EUCANAÃ FERRAZ

            Para mim, a leitura é um exercício de conhecimento. Talvez, por isso, me agradem particularmente os romances históricos, os textos memorialistas, justamente onde o dar-se a conhecer é mais imediato.

            Da poesia, gosto muito, mas, confesso, me falta o hábito. Invejo meu amigo Vítor Biasoli, para quem a poesia é quase uma necessidade física, uma compulsão, uma leitura que tem que ser reposta constantemente, como o insone repõe o sonífero para vencer o peso de ficar acordado no escuro. O Vítor, aliás, é um desses leitores desinteressados, que curte filigranas de textos. Leitor-leitor.

            Talvez eu seja um leitor mais apressado. Daí, por certo, meu gosto pela prosa, que se lê sofregamente. O poema exige lerdeza, cautela, uma passagem vagarosa pelos mesmos pontos. Não pense o leitor, porém, que desconsidero o gênero. Muito pelo contrário: admiro muito os poetas, a capacidade de construir imagens que sintetizam conceitos, as aproximações insólitas, a magia dos sons combinados. Mário de Andrade disse uma vez que Machado só se tornou grande depois de ter passado pela poesia. A sentença continua valendo: a poesia é uma admirável lição para os prosadores.

            A propósito de poesia, sou admirador da obra de Eucanaã Ferraz, professor de literatura da Federal do Rio de Janeiro, que está em seu quinto livro de poemas. Escuta, o mais recente, lançada pela Companhia das Letras em 2015, mostra o verso certeiro de Eucanaã que flagra os estados afetivos mais extremos. Entre o conjunto, flagro uma bela sequência (aliás, quase uma mistura poesia/prosa) que divulgo como uma mostra do bom poeta. Desses que, em uma palavra ou em uma frase, falam por dezenas de páginas de um prosador. Genial, não?

                             

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