CACHORROS

            Fidelidade e utilidade: eis o que o encontro do homem com o cachorro nos sugere na comovente passagem da Odisseia, texto da antiguidade grega.

            Sozinho, com sua tripulação dizimada, vinte anos após ter partido, Ulisses, enfim, retorna a casa onde Penélope, sua mulher, resiste ao assédio constante de muitos pretendentes que o julgam morto. Quando, disfarçado de velho mendigo, mistura-se aos forasteiros que lhe invadem o lar e, incógnita, fica a observar o que se passa, a primeira criatura que lhe reconhece e põe em risco seu hábil estratagema é o velho cão Argus. Idoso, sem conseguir se levantar, Argus fareja-lhe, levanta as orelhas e sacode o rabo.

            Li, a propósito, um artigo chamado “Laertes e o mundo do trabalho na Odisséia”, de autoria da professora paulista Adriane Duarte. A estudiosa observa que o herói, em seu retorno a Ítaca, cerca-se de trabalhadores, por vezes humildes, como o porqueiro Eumeu, o cabreiro Filécio ou a criada Euricleia. Com isso, reafirma-se em sua cidade através de uma aliança que é garantida pelo trabalho.

            A mesma lógica que o aproxima dos criados se vê reforçada nos laços familiares e afetivos de Ulisses: Penélope é exímia tecelã, Laertes, hábil agricultor e – no que nos interessa – o próprio Argus, o cão do herói, merece menção pela reconhecida habilidade de caçador, firmada em seus anos de juventude.

            Fidelidade e utilidade. Esses conceitos já mudaram muito desde os tempos de Homero. Hoje, há quem busque no animal simplesmente um aliado contra a solidão, dispensando-lhe a utilidade prática. Porém, mais constantes que os homens, os cães, quando nos abanam o rabo ou levantam as orelhas, estão simplesmente nos mostrando o quanto continua atual o gesto do velho Argus.

CIDADE E LITERATURA

               Reli no final de semana A ilha do tesouro e outros poemas, livro do Claudio Cruz, professor da Federal de Santa Catarina e estudioso do assunto cidade.

            Trata-se de um belo conjunto de poemas que revisita a Porto Alegre onde o Claudio foi menino e virou gente grande. São construções breves que se orientam pelo condão de um herói grego imaginário a repisar sua Ítaca eterna. A prova mais evidente da empatia do tema e da funcionalidade da forma está no fato de que a gente lê em voz alta e sente aquela vontade de não interromper a leitura.

            Quando pensamos na continuada produção que ocorre em Santa Maria observamos o quanto essa produção está voltada para a cidade, sua história, seus personagens e lugares característicos. Pois, identificando o livro do Claudio nessa mesma linha de interesse, fiquei pensando o quão vasta é a tradição de literatura que toma a cidade como tema central. Poderíamos lembrar, por exemplo, que Erico Veríssimo foi o escritor de Porto Alegre nos romances da fase inicial. Na poesia, quase na mesma época, Mário de Andrade elegeu São Paulo como o grande assunto de seus versos.

            Em Erico, temos o painel, a paisagem urbana e a variedade de seus tipos, cada um representando seu papel sem necessariamente se cruzar com os demais. Em Mário, o poeta inquieto mistura seus sentimentos e sensações com o espaço urbano, vê ruas e gentes como uma extensão de suas idéias e de seu corpo.

            O interessante, em ambos, é delinear uma espécie de cartografia simbólica decalcada das cidades reais – no caso, Porto Alegre e São Paulo das primeiras décadas do século XX. O efeito literário é rico. As cidades se confundem mesmo com a própria estrutura dos textos, moldam frases, expressões, enfim, garantem uma espécie de enredo comum no qual nós, adultos e crianças, habitantes de outras cidades e outros tempos, nos reconhecemos com facilidade e, no limite, criamos nossas próprias formas de contar as urbes em que habitamos.