AS IDEIAS DE TZVETAN TODOROV

TodorovO filósofo, linguista, historiador e crítico literário búlgaro Tzvetan Todorov morreu aos 77 anos na terça-feira(7/2/2017), na França, país onde residia desde os anos 1960. Todorov foi um dos nomes mais importantes do Estruturalismo francês e um dos responsáveis por difundir o formalismo russo na Europa, escola de crítica literária’ existente na Rússia entre os anos 1910 e 30 que se dedicava ao estudo da linguagem poética até ser banida pelo regime de Stálin. Seu último livro, “Le Triomphe de l’Artiste” (O triunfo do artista) deve sair na França em março, segundo a Folha de São Paulo .

 

A rádio francesa “France Culture” sintetizou a trajetória do pensador em cinco momentos fundamentais:

1939: Nasce em Sófia, capital da Bulgária
1963: Foge da Bulgária sob o domínio soviético e se instala em Paris
1970: Funda, como o crítico e teórico literário Gérard Genette, a revista “Poétique” e publica a obra “Introdução à literatura fantástica”, precursora nos estudos do gênero
1977: Publica “Qu’estce que le structuralisme?” (O que é o Estruturalismo)
2012: Publica “Os Inimigos Íntimos da Democracia”, sobre  “a corrosão da democracia no mundo contemporâneo” e a ameaça à cidadania pelo “cinismo dos políticos tradicionais” e a ascensão de movimentos populistas à direita e à esquerda

7 REFLEXÕES DE TODOROV

“O século 21 se apresenta como aquele em que muitos homens e mulheres deverão abandonar seu país de origem e adotar, provisória ou permanentemente, o status de estrangeiro. (…) Todos os países estabelecem diferenças entre seus cidadãos e aqueles que não o são, justamente os estrangeiros. [Eles] não gozam dos mesmos direitos, nem tem os mesmos deveres. (…) Isto nos atinge a todos, porque o estrangeiro não é só o outro, nós mesmos o fomos ou o seremos, ontem ou amanhã, ao acaso de um destino incerto: cada um de nós é um estrangeiro em potencial”.

“Pode-se medir nosso grau de barbárie ou civilização por como percebemos e acolhemos os outros, os diferentes. Os bárbaros são os que consideram que os outros, porque não se parecem com eles, pertencem a uma humanidade inferior e merecem ser tratados com desprezo ou condescendência. Ser civilizado não significa haver cursado estudo superior ou ter lido muitos livros (…): todos sabemos que certos indivíduos com essas características foram capazes de cometer atos de absoluta barbárie. Ser civilizado significa ser capaz de reconhecer plenamente a humanidade dos outros, ainda que tenham rostos e hábitos diferentes dos nossos”.

“A noção de choque de civilizações é passível de crítica do ponto de vista científico, porque as civilizações não correspondem aos blocos impermeáveis de que falam os autores. O choque não acontecem entre as civilizações, mas entre Estados e grupos de Estados. Os conflitos de hoje não são de natureza religiosa, mas de natureza política”.

“Escrevi meu primeiro livro de História das Ideias, que se chama ‘Nós e os Outros’. Era uma obra sobre a pluralidade das culturas analisada sob o ponto de vista da tradição francesa. Estudei autores desde Montaigne (…) até LéviStrauss. Tentei ver como esses autores trataram esta questão difícil para nós ainda hoje: a unidade da humanidade e a pluralidade das culturas. Nessa série de autores, descobri que aqueles de quem me sentia mais próximo eram os humanistas”.

“Não acho que o ataque a Bin Laden ajude muito no combate ao terrorismo, justamente porque ele não passava de um símbolo. Ele não dirigia um centro secreto de sua caverna nas montanhas, como num filmes de James Bond, que enviava assassinos a todas as partes do mundo. Os assassinos decidiam por si sobre suas ações. Eu diria que o primeiro grande passo para diminuir o terrorismo deveria ser rever as ocupações armadas nos países onde [as organizações terroristas] se encontram. Porque, já há algum tempo, esses exércitos destinados a combater o terrorismo na verdade o nutrem”.

“Percebi que, tanto como historiador como ensaísta, aproveitei mais a literatura em si que os estudos sobre literatura, e que lia com mais prazer romances, poesias e histórias diversas do que análises literárias ou teses escritas sobre a literatura, que me parecem hoje em dia se dirigir quase exclusivamente aos outros especialistas de literatura. Enquanto que o romance interessa a todo mundo, e me sinto mais próximo de todo mundo que dos especialistas”.

“Enquanto existiam ditaduras de um e outro tipo, podia-se sonhar com o fim delas, não como se isso fosse o paraíso, mas como o momento em que se poderia começar a solucionar os problemas. Mas nós seres humanos necessitamos de algo mais que a falta de uma opressão direta. Precisamos encontrar um sentido na vida. E aos que vieram logo depois [do fim dos regimes autoritários do século 20], faltou esse sentido, um projeto político, uma perspectiva”.

 

  • Juliana Domingos de Lima, Jornal Nexo, 08 Fev 2017

EUCANAÃ FERRAZ

            Para mim, a leitura é um exercício de conhecimento. Talvez, por isso, me agradem particularmente os romances históricos, os textos memorialistas, justamente onde o dar-se a conhecer é mais imediato.

            Da poesia, gosto muito, mas, confesso, me falta o hábito. Invejo meu amigo Vítor Biasoli, para quem a poesia é quase uma necessidade física, uma compulsão, uma leitura que tem que ser reposta constantemente, como o insone repõe o sonífero para vencer o peso de ficar acordado no escuro. O Vítor, aliás, é um desses leitores desinteressados, que curte filigranas de textos. Leitor-leitor.

            Talvez eu seja um leitor mais apressado. Daí, por certo, meu gosto pela prosa, que se lê sofregamente. O poema exige lerdeza, cautela, uma passagem vagarosa pelos mesmos pontos. Não pense o leitor, porém, que desconsidero o gênero. Muito pelo contrário: admiro muito os poetas, a capacidade de construir imagens que sintetizam conceitos, as aproximações insólitas, a magia dos sons combinados. Mário de Andrade disse uma vez que Machado só se tornou grande depois de ter passado pela poesia. A sentença continua valendo: a poesia é uma admirável lição para os prosadores.

            A propósito de poesia, sou admirador da obra de Eucanaã Ferraz, professor de literatura da Federal do Rio de Janeiro, que está em seu quinto livro de poemas. Escuta, o mais recente, lançada pela Companhia das Letras em 2015, mostra o verso certeiro de Eucanaã que flagra os estados afetivos mais extremos. Entre o conjunto, flagro uma bela sequência (aliás, quase uma mistura poesia/prosa) que divulgo como uma mostra do bom poeta. Desses que, em uma palavra ou em uma frase, falam por dezenas de páginas de um prosador. Genial, não?

                             

SOBRE LIVROS

∗A NOITE DO MEU BEM∗

A noite do meu bemLivro sobre a história e as histórias do samba-canção, traz informação de qualidade e confirma que o mineiro Ruy Castro faz jus ao benemérito título de cidadão carioca. Na obra, Castro descreve a cidade do Rio de Janeiro, desde o “Rio Colonial” até chegar ao tema principal, a partir de 1946, período em que os cassinos foram fechados e boates foram surgindo para acolher o “samba suavizado pela canção”.

Castro produz bastante. Há 27 anos, o “mineirioca” assumiu ser escritor, embora desenvolvesse o ofício da escrita na imprensa desde 1967. Teve 18 obras publicadas, participou de outras, mas ficou conhecido pela produção de biografias que ganharam destaque. Entre elas, O Anjo Pornográfico (1992), sobre a vida de Nelson Rodrigues; e Estrela Solitária (1995), sobre o jogador Garrincha, que lhe rendeu o prêmio Jabuti em 1996.

Em A Noite do Meu Bem, mais uma vez, o escritor exerce seu poder de recriar ambientes, ressuscitar pessoas e colocar o leitor diante delas. Assim, o biógrafo do samba-canção promove, mesmo no silêncio, a audição de belas músicas. Como se não bastasse, receitas culinárias como a do picadinho criado pelo vienense Stuckart, idealizador da boate Meia-Noite, irmã menor do Golden Room do Copacabana Palace, enchem a boca de quem as lê. Aos mais sensíveis, cuidado ao ler sobre o “penetra” e colunista social Ibrahim Sued (1924-1995), que tomou uísque batizado com urina de um playboy na boate Vogue. Porém, o livro traz muito mais. Só lendo para crer.

CASTRO, Ruy. A noite do bem bem. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 512 págs. R$ 59,00 e R$ 39,90 (e-book)

(FONTE: Maurício Meireles. Folha de São Paulo: 14/12/2015)

∗EU TE AMO, MAS ESTOU BÊBADO∗

 O jornalista Vinícius Novaes estreia na literatura com esta coletânea de 19 crônicas que investigam o sentimento amoroso. O autor transforma o amor em um ser antropomórfico de carne e osso que também sofre, sente e bebe para esquecer – e que lança líricos e bem-humorados protestos e reclamações ao autor por criá-lo para tantos infortúnios.

 NOVAES, Vinícius. Eu te amo, mas estou bêbado. Rio de Janeiro: Multifoco, 2015. 42 págs.  R$ 34,00

∗OUTROS CANTOS∗

 Maria Valéria Rezende, vencedora do Prêmio Jabuti com o romance Quarenta Dias, cuja trama se passa em Porto Alegre, lança agora nova narrativa longa inspirada em sua experiência como professora no sertão nordestino durante a Ditadura Militar. A protagonista, durante uma longa viagem de ônibus, rememora seu passado como educadora em Pernambuco.

REZENDE, Maria Valéria. Outros cantos. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015. 152 págs. R$ 34,90

LIVROS DA SEMANA

∗OPERAÇÃO IMPENSÁVEL∗

operacaoimpensável

A escritora paulista Vanessa Barbara apresenta uma história de amor e desamor entre a historiadora Lia e o programador Tito, construída em torno de comunhão de interesses por cultura pop e jogos de tabuleiro, até que a suspeita de uma traição dá início a um conflito conjugal que remete aos jogos de estratégia que faziam parte da intimidade do casal.

BARBARA, Vanessa. Operação impensável. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015. 224 págs. R$ 39,90 impresso e R$ 19,90 em e-book.

∗O POVO BRASILEIRO∗

Reedição da obra máxima do sociólogo Darcy Ribeiro (1922 – 1997), espécie de súmula de seu pensamento e testamento intelectual. Publicado originalmente em 1995, é um elogio do Brasil escrito em tom apaixonado, recapitulando as matrizes étnicas e culturais da formação do povo brasileiro e de sua configuração como o atual “povo nação” com características próprias e únicas.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2015. 368 págs. R$ 49,00.

LIVROS E EVENTOS CELEBRAM 150 ANOS DE EUCLYDES DA CUNHA

Em 1898, uma enchente levou a ponte de São José do Rio Pardo (SP). O enviado para recolocá-la de pé foi o escritor e engenheiro Euclydes da Cunha – que anos antes testemunhara a Guerra de Canudos. Na cidadezinha, ele ergueu a ponte e sua obra-prima: Os Sertões (1902), em que narra a luta das forças republicanas contra os fiéis de Antônio Conselheiro.

O autor de um dos marcos da literatura nacional completaria 150 anos em 20/01/2016. A comemoração é composta de atrações que se desdobrarão ao longo do ano. Três novos livros estão vindo por aí, e a cidade de São José do Rio Pardo vai celebrar a data.

A Casa Euclidiana, centro cultural localizada onde o autor escreveu Os Sertões, sedia eventos em memória do escritor. O auge ocorre na semana de 9 a 15/8 – quando a cidade promove, há quase 70 anos, a “Semana Euclidiana”.

Em março, a Unesp começa a editar a prosa completa de Euclydes acrescida de inéditos – em vários volumes, organizados por Leopoldo Bernucci, pesquisador da Universidade da Califórnia em Davis, e Felipe Rissatto, euclidiano independente. “Além dos inéditos, o primeiro tomo trará ensaios conhecidos, mas em versões diferentes”, afirma Leopoldo Bernucci.

O pesquisador publica ainda neste ano seu livro “Um Paraíso Suspeitoso”. Nele, Bernucci traça a relação entre o escritor, o poeta colombiano José Eustasio Rivera e o brasileiro Alberto Rangel -que, como Euclydes, denunciaram a escravidão nos seringais da Amazônia.

Também é este o ano de revisitar a “tragédia da Piedade”, episódio no qual Euclydes flagrou sua mulher, S’Anninha, com o amante, Dilermando de Assis, e acabou morto por este. Anna Sharp, neta de S’Anninha, prepara, para o meio do ano, um romance contando a história do ponto de vista de cada um dos vértices do triângulo amoroso.

O livro é baseado em um diário da avó encontrado em 2014. “Receber o diário dela foi um sinal”, diz Anna Sharp.

(Fonte: Maurício Meireles, colunista. Folha de São Paulo, 20/01/2016)

Caderneta Euclides

Desenho do Arraial de Canudos, feito por Euclydes da Cunha da perspectiva do Morro da Favela. Facsimile de caderneta do autor.

OUTROS LANÇAMENTOS

∗O IMPOSTOR∗

O IMPOSTORO novo livro do romancista espanhol Javier Cerca reconta a história verdadeira por trás de uma das grandes decepções de seu país. Trata-se do sindicalista Enric Marco Battle, que comoveu por décadas a população com sua história de luta ao lado dos republicanos na Guerra Civil Espanhola e de sobrevivência em um campo de concentração nazista. Só em 2005 um pesquisador descobriu que tudo era mentira.

CERCA, Javier. O impostor. Trad. Bernardo Ajzenberg. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2015. 464 págs. R$ 49,90

∗ZÉ DO CAIXÃO, MALDITO – A BIOGRAFIA∗

A trajetória repleta de sucessos e fracassos do mais popular ícone do cinema fantástico brasileiro é revisitada nesta biografia de André Barcinski e Ivan Finotti. O livro sobre o cineasta José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão, foi originalmente lançado em 1998, estando há anos esgotado. A nova edição, que comemora os 80 anos do diretor, vem em formato luxuoso, com fotos inéditas e capa dura.

Barcinski, André  e Finotti,  Ivan.  Zé do Caixão, maldito – A Biografia. São Paulo: Darkside Books, 666 págs. R$ 99,90

∗KAOS TOTAL∗

Por ocasião de seus 75 anos, completados no último domingo (17/01), o múltiplo artista Jorge Mautner acaba de ganhar uma coletânea de seus trabalhos. O volume conta com todas as canções do autor, como as pérolas “Maracatu Atômico” (em parceria com Nelson Jacobina e conhecida nas vozes de Gilberto Gil e Chico Science) e “Todo Errado” (gravada com Caetano Veloso), além de poemas, prosas poéticas e pinturas inéditas.

MAUTNER, Jorge. Kaos total. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 384 págs. R$ 54,90

 

ARES CONDICIONADOS

Se um dia chovesse ares condicionados

∗LANÇAMENTO∗

E se um dia chovesse condicionadores de ar? A pergunta pode parecer estranha, mas não surpreende o leitor que passou pelas páginas de Ares-Condicionados, novo livro do músico e escritor Demétrio Panarotto. Lançada em Porto Alegre na semana passada, esta é a primeira reunião de contos do autor catarinense, que já publicou quatro volumes de poemas e é também músico e doutor em Teoria da Literatura. Cenas de surrealismo e personagens fantasiosos percorrem a maior parte das narrativas de Panarotto. Os ares-condicionados do conto-título, por exemplo, despencam do céu diante de um personagem um tanto indiferente, que lá pelas tantas se vê numa cidade que mais parece um videogame. Com muito humor, característica também marcante da banda Repolho, grupo musical do qual participa desde 1991, o escritor questiona os limites da poesia e o papel das leis de incentivo para a literatura. Para tanto, além de graça, as histórias usam de autoironia, já que o próprio Panarotto é poeta e teve seu livro publicado com apoio do Funcultural, iniciativa do governo de Santa Catarina.

PANAROTTO, Demétrio. Ares-Condicionados. Contos. Florianópolis: Nave Editora, 2015. 120 págs. R$ 20,00

LENDO J. M. COETZE

Lendo Coetze

∗LANÇAMENTO∗

Lendo J. M. Coetzee reúne mais de dez críticos brasileiros e estrangeiros que abordam por diversos ângulos a quase totalidade da obra do autor sul-africano. Essa abordagem de fôlego é o resultado de um diálogo que começou em 2010, quando a obra Diário de um ano ruim serviu como um filtro de releitura do famoso ensaio de Freud “O Mal-estar na Cultura”, em um evento de mesmo nome em Porto Alegre. Os professores Kathrin Rosenfield (UFRGS) e Lawrence Flores Pereira (UFSM), além de assinarem capítulos no livro, são seus organizadores. Todos os participantes do evento referido contribuem com ensaios de síntese sobre os aspectos mais evidentes e importantes desta obra: violência, trauma, injustiça, sofrimento, censura, opressão, tortura e também do engajamento que caracteriza o ficcionista relativamente a seres que desaparecem do horizonte imediato da sociedade por terem sofrido mutilações físicas, psíquicas ou por terem sido exilados. Além da revisão do escritor na encruzilhada de realidade e ficção, o volume ainda aborda uma avaliação da obra crítica e teórica de Coetzee. Este livro é a primeira e, por enquanto, única coletânea crítica no Brasil sobre este autor que foi Prêmio Nobel de Literatura de 2003. O selo é Editora da UFSM.

PEREIRA, Lawrence Flores e ROSENFIELD, Kathrin (Orgs.) Lendo J. M. Coetze. Santa Maria: Editora UFSM, 2015. 320 págs. R$ 55,00.

A LIÇÃO DE ANATOMIA DO TEMÍVEL DR. LOUISON

A lição de anatomia

∗CRÍTICA∗

Meu colega de UFSM, Enéias Tavares, ganha destaque no cenário da literatura contemporânea com A lição de anatomia do temível Dr. Louison. Se o prezado leitor é medianamente informado, já deve ter lido ou ouvido algo a respeito. Como esclarece uma das apresentações da obra, “em um Brasil retrofuturista [onde] serviçais robóticos e geringonças apocalípticas coexistem com o sobrenatural, o jornalista Isaías Caminha desembarca em Porto Alegre para cobrir a prisão do infame assassino Dr. Antoine Louison, aprisionado no lendário asilo São Pedro para Psicóticos e Histéricas. Na noite anterior à sua execução, porém, o facínora escapa, desaparecendo como um fantasma de folhetim”. Romance de ação com sacadas de folhetim, inscreve Enéias na onda que a banda Arrase traduz com a linguagem musical do hard rock: “botas y tirantes, crestas y remaches/ dicen que nos vieron ayer por la noche, /todos estranados, nos creian enemigos, / el mismo camino, juntos hasta el fin… /Punks y Skins, punks y skins”. Skinpunk, vizinho do steampunk significa isso que está na mensagem da música: circular por caminhos misteriosos e pouco movimentados, de preferência sob o ar secreto da noite, em nome de um ideal que nem todos entendem.

Quando passeamos pela galeria de tipos exóticos como a que nos apresenta o livro que temos em mãos, logo reconhecemos essas referências da música e do pop contemporâneos. De acordo com a definição do próprio autor: “o steampunk é um gênero de ficção especulativa que, ao invés de ambientar seu enredo no futuro, prioriza o passado, ou ao menos uma visão alternativa de passado. O salto imaginativo deste universo se dá em três direções: na reimaginação da tecnologia da época, na revisão da história como a conhecemos e na possibilidade de utilizarmos personagens reais ou ficcionais (em especial os que já caíram em domínio público), para contar uma história fantástica”.

No livro, aproximações improváveis desfilam sob as hostes do Parthenon Místico – sociedade secreta que reúne o imoral satanista Solfieri de Azevedo, o cientista louco Dr. Benignus, a médium indígena Vitória Acauã e os aventureiros do oculto Sergio Pompeu e Bento Alves. Tudo isso, com o requinte morfológico e sintático de certa recuperação de época na linguagem (à maneira da norma das primeiras décadas do século XX, tempo em que se situam as ações narradas, a “graphia” incorpora alguns arcaísmos, bem como, em determinados períodos, ecoa aquele torneio frasal próprio de certo expressionismo literário que entre nós ganhou fama na pena de Raul Pompeia, como na sentença de abertura – “colimando glórias extraordinárias, deixei a carruagem mecanizada e dirigi-me ao aerocampo”).

O livro tem outras sofisticações. Uma delas, lembra passo de alcance semiótico, a la Umberto Eco. Trata-se da reprodução de um mapa de época, apresentado como “Planta da Cidade de Porto Alegre, Capital do Estado do Rio Grande do Sul”. Porto Alegre dos Amantes, aliás, é como se denomina o espaço que é palco das ações centrais. Entre as demais referências espaciais, no que nos diz respeito, destaque para Santa Maria da Bocarra do Monte, que figura ao final do texto como o espaço para onde viaja uma das personagens após o desembaraço do enredo principal. No capítulo das intertextualidades, ao modo steampunk, nada supera o reaproveitamento de personagens “vividos” ao redor da época em que se passam as aventuras do dr. Antoine Louison – alguns, em verdade, um pouco antes. A lista referenciada é ampla e tem nomes consagrados de nossa historiografia literária. Entre eles estão Álvares de Azevedo e seu Noite na Taverna (de onde vem o personagem Solfieri); Joaquim Manuel de Macedo, a Luneta Mágica (Simplício), Machado de Assis, O Alienista (de onde são decalcados Simão e Evarista Bacamarte), Raul Pompeia, O Ateneu (Sergio e Bento); Aluísio Azevedo, O Cortiço (Rita Baiana, Pombinha e Léonie) e Lima Barreto, Recordações do escrivão Isaías Caminha (de onde revive o trio Isaías Caminha, Floc e Loberant).

De outro modo, dirigíveis, criaturas robóticas, mensagens telegráphicas e gravações (também robóticas) se encarregam de completar o embaralhar de tempos de acordo com o gênero em questão que, conforme seus comentadores, define o caráter técnico da sociedade contemporânea recorrendo a uma tradição oriunda do romantismo dos séculos XVIII e XIX, sobretudo dos contos góticos e de horror. Enéias Tavares, especialista nos livros iluminados de William Blake e professor de Literatura Clássica na nossa UFSM, também entra no clima. Na orelha de contracapa, a nota biográfica confessional declara que “quando perde a inspiração, [ele] diverte-se colecionando escorpiões robóticos, lembranças photoelétricas e amizades improváveis”.

A lição de anatomia do temível Dr. Louison coloca Enéias na senda de um dos gêneros que ganha público cativo, organizado em legiões de seguidores, e venceu o concorridíssimo concurso da Fantasy, selo da editora Casa da Palavra, do Rio de Janeiro. Leitura obrigatória para atualizar nossa agenda com a ampliação dos horizontes literários nos dias que correm e também para verificar que, como o autor nos prova, a discussão entre mainstream vs. underground, mesmo em tempos mal educados e truculentos, pode se dar em alto nível. E, claro, com bom gosto e alta dose de criatividade.

TAVARES, Enéias. A lição de anatomia do temível Dr. Louison. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014. 320 págs. R$ 34,90.

A SETE CHAVES

A SETE CHAVES

∗LANÇAMENTO∗

Cada poeta é um mundo, afirma Dilan Camargo na apresentação deste A sete chaves. O livro, com selo da santa-mariense Rio das Letras, reúne sete autores conhecidos dos leitores da região: Haydée Hostin, Humberto Gabbi Zanatta, Marcelo Soriano, Odemir Tex Junior, Orlando Fonseca, Tânia Lopes e Vitor Biasoli. Como informam os organizadores na orelha do livro: “embora haja uma coincidência de tempo e lugar, reúnem-se nesta obra diferentes gerações e diversos olhares. Humberto Zanata, Vítor Biasoli e Orlando Fonseca começaram a sua trajetória em meio aos acontecimentos dos anos setenta. Se, por um lado, tínhamos a ocorrência de um estado de exceção e censura no país – o que demandava do artista a especialidade da metáfora – por outro, reaviva-se no Estado uma ligação telúrica e nativista com as coisas do campo e a cultura gaúcha. Odemir Tex Jr. e Marcelo Soriano são poetas da virada do século, marcados por esta permamência das grandes indagações humanas. Tânia Lopes e Haydée Hostin trazem a sensibilidade e a afirmação da mulher nesta trajetória de busca pela harmonia da humanidade”. E conclui: “a partir deste molho de chaves, acrescente a chave da sua sensibilidade para acessar o conteúdo desta coletânea que temos guardado a sete chaves”. A variedade, de fato, faz bem à poesia. E, melhor ainda, ao leitor.

HOSTIN, Haydée et al. A sete chaves. Santa Maria: Rio das Letras, 2015. 122 págs. R$ 20,00.