RODA-VIVA

            Como dizem os versos do Chico, tem dias que “a gente quer ter voz ativa/ no nosso destino mandar/ mas eis que chega a roda-viva/ e carrega o destino pra lá”.

            O problema é que tudo que gira tende ao moto contínuo. E a dinâmica, lá pelas tantas, ganha vida própria, para além de nossas forças e controles.
É nesse ponto que, não raro, como diz aquele verso sugestivo do Aureliano de Figueiredo Pinto, assumimos a condição do taura que “arrisca a vida só pra honrar a patacoada”.

            Outro dia li um arrazoado do escritor argentino Ricardo Piglia que, com bom humor e inspiração marxista, discorre sobre as teias que nos enredam na sociedade que habitamos e, de certo modo, chancelamos.

            Lá pelas tantas, o texto se debruça sobre o problema da delinquência e, a seu modo, nos alerta sobre as redes insuspeitas que o ato de delinquir produz: “o delinquente não produz somente delitos. Produz o direito penal e, com ele, ao mesmo tempo, o professor encarregado de sustentar cursos sobre esta matéria e, ademais, o inevitável compêndio em que este mesmo professor lança ao mercado suas lições como uma mercadoria. O qual contribui para aumentar a riqueza nacional, a parte da fruição privada que, segundo nos fazem crer alguns testemunhos, o manuscrito do compêndio produz em seu próprio autor”.

            Poderíamos ir adiante e lembrar que o delinquente ainda gera toda a polícia e a administração de justiça penal, que representam outras tantas categorias da divisão social do trabalho, desenvolvem diferentes capacidades do espírito humano, criam novas necessidades e novos modos de satisfazê-las.

            Essa teia de relações nos traz de volta, naturalmente, ao preceito marxista de que, no capitalismo, as próprias mazelas redundam em possibilidades criativas que despertam a ascensão e a edificação da ordem social e econômica. O texto de Ricardo Piglia não despreza a assertiva de Marx. Mas, abre também outras questões que me pareceram bastante apropriadas ao que temos vivido por aqui. Sem delitos nacionais, haveria o mercado mundial? Quiçá, existiriam nações? Afinal, não é a árvore do pecado, ao mesmo tempo e desde Adão, a árvore do conhecimento?