à atmosfera de esperança e otimismo, o pai do rock “ficava pelos cantos, acabrunhado”. O desfecho foi inevitável: “Raul foi o primeiro a retomar as substâncias, entregar os pontos e morrer” – o que se deu em agosto de 89, pouco mais de um ano após as tentativas descritas por Castro.

            O que mais me impressiona na carreira de Raul é a convivência do gênero outsider com um senso nato de mercado. Contratado pela gravadora CBS em 1968, chegou a fazer parcerias com o brega chic da hora (cantou, por exemplo, com Leno da dupla Leno & Lilian), trabalhou em arranjos e “arrumou” muito estribilho que consagrou gente boa do gênero popular que vingou na onda “jovem guarda” que invadiu os 70 e ditou o billboard nacional da década. Com Paulo Coelho fundou a Sociedade Alternativa em 74, sob a inspiração do “Livro da Lei”, do bruxo inglês Aleister Crowley (não preciso acrescentar o quanto Paulo Coelho continua ganhando com isso). E por aí seguiu, depois de emplacar, ele próprio, carreira solo na música.

            O outsider, por fim, falou mais alto. Pena pra ele, que poderia ter usufruído melhor sua alta capacidade inventiva. Pena pra nós, que, cedo, ficamos órfãos de seu talento inquieto.

GHIGGIA

            Há certas conjugações de fatos, aproximações de aparentes lances fortuitos, que dá o que pensar.

            No futebol, dentro de campo, há muitas dessas.  Décio de Almeida Prado, estendendo a observação para outro campo de jogo – o da corrida de cavalos – afirmou uma vez que entendido em corridas é quem sabe prever no sábado que cavalo ganhará o Grande Prêmio do domingo e na segunda-feira sabe explicar por que ele não ganhou. Essa é a diferença entre ciência, onde os fatos são previsíveis – o sol nascerá amanhã às 6h46min – e o jogo, no qual não existem senão probabilidades.

            Mutatis mutandis – e para ficar nas sendas do futebol, ainda de acordo com as sábias palavras do saudoso professor Almeida Prado: “nunca desdenhe um bom treinador, sobretudo se conduzir à vitória. Mas não esqueça que pode haver no campo de futebol outras inteligências que não a dele”. Esta é a ressalva que Tostão seguidamente se impõe quando comenta um jogo ou determinado time: há muitas variáveis dentro das quatro linhas e muitas delas decorrem de circunstâncias do momento da disputa que, como tais, resolvem-se ao sabor do aleatório: um cruzamento que vira gol, um erro de passe que se transforma em drible desconcertante, e por aí vai.

            Qual foi, de fato, a motivação de Ghiggia ao bater uma bola cruzada naquele 16 de julho de 1950? Com a festa pronta e o flamante Maracanã lotado, o empate em 1 a 1 com o Uruguai conduzia o Brasil ao esperado campeonato mundial. Mas, a menos de 10 para o apito final (eram 34 do segundo tempo), o uruguaio Alcides Ghiggia escapou pela direita e, com pouco ângulo, chutou forte para a área brasileira. Era para ser um cruzamento? Ou, consciente do goleiro adiantado, buscara o canto desguarnecido?

            Fortuito ou consciente, o gol consagrou o mito da indomável bravura uruguaia. Ao morrer, no 16 de julho passado, na exata data dos 65 anos da batalha do Maracanã, o guerreiro Ghiggia, personagem emblemático daquela saga, acrescentou mais um lance a este quê de surpresa e mistério que, dentro e fora dos gramados, alimenta a imaginação e aquece a vida.

TRAVESSIA

           Em São Paulo, semana passada, ouvi muitas histórias. Em especial entre taxistas, ao circular de um compromisso para outro.

      Se ainda há o que discutir e analisar sobre os usos sociais alargados e características intrínsecas de histórias de vida, e certamente há, as mesmas adquiriram um lugar reconhecido entre os artefatos culturais contemporâneos. Seja pela popularização massiva da bisbilhotice, seja pelo peso do mercado bibliográfico.

            Acho gostoso o relato do sujeito que, anônimo, tem o maior orgulho de sua história de vida. Como o taxista que largou a Itapemirim e trocou a distância das retas brasileiras pelas quebradas paulistanas. Já dirigiu caminhão de construtora na África e viu a miséria de perto, o que redimensionou sua relação com o Brasil. Hoje, entre um cliente e outro, reclama, como todos, do trânsito intragável da grande cidade.

            Na USP, meu evento realizou-se nas dependências da Faculdade de História. Uma das biografias mais ricas que circulou por aqueles corredores foi a de Sérgio Buarque de Holanda, ali chegado em 1956, após deixar a direção do Museu Paulista e já consagrado no meio acadêmico por sua circulação internacional e pelo reconhecimento de Raízes do Brasil, ponto alto de sua bibliografia.

            A vida de Sérgio, nos últimos tempos, tem se prestado a outras perquirições. Ainda este ano li O irmão alemão, escrito por Chico, o filho famoso. Fruto de um relacionamento de Sérgio com uma mocinha alemã de Munique, Anne Ernst, algo que remonta aos tempos de estudante, o meio-irmão alemão de Chico teria, se fosse vivo, cerca de 90 anos. Na ocasião, ainda bebê, foi registrado com o nome de Sergio e o sobrenome da mãe. De volta ao país, o autor de Raízes do Brasil só tornou a ter notícia da namorada e do filho durante a Segunda Guerra Mundial. Chico foi atrás dessas pistas e temperou tudo com o condimento da literatura.

              Enfim, histórias de vida e mazelas da existência. Como nos recortes da grande cidade e como nas linhas sábias de Guimarães Rosa, onde aprendemos que o real não está nem na saída nem na chegada. Ele se acha é no meio da travessia.