A CENSURA

            Clark Gable, Spencer Tracey, Joan Crawford, John Wayne e Bette Davis foram algumas das míticas estrelas cinematográficas usadas pela indústria de tabaco.

            Entre os anos 30 e 40 viveu-se o auge da entronização do cigarro como atributo indispensável de um tipo elegante e algo enigmático. O cinema contribuiu muito para a afirmação dessa imagem. O cigarro era adereço indispensável das grandes estrelas. Tempos atrás divulgou-se contratos milionários assinados entre a indústria tabagista e os astros de Hollywood. Os papéis indicam que o auge da prática situa-se em um intervalo de três décadas, entre o início do cinema falado, no final dos anos 20 e a chegada da TV, na década de 50.

            Sob muitos aspectos, o século XX foi um tempo de descobertas, de vida sem culpa, enfim, de sexo, drogas e rock’n roll. O cinema teve um papel muito importante na difusão de modismos que, pela primeira vez na história, alcançaram rápidas repercussões planetárias.

            Este início de século XXI, em contrapartida, revela-se um tempo de vidas vigiadas, proibições, limitações. A onda anti-tabagismo é uma dessas reações em cadeia bem típicas de nosso tempo. Todo mundo já está repetindo que faz mal, pega mal e, em muitas situações, é ilegal.  Leio que até no Japão – onde, aliás, fuma-se demais – as máquinas automáticas de vendas de cigarros já precisam de um cartão eletrônico que somente é liberado para fumantes que preencherem cadastro. Com isso, os japoneses pretendem tornar tais máquinas inacessíveis aos menores e aos jovens em geral.

            Nunca fumei e, de minha parte, vejo com simpatia as campanhas antifumo. Porém, o perigo dos julgamentos em nossa época de sofisticado controle digital é que a fronteira entre a democracia e o moralismo punitivo está ficando cada vez mais tênue. E, em certo sentido, perigosa.

 

 

 

GAÚCHOS DE 30

            Por estes dias, tenho teimado contra o tempo para fechar um artigo que trata de autores gaúchos que produziram ao redor de 1930.

            Entre eles, avulta a figura de Aureliano de Figueiredo Pinto. É impressionante reler Aureliano e auscultar o eco de sua crescente importância. Nascido na zona rural em região adstrita a então vila de Tupanciretã, alfabetizou-se com a ajuda da mãe em casa. Com 10 anos ingressa no Colégio Santa Maria para cursar o Ginásio. Daqui, ganha mundo: vive em Porto Alegre e no Rio de Janeiro até concluir o Curso de Medicina em 1931.

            Em seguida já aparece clinicando em nossa vizinha Santiago. Com breves interrupções, motivadas por saídas motivadas pelo trabalho, Santiago é sua cidade definitiva, onde, até morrer, dividirá as funções da clínica médica com o hábito regular de escrever.

            Consta que foi dos primeiros a reconhecer o valor da obra literária de João Simões Lopes Neto, da mesma maneira que era versado na literatura criolla platina. Como o velho tapejara criado por João Simões, seus narradores e personas poéticas traduzem ao horizonte de vivências campeiras os dramas maiores da existência como a solidão, a velhice, o empobrecimento, a traição e a vingança.

            O ano de sua morte, 1959, coincide com o lançamento, pela Editora Globo, de Romances de Estância e Querência – Marcas do Tempo. Foi o primeiro livro, que, ironicamente, lhe chegou às mãos nos últimos instantes da existência. Os demais títulos foram póstumos. Dois são de poemas: Romances de Estância e Querência – Armonial de Estância e Outros Poemas (Sulina, 1963) e Itinerário – Poemas de cada instante (Movimento, 1998). A esses volumes, soma-se a novela Memórias do Coronel Falcão, espécie de contraprova da capacidade inventiva do autor. A comprovar-lhe o peso e o alcance, tardiamente recompensados, a obra, escrita na década de 30, recebeu três edições em sequência, todas da Editora Movimento (1973/74/86).

            Seus livros confirmam a reconhecida dotação intelectual que, no transcurso da existência, granjeou testemunhas ilustres e continua somando novos e interessados leitores, como grande literatura que é.

ENVELHECER

            Fernanda Torres fez 50 anos. Sou um pouco mais velho, lapso que me permitiu vê-la atriz menina na TV e no teatro. Por isso, lendo-a, me abateu o dito gasto implacável das horas e dos dias.

            É aquela coisa: um dia a gente acorda, e como canta Renato Russo, sente que “mudaram as estações, (nada mudou) mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim tão diferente”. Ir ficando velho é, enfim, sentir com frêmito de pressa que tudo está passando. E como afirma Santo Agostinho, Deus, que é eterno, é o único que existe fora do tempo. É famosa a passagem do Livro XI das “Confissões”, na qual o santo pensador dirige-se ao Senhor nesses termos: “Nenhuns tempos Vos são coeternos porque Vós permaneceis imutável, e se os tempos assim permanecessem, já não seriam tempos”.

            Agostinho foi um sábio do tempo. A nós, comuns mortais, que mais sabemos por experiência vivida do que por sabedoria lida, resta enfrentar com dignidade – e se der, com boa dose de coragem e resignação, a mudança das estações. Como verseja Renato Russo, poeta profano da canção citada: “Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está, agora tanto faz: estamos indo de volta pra casa”.

            Ocorre que a Fernanda Torres fez 50 anos. Li um depoimento pungente da atriz reclamando do tabu do envelhecimento da mulher e me enterneci com sua dignidade: “numa época em que o sexo é encarado com naturalidade e a causa gay defendida no horário nobre, surpreende o quanto a menopausa se mantém velada, secreta”.

            Fernanda disse mais. Falou sobre o desmanche da indústria fonográfica, na virada do milênio, e da jovialidade que graça nas redações de jornal, nas produtoras de TV, no mercado editorial, na publicidade, no teatro, no cinema. Em suas próprias palavras, “no mundo como eu o conheço”.

            Sabemos, sim, Fernanda, que outras formas de pensar surgirão, mas, de fato, “impressiona testemunhar a história”. E, ante o tempo que urge, já não encontro fecho mais adequado do que fechar contigo: “Envelhecer. Jamais achei que fosse acontecer comigo”.