LAURO HAGMANN

O radialista Lauro Hagmann, 84 anos, morreu na segunda-feira, 11/5, em Porto Alegre. Os obituários que saíram em vários espaços da mídia impressa e eletrônica deram conta de sua famosa passagem como locutor do Repórter Esso, versão RS. No período de 1950 a 1964, quando o noticiário deixou de existir, foi seu apresentador titular na Rádio Farroupilha. O que essas notas biográficas deixaram de lado foi sua passagem pela Rádio Guaíba entre os anos 60 e 70, quando integrou um dos mais famosos castings que o rádio rio-grandense conheceu ao lado de nomes como Enio Berwanger, Ruy Strelow, José Fontella, Euclides Prado, Nabor Couto e Egon Bueno. Hagmann tinha um ritmo muito peculiar, fazia um estilo com empostação grave e pausada, algo próximo, para quem ouviu e lembra, do Patrônio Cabral, que foi outro monstro sagrado daquela geração e que marcou época na nossa Rádio Imembui, aqui em Santa Maria. Por tempos a fio, quando saía para a aula de manhã, meu pai ficava ouvindo o Rádio Jornal Guaíba Correio do Povo. Ali, entre 7h e 7h30min, pontuava a voz do Lauro Hagmann. Meu tributo a esta memória rica da cena pública rio-grandense, engrandecida por sua passagem marcante pela política, como deputado comunista e como batalhador por sua classe. Não o conheci pessoalmente, mas em meus tímpanos ainda ecoa a cortina musical que me acordava para a aula naquela quadra de descoberta e aprendizado. É em sua memória que registro neste espaço a Marcha dos Violinos, que é como se chama o saudoso prefixo musical. Quem, como eu, já passou dos 50, há de lembrar…

Marchin’ violins (Franck Pourcel e Raymond Lefevre). Franck Pourcel Orchestra.

TUPÃ DONA DA NOITE

            Das tantas recordações que me tocam da velha Rádio Tupã, na qual trabalhei como locutor entre 1974 e 1977, restou uma, materializada na moldura da parede. É um diploma que recebi, com pompa, em jantar festivo no Clube Comercial. Tenho vaga lembrança do nervosismo engomado daquela noite e de minhas mãos trêmulas segurando a comenda conferida a “Tupã Dona da Noite”.

            Bem mais à vontade, por certo, do alto de meus quinze anos, me perfilava no velho estúdio da General Osório, onde, das nove à meia noite, comandava o tom romântico, recheado com declamação de poemas e programação musical em geral ditada pelas cartinhas chegadas ao longo do dia e pelos bilhetinhos que os ouvintes, ligados no som do carro, depositavam na rádio enquanto circulavam, aos pares ou em turmas, naquela época de combustível farto e barato.

            (Esta experiência de fazer rádio noturno, em verdade, não passou do primeiro ano de uma carreira que continuaria de forma ininterrupta por bem mais de uma década e que ainda repercute na lembrança bondosa de tantos amigos. Lembro que, ao fim do curso ginasial, pedi transferência de aula para o turno da noite e, definitivamente, daí para a frente, concentrei o trabalho durante o dia e elegi o foco do jornalismo e do esporte, funções que, mais tarde, me trouxeram para Santa Maria e para o prefixo da Rádio Guarathan).

            O “Tupã Dona da Noite” era completamente inspirado – inclusive no nome e na eleição da cortina musical – no “Itaí Dona da Noite”. No entanto, corria em faixa própria, uma vez que a concorrente da capital não tinha potência suficiente para nos alcançar em Tupanciretã.

            A propósito do “Dona da Noite” porto-alegrense, é impressionante como tem gente insuspeita que confessa saudade daqueles tempos pré-fm. Para citar um exemplo, não faz muito, o jornalista David Coimbra registrou um post nostálgico que ilustra o prestígio do indigitado congênere:

Eu tinha lá meus 12 anos e namorava uma gatinha chamada Silvia Lemos. Namoro é forma de falar. Naquele tempo era coisa inocente, de pegar na mão e beijar no rosto e pronto. Mas era uma emoção, cara. A maior paixão. O irmão da Silvia Lemos era o meu melhor amigo, o Nique. Por coincidência, ele namorava com a minha irmã, que, por outra coincidência, também se chama Silvia. Então ficávamos nós dois com nossas Silvias, os quatro mais brincando que namorando, crianças que éramos, mas, de alguma forma, flutuando encantados nos primeiros vagidos do amor. Um dia, eu e o Nique ligamos para a rádio Itaí [Dona da noite] a fim de oferecer uma música para as nossas garotas. Pedimos o sucesso do momento e ouvimos enlevados no radinho de pilha, olhando para o céu azul-escuro de Porto Alegre através da janela do meu quarto às margens da Avenida Plínio Brasil Milano.

            Com o depoimento do David me dei conta de que, na verdade, registros radiofônicos como aqueles musicais notívagos dos anos 70 encarnavam um espírito lovemeter bem próprio da época. Prova está no grande apelo público que alcançaram.

            Em reconhecimento a esse espírito – e como tributo à minha empreitada juvenil, ora bolas – o prefixo musical daquela ode à vida. Na Rádio Tupã era a segunda faixa do lado A de um compacto duplo do Herb Alpert. A música chama-se “Mae”. Terminados os comerciais, com seus acordes ao fundo, caprichando nos graves e cuidando para não espichar conversa, o que era uma das marcas do horário, infalivelmente eu entrava com o Tupããã – Dooona da noite, dava a hora, registrava os ouvintes e anunciava as próximas duas músicas.

            Então, com vocês, Mae – Herb Alpert & Tijuana Brass…

         Mae. Herb Alpert & Tijuana Brass. A&M Records, 1965

RANZOLIN

Se o rádio esportivo um dia teve uma voz de comando, esta se chamou Armindo Antonio Ranzolin. Com ele ao microfone, tudo se coordenava: os repórteres, o plantão, a estatística, os demais resultados e, se facilitasse, até jogadores e torcedores. Na verdade, minha geração aprendeu a gostar de futebol ouvindo rádio. O grande narrador era Pedro Carneiro Pereira. Ranzolin foi seu substituto naquela lendária equipe da Rádio Guaíba (Milton Jung, Lauro Quadros, Rui Carlos Osterman, João Carlos Belmonte…). Por um tempo, fomos viúvas do Pedro Pereira, tragicamente falecido. Ranzolin parecia muito cadenciado, empacava no meio da frase. Não custou para que todos descobrissem o grande narrador e se acostumassem ao seu raro senso de comando nas jornadas, antes, durante e depois dos jogos. Seu grito seco de gol foi conquistando nossos ouvidos. Sério e equilibrado, aperfeiçoou um estilo que lembrava Oduvaldo Cozzi com as definições espontâneas – espécies de traduções do jogo – que iam se somando a cada lance.

Grenal válido pela semifinal do Brasileirão/88.Chamado de Grenal do Século. Estádio Beira-Rio,12/02/1989. Nilson, 26 do segundo tempo, gol da vitória colorada por 2x1.

Armindo Antonio Ranzolin chegou a Rádio Guaíba em 1969, como segundo narrador. Com a morte de Pedro Carneiro Pereira, em 73, transformou-se o número um, posição que manteve até a aposentadoria, em 2006. Em 84 ingressou na rádio Gaúcha, a última emissora em que trabalhou. Na década de 60 narrou, ainda, na Difusora e Farroupilha. Foi titular em 7 Copas do Mundo (na sequência, de 74 a 94) e transmitiu os grandes feitos do futebol gaúcho na conquista do Brasil, da América e do Mundo.

Pai da matéria

Narrei futebol na década de 80 pela Rádio Guarathan, de Santa Maria. Como ouvinte aficionado, que ainda sou, acompanhei muito Osmar Santos na Globo de São Paulo. Algumas vezes, enquanto me deslocava para trabalhar na velha Baixada Melancólica, o rádio do carro sintonizava uma abertura de transmissão com o comando do Osmar. Era um show de vozes a que imprimia um ritmo trepidante e renovador. Com bola rolando, foi mestre dos bordões e da interpretação do sentimento do torcedor. Como ouvinte, torci muito para que pudesse continuar, depois do infeliz acidente de trânsito que o vitimou. Por fim, seus admiradores, acabamos agradecendo por ter escapado com vida. No Rio Grande do Sul, os narradores de minha geração viemos de uma escola diversa, mais sisuda, talvez, anterior a do Osmar (mesmo que ele, como é próprio da comunicação de massa, tenha sido uma mistura de estilos já ensaiados ou experimentados aqui e acolá). Jamais me atrevi a tentar imitá-lo. Mas que dava gosto ouvi-lo, isso dava.

Santos 1×0 Corinthians. Gol de Serginho. Estádio Morumbi, final Paulistão, 02/12/1984.

Osmar Santos, também conhecido como “Pai da Matéria”, foi locutor esportivo das Rádios Jovem Pan, Record e Globo. Trabalhou, ainda na televisão. Narrou a Copa do Mundo de 86 pela Rede Globo, como primeiro locutor (Galvão Bueno era o segundo e Luis Alfredo o terceiro). Na Copa de 90, transmitiu pela Manchete. No dia 22 de dezembro de 1994, foi vítima de grave acidente de carro, que lhe afetou várias funções neurológicas. Nunca mais pode narrar.