RAUL SEIXAS

            Se vivo fosse, Raul Seixas, o roqueiro brasileiro, teria feito 70 anos no final do mês passado.

            Li um depoimento emotivo de Ruy Castro, um nome conhecido pela dedicação à biografia de famosos, falando de experiência desconfortável que dividiu com Raul: em fevereiro de 1988 ambos tomaram parte da comunidade restrita de 15 sujeitos recém-saídos de clínicas de dependência química em São Paulo. Reuniam-se semanalmente para trocar experiências e ajudarem-se mutuamente no mais difícil para quem entra nessa – que é não reincidir no vício.

            O quadro, por óbvio, não era alentador: “todos entre 30 e 50 anos, casados e alcóolatras, alguns com uma segunda droga na história: cocaína, ácido, bolinhas. A de Raul era éter”. A confiança na recuperação tinha em conta retomar profissão, carreira, casamento, saúde e amigos. Alheio, porém, à atmosfera de esperança e otimismo, o pai do rock “ficava pelos cantos, acabrunhado”. O desfecho foi inevitável: “Raul foi o primeiro a retomar as substâncias, entregar os pontos e morrer” – o que se deu em agosto de 89, pouco mais de um ano após as tentativas descritas por Castro.

            O que mais me impressiona na carreira de Raul é a convivência do gênero outsider com um senso nato de mercado. Contratado pela gravadora CBS em 1968, chegou a fazer parcerias com o brega chic da hora (cantou, por exemplo, com Leno da dupla Leno & Lilian), trabalhou em arranjos e “arrumou” muito estribilho que consagrou gente boa do gênero popular que vingou na onda “jovem guarda” que invadiu os 70 e ditou o billboard nacional da década. Com Paulo Coelho fundou a Sociedade Alternativa em 74, sob a inspiração do “Livro da Lei”, do bruxo inglês Aleister Crowley (não preciso acrescentar o quanto Paulo Coelho continua ganhando com isso). E por aí seguiu, depois de emplacar, ele próprio, carreira solo na música.

            O outsider, por fim, falou mais alto. Pena pra ele, que poderia ter usufruído melhor sua alta capacidade inventiva. Pena pra nós, que, cedo, ficamos órfãos de seu talento inquieto.

GHIGGIA

            Há certas conjugações de fatos, aproximações de aparentes lances fortuitos, que dá o que pensar.

            No futebol, dentro de campo, há muitas dessas.  Décio de Almeida Prado, estendendo a observação para outro campo de jogo – o da corrida de cavalos – afirmou uma vez que entendido em corridas é quem sabe prever no sábado que cavalo ganhará o Grande Prêmio do domingo e na segunda-feira sabe explicar por que ele não ganhou. Essa é a diferença entre ciência, onde os fatos são previsíveis – o sol nascerá amanhã às 6h46min – e o jogo, no qual não existem senão probabilidades.

            Mutatis mutandis – e para ficar nas sendas do futebol, ainda de acordo com as sábias palavras do saudoso professor Almeida Prado: “nunca desdenhe um bom treinador, sobretudo se conduzir à vitória. Mas não esqueça que pode haver no campo de futebol outras inteligências que não a dele”. Esta é a ressalva que Tostão seguidamente se impõe quando comenta um jogo ou determinado time: há muitas variáveis dentro das quatro linhas e muitas delas decorrem de circunstâncias do momento da disputa que, como tais, resolvem-se ao sabor do aleatório: um cruzamento que vira gol, um erro de passe que se transforma em drible desconcertante, e por aí vai.

            Qual foi, de fato, a motivação de Ghiggia ao bater uma bola cruzada naquele 16 de julho de 1950? Com a festa pronta e o flamante Maracanã lotado, o empate em 1 a 1 com o Uruguai conduzia o Brasil ao esperado campeonato mundial. Mas, a menos de 10 para o apito final (eram 34 do segundo tempo), o uruguaio Alcides Ghiggia escapou pela direita e, com pouco ângulo, chutou forte para a área brasileira. Era para ser um cruzamento? Ou, consciente do goleiro adiantado, buscara o canto desguarnecido?

            Fortuito ou consciente, o gol consagrou o mito da indomável bravura uruguaia. Ao morrer, no 16 de julho passado, na exata data dos 65 anos da batalha do Maracanã, o guerreiro Ghiggia, personagem emblemático daquela saga, acrescentou mais um lance a este quê de surpresa e mistério que, dentro e fora dos gramados, alimenta a imaginação e aquece a vida.

TRAVESSIA

           Em São Paulo, semana passada, ouvi muitas histórias. Em especial entre taxistas, ao circular de um compromisso para outro.

      Se ainda há o que discutir e analisar sobre os usos sociais alargados e características intrínsecas de histórias de vida, e certamente há, as mesmas adquiriram um lugar reconhecido entre os artefatos culturais contemporâneos. Seja pela popularização massiva da bisbilhotice, seja pelo peso do mercado bibliográfico.

            Acho gostoso o relato do sujeito que, anônimo, tem o maior orgulho de sua história de vida. Como o taxista que largou a Itapemirim e trocou a distância das retas brasileiras pelas quebradas paulistanas. Já dirigiu caminhão de construtora na África e viu a miséria de perto, o que redimensionou sua relação com o Brasil. Hoje, entre um cliente e outro, reclama, como todos, do trânsito intragável da grande cidade.

            Na USP, meu evento realizou-se nas dependências da Faculdade de História. Uma das biografias mais ricas que circulou por aqueles corredores foi a de Sérgio Buarque de Holanda, ali chegado em 1956, após deixar a direção do Museu Paulista e já consagrado no meio acadêmico por sua circulação internacional e pelo reconhecimento de Raízes do Brasil, ponto alto de sua bibliografia.

            A vida de Sérgio, nos últimos tempos, tem se prestado a outras perquirições. Ainda este ano li O irmão alemão, escrito por Chico, o filho famoso. Fruto de um relacionamento de Sérgio com uma mocinha alemã de Munique, Anne Ernst, algo que remonta aos tempos de estudante, o meio-irmão alemão de Chico teria, se fosse vivo, cerca de 90 anos. Na ocasião, ainda bebê, foi registrado com o nome de Sergio e o sobrenome da mãe. De volta ao país, o autor de Raízes do Brasil só tornou a ter notícia da namorada e do filho durante a Segunda Guerra Mundial. Chico foi atrás dessas pistas e temperou tudo com o condimento da literatura.

              Enfim, histórias de vida e mazelas da existência. Como nos recortes da grande cidade e como nas linhas sábias de Guimarães Rosa, onde aprendemos que o real não está nem na saída nem na chegada. Ele se acha é no meio da travessia.

EDMUNDO

            A vida de Edmundo Cardoso, que move o documentário produzido pelo Luiz Alberto Cassol, confunde-se com a história de Santa Maria.

            Nascido ao final da segunda década do século XX, filho de funcionário de jornal que morava numa casa situada atrás do Theatro Treze de Maio, cresceu junto com a cidade a partir de seu centro geográfico – a Praça Saldanha Marinho e adjacências. Desde logo, incorporou esses espaços. Ali habitou durante infância e mocidade e, mais tarde, ali desenvolveu sua atividade profissional como servidor da Justiça.

         No documentário, a mão firme e sensível de Luiz Alberto Cassol projeta a multifacetada existência do protagonista a partir de depoimentos de testemunhas de sua história – principalmente sua filha Gilda e sua esposa Therezinha. Cassol resiste à tentação das imagens de época e a história ganha em dinamismo e atualidade. O ritmo é leve, agradável e, mais que tudo, emocionante. Impressiona o conjunto do que Edmundo fez e recolheu da memória da cidade. E impressiona, ainda, o quanto ele e Edna May, sua primeira esposa, zelaram para que esse legado pudesse continuar, como, de fato, continua. Inclusive em ações como a do filme projetado na sexta, 3/7.

             Projetar a vida de Edmundo na tela é um verdadeiro exercício de metaficção, ou seja, é uma narrativa que aborda a própria arte de narrar, ocupando-se por inteiro de uma personagem que, ao ser contada pelos outros, conta-se à maneira de um conteúdo de ficção e arte, predicados que foram os grandes motivos de sua existência. E mais: conta-se através do artifício do cinema, uma de suas grandes paixões. Bonito Cassol, Gilda, Therezinha! E bonito por todos os demais que trabalharam e protagonizaram o filme, que são numerosos e não cabem neste espaço.

            Através de vocês, todos nós pudemos abraçar outra vez Edmundo. Seu gênio inquieto e onipresente cresce na tela como aquele guardião de livros de que nos fala um poema sugestivo do argentino Jorge Luis Borges: “aí estão nas altas estantes,/ a um tempo próximo e distantes,/ secretos e visíveis como os astros./ Aí estão os jardins, os templos”.

BOKO MOKO E OUTRAS MAIS

            Semana passada, falei do bigorrilho, expressão em alta nos anos 60. Sua voga deveu-se à música popular de época.

            Isso me levou a outras expressões que entraram e saíram de cena muito em decorrência do apelo de veículos de massa. Os que, como eu, acompanharam quadra importante da modernização da propaganda nacional, hão de lembrar de boko moko (escrito assim mesmo, com “k”). Era uma gíria usada no final dos anos 60 e início dos 70. Dizia do sujeito brega, kitch, de mau gosto. O sucesso decorreu de bem sucedida campanha de uma marca de guaraná. O bordão boko-moko, um neologismo sem explicações etimológicas, foi criado pelo falecido publicitário Sérgio Andrade e transformou-se rapidamente em gíria de grande apelo.

            Na linha do boko moko, que é da ordem da criação de palavras ou expressões novas, houve registros que não foram assim tão inocentes. Refiro-me aos que buscavam burlar a censura e driblar o “é proibido reclamar”, então em vigor. Pertence a essa seara a expressão utilizada por Toquinho e Vinícius que é, na verdade, como a própria letra da canção sugere, um xingamento afro – “eu saio da fossa xingando em nagô”. Daí os versos que pretendiam mandar o “status quo” da época pra aquele lugar (aliás, bem merecido): “você que fuma e não traga/ E que não paga pra ver/ Vou lhe rogar uma praga/ Eu vou é mandar você/ Pra Tonga da mironga do cabuletê”.

            Tonga da mironga do cabuletê – era a poesia e a canção popular estabelecendo, a seu modo, o diálogo tenso e enigmático com o regime censor. O modismo, porém, vinha de outra banda, responsável por verdadeira enxurrada lexical. Refiro-me à Jovem Guarda e a seu jargão que ecoava no rádio e na estreante televisão. Aí reconhecemos como jóias aqueles tempos de papo firme e de calhambeque, bip! bip! Tempos em que o broto legal era uma brasa, mora! O bacana era a gata de minissaia e tremendão era o cara do “pode vir quente que eu estou fervendo”.

            E por aí a coisa andou. Tempos bicudos, sim, mas, como poucos, tempos de linguagem rica e desafiante.