BIGORRILHO

            Acho que foi na casa de meus primos que ouvi a expressão pela primeira vez. Por um tempo andou de boca em boca. Para mim, além de uns versos soltos, sobrou a evocação de alegria e galhofa.

            Em verdade, na primeira metade dos anos 60, bigorrilho esteve em alta. O motivo era a composição musical cheia de volteios (lá em casa tinha um bigorrilho/ bigorrilho fazia mingau…). O primeiro a gravá-la foi Jorge Veiga e de lá para cá já andou no gogó de muita gente boa como Jair Rodrigues, Roberto Leal, Nei Matogrosso e Lulu Santos – para citar os mais votados. Entre a parentada, naqueles idos de sucessos radiofônicos, o voto era fazer graça com minha tinha Didi, pois a certa altura diz a letra: “Dona Dadá, Dona Didi/ Seu marido entrou aí”.

            Que o bigorrilho tenha construído carreira musical para muito além da ladainha de meus primos se explica na esteira da tradição popular que está no seu pedigree. É o que acabo de descobrir. Um de seus compositores é Romeu Gentil, o mesmo de “O boi da cara preta”. A inspiração é “O malhador”, samba de Donga e Pixinguinha, de 1919 (que, por sua vez, já havia usado o tema folclórico “Trepa, Antônio, siri tá no pau”). Seu estribilho (lá em casa tinha um bigorrilho,/ bigorrilho fazia mingau…) é semelhante ao lundu “Isto é bom”, de Xisto Bahia (nada menos do que a primeira música gravada no Brasil). E lundu, lembremos, é uma dança brasileira de natureza híbrida, criada a partir do batuque de escravos africanos e de ritmos portugueses.

            Aonde chegamos com essas explicações todas? Chegamos à gênese popular daquela canção cujo termo sintético – bigorrilho – continua por aí. Bastante em desuso, é bem verdade. Mas não subestimemos a força da sabedoria do povo!

            É isso, “Dona Dadá, Dona Didi”. Fui ao dicionário e descobri que, ao modo de gíria, bigorrilho identifica letreiro luminoso com a palavra Táxi, instalado na capota dos autos de aluguel. Deixemos de barato, que esse uso também pode estar fora de moda. Agora, que ninguém diga que soa desatualizado o outro significado que encontrei: trata-se de político acomodatício que, em qualquer partido, sempre faz o papel de situacionista. Não disse? Esse bigorrilho tem pedigree!

LENDO J. M. COETZE

Lendo Coetze

∗LANÇAMENTO∗

Lendo J. M. Coetzee reúne mais de dez críticos brasileiros e estrangeiros que abordam por diversos ângulos a quase totalidade da obra do autor sul-africano. Essa abordagem de fôlego é o resultado de um diálogo que começou em 2010, quando a obra Diário de um ano ruim serviu como um filtro de releitura do famoso ensaio de Freud “O Mal-estar na Cultura”, em um evento de mesmo nome em Porto Alegre. Os professores Kathrin Rosenfield (UFRGS) e Lawrence Flores Pereira (UFSM), além de assinarem capítulos no livro, são seus organizadores. Todos os participantes do evento referido contribuem com ensaios de síntese sobre os aspectos mais evidentes e importantes desta obra: violência, trauma, injustiça, sofrimento, censura, opressão, tortura e também do engajamento que caracteriza o ficcionista relativamente a seres que desaparecem do horizonte imediato da sociedade por terem sofrido mutilações físicas, psíquicas ou por terem sido exilados. Além da revisão do escritor na encruzilhada de realidade e ficção, o volume ainda aborda uma avaliação da obra crítica e teórica de Coetzee. Este livro é a primeira e, por enquanto, única coletânea crítica no Brasil sobre este autor que foi Prêmio Nobel de Literatura de 2003. O selo é Editora da UFSM.

PEREIRA, Lawrence Flores e ROSENFIELD, Kathrin (Orgs.) Lendo J. M. Coetze. Santa Maria: Editora UFSM, 2015. 320 págs. R$ 55,00.

A LIÇÃO DE ANATOMIA DO TEMÍVEL DR. LOUISON

A lição de anatomia

∗CRÍTICA∗

Meu colega de UFSM, Enéias Tavares, ganha destaque no cenário da literatura contemporânea com A lição de anatomia do temível Dr. Louison. Se o prezado leitor é medianamente informado, já deve ter lido ou ouvido algo a respeito. Como esclarece uma das apresentações da obra, “em um Brasil retrofuturista [onde] serviçais robóticos e geringonças apocalípticas coexistem com o sobrenatural, o jornalista Isaías Caminha desembarca em Porto Alegre para cobrir a prisão do infame assassino Dr. Antoine Louison, aprisionado no lendário asilo São Pedro para Psicóticos e Histéricas. Na noite anterior à sua execução, porém, o facínora escapa, desaparecendo como um fantasma de folhetim”. Romance de ação com sacadas de folhetim, inscreve Enéias na onda que a banda Arrase traduz com a linguagem musical do hard rock: “botas y tirantes, crestas y remaches/ dicen que nos vieron ayer por la noche, /todos estranados, nos creian enemigos, / el mismo camino, juntos hasta el fin… /Punks y Skins, punks y skins”. Skinpunk, vizinho do steampunk significa isso que está na mensagem da música: circular por caminhos misteriosos e pouco movimentados, de preferência sob o ar secreto da noite, em nome de um ideal que nem todos entendem.

Quando passeamos pela galeria de tipos exóticos como a que nos apresenta o livro que temos em mãos, logo reconhecemos essas referências da música e do pop contemporâneos. De acordo com a definição do próprio autor: “o steampunk é um gênero de ficção especulativa que, ao invés de ambientar seu enredo no futuro, prioriza o passado, ou ao menos uma visão alternativa de passado. O salto imaginativo deste universo se dá em três direções: na reimaginação da tecnologia da época, na revisão da história como a conhecemos e na possibilidade de utilizarmos personagens reais ou ficcionais (em especial os que já caíram em domínio público), para contar uma história fantástica”.

No livro, aproximações improváveis desfilam sob as hostes do Parthenon Místico – sociedade secreta que reúne o imoral satanista Solfieri de Azevedo, o cientista louco Dr. Benignus, a médium indígena Vitória Acauã e os aventureiros do oculto Sergio Pompeu e Bento Alves. Tudo isso, com o requinte morfológico e sintático de certa recuperação de época na linguagem (à maneira da norma das primeiras décadas do século XX, tempo em que se situam as ações narradas, a “graphia” incorpora alguns arcaísmos, bem como, em determinados períodos, ecoa aquele torneio frasal próprio de certo expressionismo literário que entre nós ganhou fama na pena de Raul Pompeia, como na sentença de abertura – “colimando glórias extraordinárias, deixei a carruagem mecanizada e dirigi-me ao aerocampo”).

O livro tem outras sofisticações. Uma delas, lembra passo de alcance semiótico, a la Umberto Eco. Trata-se da reprodução de um mapa de época, apresentado como “Planta da Cidade de Porto Alegre, Capital do Estado do Rio Grande do Sul”. Porto Alegre dos Amantes, aliás, é como se denomina o espaço que é palco das ações centrais. Entre as demais referências espaciais, no que nos diz respeito, destaque para Santa Maria da Bocarra do Monte, que figura ao final do texto como o espaço para onde viaja uma das personagens após o desembaraço do enredo principal. No capítulo das intertextualidades, ao modo steampunk, nada supera o reaproveitamento de personagens “vividos” ao redor da época em que se passam as aventuras do dr. Antoine Louison – alguns, em verdade, um pouco antes. A lista referenciada é ampla e tem nomes consagrados de nossa historiografia literária. Entre eles estão Álvares de Azevedo e seu Noite na Taverna (de onde vem o personagem Solfieri); Joaquim Manuel de Macedo, a Luneta Mágica (Simplício), Machado de Assis, O Alienista (de onde são decalcados Simão e Evarista Bacamarte), Raul Pompeia, O Ateneu (Sergio e Bento); Aluísio Azevedo, O Cortiço (Rita Baiana, Pombinha e Léonie) e Lima Barreto, Recordações do escrivão Isaías Caminha (de onde revive o trio Isaías Caminha, Floc e Loberant).

De outro modo, dirigíveis, criaturas robóticas, mensagens telegráphicas e gravações (também robóticas) se encarregam de completar o embaralhar de tempos de acordo com o gênero em questão que, conforme seus comentadores, define o caráter técnico da sociedade contemporânea recorrendo a uma tradição oriunda do romantismo dos séculos XVIII e XIX, sobretudo dos contos góticos e de horror. Enéias Tavares, especialista nos livros iluminados de William Blake e professor de Literatura Clássica na nossa UFSM, também entra no clima. Na orelha de contracapa, a nota biográfica confessional declara que “quando perde a inspiração, [ele] diverte-se colecionando escorpiões robóticos, lembranças photoelétricas e amizades improváveis”.

A lição de anatomia do temível Dr. Louison coloca Enéias na senda de um dos gêneros que ganha público cativo, organizado em legiões de seguidores, e venceu o concorridíssimo concurso da Fantasy, selo da editora Casa da Palavra, do Rio de Janeiro. Leitura obrigatória para atualizar nossa agenda com a ampliação dos horizontes literários nos dias que correm e também para verificar que, como o autor nos prova, a discussão entre mainstream vs. underground, mesmo em tempos mal educados e truculentos, pode se dar em alto nível. E, claro, com bom gosto e alta dose de criatividade.

TAVARES, Enéias. A lição de anatomia do temível Dr. Louison. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014. 320 págs. R$ 34,90.

A SETE CHAVES

A SETE CHAVES

∗LANÇAMENTO∗

Cada poeta é um mundo, afirma Dilan Camargo na apresentação deste A sete chaves. O livro, com selo da santa-mariense Rio das Letras, reúne sete autores conhecidos dos leitores da região: Haydée Hostin, Humberto Gabbi Zanatta, Marcelo Soriano, Odemir Tex Junior, Orlando Fonseca, Tânia Lopes e Vitor Biasoli. Como informam os organizadores na orelha do livro: “embora haja uma coincidência de tempo e lugar, reúnem-se nesta obra diferentes gerações e diversos olhares. Humberto Zanata, Vítor Biasoli e Orlando Fonseca começaram a sua trajetória em meio aos acontecimentos dos anos setenta. Se, por um lado, tínhamos a ocorrência de um estado de exceção e censura no país – o que demandava do artista a especialidade da metáfora – por outro, reaviva-se no Estado uma ligação telúrica e nativista com as coisas do campo e a cultura gaúcha. Odemir Tex Jr. e Marcelo Soriano são poetas da virada do século, marcados por esta permamência das grandes indagações humanas. Tânia Lopes e Haydée Hostin trazem a sensibilidade e a afirmação da mulher nesta trajetória de busca pela harmonia da humanidade”. E conclui: “a partir deste molho de chaves, acrescente a chave da sua sensibilidade para acessar o conteúdo desta coletânea que temos guardado a sete chaves”. A variedade, de fato, faz bem à poesia. E, melhor ainda, ao leitor.

HOSTIN, Haydée et al. A sete chaves. Santa Maria: Rio das Letras, 2015. 122 págs. R$ 20,00.

RESPEITÁVEL PÚBLICO

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∗LANÇAMENTO∗

Mais um autor rio-grandense com novidades na praça. Trata-se de Henrique Schneider, escritor radicado em Novo Hamburgo, narrador já experimentado em títulos anteriores como Contramão (finalista do Prêmio Jabuti em 2009) e A vida é breve e passa ao lado. O enredo de Respeitável público trata da chegada de um circo mambembe a Galateia, uma pequena cidade interiorana. Alba Rosa, filha de Teodoro Alegria, o influente prefeito da localidade, apaixona-se pelo trapezista, a contragosto do pai, que, ultrajado pela ocupação do rapaz, arregimenta um exército para tirá-la do circo. Cabe à moça de 17 anos impedir o confronto. Para isso contará com uma força inexplicável que surge como ameaça ao poder do prefeito.

SCHNEIDER, Henrique. Respeitável público. Porto Alegre: Dublinense, 2015. 128 págs. R$ 34,90.

MORRESTE-ME

Morreste-me

∗LANÇAMENTO∗

Passados 15 anos do seu lançamento, a obra que inaugurou a carreira do português José Luís Peixoto é finalmente publicada no Brasil e, orgulho nosso, pela Dublinense, editora rio-grandense que vem procurando ampliar um cardápio de qualidade em seu catálogo. Publicada em 2000, Morreste-me é uma obra tocante e comovente: é o relato da morte do pai, o relato do luto e, ao mesmo tempo, uma homenagem, uma memória redentora. Destaca-se, na obra, dividida em quatro partes, o narrador que, a cada página, lembra-nos da urgência do tempo ante os antagonismos da vida e da morte perfilados na memória que atualiza a ausência sentida: “regressei hoje a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. É tudo como se continuasse”. Um dos destaques do volume está no trato refinado que empresta à língua portuguesa, recuperando, com ares de filólogo cuidadoso, uma sintaxe há muito esquecida, como no trecho seguinte: “na berma da estrada, entre extensões amarelecidas de mato e cardos secos, entre searas gigantes de trigo, rompem ervas corajosas poucas, rompem papoilas que do fogo sangue das suas chamas ateiam o louro, o áureo”. José Luís Peixoto, 40 anos, acumula obra ficcional e poéticas das mais festejadas, com imenso reconhecimento de público e crítica, que inclui, na última década, alguns dos mais prestigiados prêmios literários internacionais.

PEIXOTO, José Luís. Morreste-me. Porto Alegre: Dublinense, 2015. 64 págs. R$ 29,00.

PARTIDO DA EDUCAÇÃO EFICIENTE

            O que pode o professor diante de seus alunos? A julgar pelo que anda dizendo esse pessoal do “Escola sem partido”, pode muito.

            Em certo sentido, claro que pode. Porém, esse poder nunca será assim direto, como supõem os arautos da escola apartidária. Penso, aqui, naquilo que Sartre disse uma vez sobre o poder da literatura: “é falso que o autor aja sobre os leitores, ele apenas faz um apelo à liberdade deles, e para que suas obras surtam qualquer efeito, é preciso que o público as assuma por meio de uma decisão incondicionada”.

            O argumento de um professor, por mais persuasivo que seja, será um a mais, em meio aos discursos transversais que constroem o caráter, o conhecimento e o senso, digamos, político, de um ser.  Pensar, pois, que professor tem força para doutrinar partidariamente sua classe é ter uma visão “inocente” da realidade. Ainda mais de uma realidade como a nossa, em que escola de verdade, ou é empresa e tem dono para cuidar de sua linha de atuação, ou é pública e laica, em geral localizada na periferia e às voltas com controlar o traficante, proteger-se da violência, dar assistência a crianças desassistidas.

            Para ficar na mesma parceria, permitam-me citar Simone de Beauvoir. Em seu admirável Balanço Final, ela nos lembra que do nascimento aos cinco anos estendem-se espaços infinitos e quase definitivos (aprender a caminhar, a falar, a interagir). “Depois, a conquista da leitura, da escrita (…) ainda constitui feito extraordinário. (…) [Mas] na formação geral do indivíduo essas aquisições representam um papel menos importante” e o que fica definitivamente é a impressão do início da vida adulta, seja ela vivida na faculdade ou em outro nível de experiência e aprendizado.

            O advogado Miguel Nagib, fundador da ONG e pregador da “Escola sem partido” precisa saber que, se há partido majoritário em nossas escolas, este é o do saber empenhado e transformador. Que mais não faz, porque gente com a visibilidade do Dr. Nagib se encarrega de distorcer o foco. O que precisamos mesmo é do partido da educação eficiente, algo que se conquista com salário digno, bibliotecas fartas e ambientes adequados. Isso, sim, muda a cabeça das pessoas. E para melhor.

LIVROS E LEITORES

            Por esses dias andei às voltas com um romance que é da categoria dos muito citados e pouco lidos.

            Aliás, não precisamos ir longe para encontrá-los. Em alguns casos, por tratarem-se de livros ou autores com os quais um grande número de leitores simplesmente não se identifica. Meu cunhado, por exemplo, já tentou algumas vezes o José Saramago. Nunca passa da décima página. Derrapa na pontuação (no caso, na falta dela) e soçobra nos detalhamentos empilhados pelo narrador.

            Mas, como contava, voltei a um desses rejeitados. Trata-se de A consciência de Zeno. Seu autor, Italo Svevo, um italiano de Trieste (que morreria num acidente de carro em 28) já contava mais de 50 quando lançou, em 1923, esta, que é considerada sua obra prima. O detalhe: na época era mais conhecido como romancista fracassado, por duas ou três tentativas malogradas da mocidade.

            Há uma particularidade que envolve a biografia de Svevo e, de certo modo, seu festejado livro da maturidade. Ao redor de 1910, o autor contratara lições particulares de inglês a um estrangeiro que mudara para sua cidade. Este estrangeiro era nada menos que James Joyce, na temporada em que morou em Trieste. Fizeram amizade e o aluno deu a ler ao mestre aqueles livros fracassados das primícias.

            Muitos anos depois, quando o antigo professor de inglês já se tornara celebridade universal, retribuiu uma velha dívida, reconhecendo publicamente as sugestões preciosas que colheu naquela velharia relegada por seu aprendiz de idiomas. Joyce identificou nesses romances naturalistas, à maneira da época, uma nova psicologia novelística, antecipação fabulosa da psicanálise.

            A vida distribui desgraças e felicidades sem consideração dos méritos. Em A consciência de Zeno, já liberto das influências naturalistas e impregnado da gratuidade modernista, Svevo caracteriza suas personagens como vítimas desarmadas da vida. O romance é testemunha de uma época. Entendê-lo nesta chave valoriza o gosto da leitura. De quebra, nos reforça que tempo e paciência são aliados dos bons livros. E dos leitores persistentes.