INTOLERÂNCIA

            “A vida nos mostra o quão justa foi nossa atividade. A turma do ódio chegou para gritar. Tivemos que acabar para manter a integridade de todos”.

            O parágrafo acima reproduz um post da deputada Manoela D’Ávila, referindo-se a desfecho imprevisto de evento organizado para lançar a Frente Parlamentar Gaúcha contra a violência na Internet. Deputados e jornalistas estavam reunidos para debater o assunto, quando um grupo, na plateia, interrompeu tudo com palavras de ordem e gestos de violência dirigidos à mesa organizadora. Em nome de uma pseudo moral vincada pelo desajuste a turma do barulho esbanjou truculência e desprezou a moderação.

            Há um fator preponderante que desenvolve o espírito da tolerância naquele sentido da compreensão do outro e do diferente: a experiência, isto é, o aprendizado decorrente de nossas vivências, o que tiramos ou podemos tirar de situações objetivas, vividas no contato dos ambientes que frequentamos.

            Dias desses, assim por acaso, topei com escritos de Claude Helvétius, francês do século XVIII, autor de uma obra chamada Do espírito. Anticlerical, condenado pelo papa Clemente XIII, o autor, de acordo com o espírito da época, foi buscar na vida rural inspiração para suas ideias.

            Em vários pontos dos escritos de Helvétius aparece a preocupação com o encontrar uma melhor forma para que os homens sejam felizes. Para desenvolver seus estudos o autor utilizou basicamente o empirismo. Entendia que o ambiente onde vivemos imprime em nosso espírito, através das sensações, as suas peculiaridades, e essas sensações formam nossas ideias, juízos, emoções e nossa memória.

            Entre suas sentenças aparecem filosofias de vida como esta: “irritar-se com efeitos de seu amor próprio é queixar-se do aguaceiro da primavera, do calor do verão, das chuvas do outono e da neve do inverno”. O seu capítulo sobre os moralistas é melhor ainda. Para ele, trata-se de sujeito “apaixonado pela falsa ideia de perfeição”, que substitui “a compreensão pela injúria”, denuncia os efeitos “sem remontar às causas” e “rejeita os efeitos dos princípios que admite”. Por fim, a atualidade de sua conclusão: “a maioria dos moralistas não serviu até agora de ajuda alguma para a humanidade”.

 

LITERATURA E MEMÓRIA POLÍTICA

Literatura e memória política

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Com uma longa tradição de trabalhos na linha de pontes literária e autor de títulos como Literatura comparada e relações comunitáriasLiteratura, história e política, Benjamin Abdala Junior, professor titular da USP, assina este Literatura e Memória Política em parceria com Rejane Vecchia Rocha e Silva, docente da mesma instituição. Trata-se de coletânea de ensaios sobre literaturas de língua portuguesa (com enfoque em obras representativas de Angola, Brasil, Moçambique e Portugal). Figuram no volume nomes bem conhecidos da crítica e da historiografia brasileira e que há tempos trabalham nessa linha de articulação entre o social, o político e o literário no concerto de expressões de língua portuguesa. Entre eles, Laura Cavalcante Padilha, Regina Zilberman, Tania Macedo, Eneida Leal Cunha e Jane Tutikian. Como afirmam os organizadores (também arrolados entre os ensaístas), a obra “pretende trazer uma necessária contribuição para pensar politicamente as produções de nosso comunitarismo linguístico-cultural em uma situação internacional de redefinição em termos de poder”.

ABDALA JUNIOR, Benjamin; ROCHA E SILVA, Rejane Vecchia (Orgs.) Literatura e memória política. Angola. Brasil. Moçambique. Portugal. Cotia, SP: 2015. 308 págs. R$ 45,00.

A CRÔNICA BRASILEIRA DO SÉCULO XIX

A crônica brasileira século xixO livro, de natureza acadêmica, defende a tese de que a crônica é um gênero jornalístico. Antes de analisar a situação brasileira oitocentista da produção de crônicas, o autor faz um breve retorno ao contexto francês, identificando o momento em que surge o feuilleton, a nova seção criada ao pé da página surgida nos começos do XIX. Em seguida, acompanha a trajetória do folhetim no Brasil, iniciada em 1830. O impulso e o desenvolvimento do gênero passa pelas penas de Francisco Otaviano, José de Alencar e Machado de Assis, todos devidamente destacados na cronologia em questão. Marcos Vinicius Nogueira Soares, doutor em Literatura Comparada pela UERJ, é professor associado de Literatura Brasileira da mesma instituição.

SOARES, Marcos Vinícius Nogueira. A crônica brasileira do século XIX. Uma breve história. São Paulo: É Realizações Editora, 2015. 280 págs. R$ 44,70.

(DES)CONFORTO

            O táxi sobe a ladeira íngreme em direção ao Bairro Bela Vista em Porto Alegre. Vou visitar parentes.

            O Bela Vista faz jus ao nome. A cidade observada de cima é um privilégio que os condôminos de luxo desfrutam como extensão natural de suas vidas. Suntuosidade tem de sobra por aqui. De modo particular, nas duas últimas décadas, a lógica horizontal de casas amplas e bem equipadas foi substituída pela fantasia vertical dos arranha-céus. Eu que não conheci a época das casas, sigo na expectativa de encontrar a parentada no conforto de se sentir perto das nuvens.

            A mim – e aos parentes que mudaram para cá há pouco – tudo pareceria perfeito não fosse a barulheira intempestiva dos panelaços que ecoam por estes paredões a qualquer menção sobre a Dilma e o PT. É o que contam. Custa a crer que caiba tanto ódio em meio a tanta bonança. Isso desconcerta e não deixo de ter uma ponta de pena desses parentes que gastaram esforço e economia de anos para habitar essas ladeiras e agora tem de se haverem com tapa-ouvidos.

            Aliás, o motorista do táxi, ao que parece, também não está muito conforme com estes ricos que batem panelas. A julgar pela história que me contou, tem lá suas razões. Foi numa rua dessas que outro dia a madame lhe cortou  caminho e escangalhou toda a frente da lata velha com que ganha a vida. A madame estava com pressa para entrar na garagem. Na hora, desculpou-se e comprometeu-se pagar os estragos. A história logo mudou em ladainha: o telefone da dita cuja passou a não atender, seguiram-se grosserias e impropérios que terminaram num sonoro “se vire que não vou pagar coisa nenhuma, o senhor trate de dirigir com mais cuidado”.

            O homem, coitado, está desolado. Gastou mil no conserto e ainda teve que se virar com carro emprestado por um amigo que é o que lhe valeu para levar a esposa às sessões de químio e para lograr alguma feirinha de aluguel.

            A corrida, enfim, chegou a termo. Subo a abraçar os que me recebem. A vista é deslumbrante. Tudo parece perfeito. E, de fato, seria, não fossem os versos de Drummond que, do canto, me espreitam com sarcasmo: “eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo”.

PEREGRINAS INQUIETUDES

PEREGRINAS INQUIETUDES.doc

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A poesia de Moisés Silveira de Menezes, cujo compromisso telúrico é frequentemente afirmado, seja na apurada seleção do vocabulário regional, seja no recorte de assuntos e motivos, desliza com naturalidade para o “sentimento do lugar”, de onde as imagens concorrem para resgatar as vivências do poeta entre seus semelhantes. De pronto, isso significa uma fácil aproximação com o leitor, até mesmo porque, não apenas as figuras humanas são chamadas para o universo do poeta, mas também – e principalmente, a natureza física e material do mundo. Está visto, pois, que este é o caminho através do qual o poema nos coloca em contato com gente e fatos e também em meio a cenários, objetos, animais, árvores, rios, caminhos e circunstâncias.

Escrevi as linhas acima no texto crítico que acompanha “Décima inconclusa aos recuerdos”. O Moisés gentilmente convidou-me para integrar o naipe de críticos e comentadores que ajudam a fazer seu livro adequadamente intitulado Peregrinas Inquietudes. O projeto é interessante e produtivo para o leitor: cada poema é seguido por uma apreciação crítica, fato que ajuda na leitura e deciframento de texto tão peculiar como o da poesia. A orelha é assinada por Joaquim Moncks, escritor, titular da Academia Rio-Grandense de Letras. O prefácio é de Victor Aquino, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, de raízes tupanciretanenses, como eu e o Moisés. Moisés, além de poeta, é historiador, e em 2011 publicou Tupan-Cy-Retan, Face Missioneira. No segmento poesia é autor de Imagens do Sul, de 2000. Com Peregrinas inquietudes volta ao gênero com expressão madura e afeiçoada às imagens da terra.

 MENEZES, Moisés. Peregrinas inquietudes. Santa Maria: Rio das Letras, 2015. 256 págs. R$ 28,00.

AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA

            Eduardo Galeano já havia sido notícia em uma Cúpula das Américas. Corria 2009, em Trinidad e Tobago, quando Hugo Chaves presentou Barak Obama com um exemplar de As veias abertas da América Latina.

            Eduardo Galeano, o autor do livro, morreu mês passado em Montevidéu, quando os presidentes americanos tornavam a se reunir, desta feita no Panamá. Não sei se meus amigos especialistas da área concordam, mas a História é muito irônica. As veias abertas é um livro de tempos bicudos, escrito no calor da hora, quando o Continente sucumbia à força ferrenha e discricionária da ditadura.

            O uruguaio Eduardo Galeano denuncia, na linha da História, a pilhagem cruel endereçada contra nossa gente e nossas riquezas. Os algozes estão todos nominados: portugueses, espanhóis, ingleses, norte-americanos. A história da América Latina é reescrita a partir do trato impiedoso dos mecanismos de poder, dos modos de produção e dos sistemas de expropriação. A descrição – mais do que isso, a denúncia – põe à mostra, com crueza descritiva e fartura de dados, a monstruosidade irracional da barbárie.

           Lançado em 71, o livro de Galeano tornou-se uma bíblia da esquerda revolucionária na América Latina. E encantou gerações de estudantes de nossa História. No prefácio de uma reedição, a romancista Isabel Allende escreve que, ao fugir do Chile, após o golpe em 73, levou poucas coisas: “um saquinho de barro do meu jardim e dois livros: uma velha edição de Odes, de Pablo Neruda e o livro de capa amarela, As veias abertas da América Latina”.

            Livro de um tempo de dor e paixão, As veias abertas não perdem o poder de encantamento. Obama, provavelmente, não o leu, mas, à época do gesto de Chaves, sua procura nos Estados Unidos colocou-o no topo da lista dos mais vendidos.

            Definitivamente, o riso da História é sempre irônico: dizer que a estroinice de Chaves alcançou, num instante, o que muitos, em vão, deram a vida para tentar alcançar. Nem por isso, o que foi trágico vira cômico. Para Schopenhauer, por exemplo, todo o riso, no fundo, é uma manifestação pessimista diante da dramaturgia absurda que é a vida.

LAURO HAGMANN

O radialista Lauro Hagmann, 84 anos, morreu na segunda-feira, 11/5, em Porto Alegre. Os obituários que saíram em vários espaços da mídia impressa e eletrônica deram conta de sua famosa passagem como locutor do Repórter Esso, versão RS. No período de 1950 a 1964, quando o noticiário deixou de existir, foi seu apresentador titular na Rádio Farroupilha. O que essas notas biográficas deixaram de lado foi sua passagem pela Rádio Guaíba entre os anos 60 e 70, quando integrou um dos mais famosos castings que o rádio rio-grandense conheceu ao lado de nomes como Enio Berwanger, Ruy Strelow, José Fontella, Euclides Prado, Nabor Couto e Egon Bueno. Hagmann tinha um ritmo muito peculiar, fazia um estilo com empostação grave e pausada, algo próximo, para quem ouviu e lembra, do Patrônio Cabral, que foi outro monstro sagrado daquela geração e que marcou época na nossa Rádio Imembui, aqui em Santa Maria. Por tempos a fio, quando saía para a aula de manhã, meu pai ficava ouvindo o Rádio Jornal Guaíba Correio do Povo. Ali, entre 7h e 7h30min, pontuava a voz do Lauro Hagmann. Meu tributo a esta memória rica da cena pública rio-grandense, engrandecida por sua passagem marcante pela política, como deputado comunista e como batalhador por sua classe. Não o conheci pessoalmente, mas em meus tímpanos ainda ecoa a cortina musical que me acordava para a aula naquela quadra de descoberta e aprendizado. É em sua memória que registro neste espaço a Marcha dos Violinos, que é como se chama o saudoso prefixo musical. Quem, como eu, já passou dos 50, há de lembrar…

Marchin’ violins (Franck Pourcel e Raymond Lefevre). Franck Pourcel Orchestra.

CURSO DE LITERATURA PORTUGUESA E BRASILEIRA

Curso de Literatura BrasileiraMeu colega Roberto Acízelo de Souza (professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), em trabalho admirável de organizador, acaba de colocar no mercado editorial brasileiro e, particularmente, à disposição de estudiosos e público interessado, dois títulos importantes: Curso de Literatura portuguesa e brasileira, de Francisco Sotero dos Reis, e Historiografia da Literatura Brasileira, Textos Fundadores. O Curso de Literatura saiu originalmente em cinco volumes entre 1866 e 1873. A obra desse maranhense tem sido reconhecida pela crítica especializada por seu pioneirismo. Antonio Candido, por exemplo, classifica-o como “o primeiro livro coerente e pensado de história literária”. A edição organizada por Acízelo de Souza reúne, em um único volume, os escritos de Sotero dos Reis, mediante texto cuidadosamente estabelecido, anotado, e enriquecido, ainda, pelo estudo crítico que o precede.

Historiografia brasileiraHistoriografia da literatura brasileira, em dois volumes, apresenta um conjunto de textos considerados fundadores dessa disciplina em território pátrio. Os textos selecionados possuem em comum a circunstância de constituírem esforços iniciais para a instituição de uma literatura nacional brasileira.  Destacam-se, entre outras, contribuições como as de Januário da Cunha Barbosa, Domingos José Gonçalves de Magalhães, Joaquim Norberto de Sousa e Silva, Manuel Antonio Álvares de Azevedo, José de Alencar, Machado de Assis, José Verissimo e Silvio Romero. Trata-se, pois, de cobrir todo o período em que, no contexto do nacionalismo pós-independência, produziram-se os primeiros ensaios que propunham a criação correlata de uma literatura autenticamente brasileira e de sua historiografia, com vistas a se implantar uma cultura literária nova e original em território pátrio. São títulos altamente recomendáveis para estudiosos, interessados e público em geral.

REIS, Francisco Sotero. Curso de Literatura Portuguesa e Brasileira. Fundamentos teóricos e autores brasileiros. (Org. Roberto Acízelo de Souza) Rio de Janeiro: Caetés, 2014. 368 págs.  R$ 40,00.

 SOUZA, Roberto Acízelo (Org.). Historiografia da Literatura Brasileira: Textos fundadores (1825-1888). (volumes 1 e 2). Rio de Janeiro: Caetés, 2014. V. 1 – 584 págs. R$ 42,00.  V. 2 – 488 págs. R$ 42,00.

CACHORROS, POESIA E FEIRAS

            Observo o cachorro que atravessa a faixa de pedestres. Não é a primeira vez que vejo a cena e a cada repetição há um apelo poético que me toca.

            O animalzinho segue resoluto até o canteiro do meio. Então, para, observa o fluxo do lado oposto, e segue adiante. De minha cômoda posição de motorista, desacelero e posso testemunhar a travessia completa. É um cachorro cheio de autoconfiança e que, além de tudo, já percebeu que aquela trilha pintada no chão lhe garante certa imunidade frente a máquinas nervosas e apressadas. Sua inteligência prática (seria instinto?) permite calcular a exata proporção distância vs. risco, de sorte que segue adiante sem temer direção alheia.

            Quando nossos olhos são capazes de ver além do que enxergamos entramos no campo do poético. Não refiro o poema pronto, esse que pode ser, sim, tradução de uma experiência fundada no real, testemunho inequívoco do que se vê ou se viu. Falo de nossa capacidade de apreender com a sensibilidade do poeta, este gesto que é anterior ao próprio poema, como algo que precisamos cultivar ao modo de uma forma de ver e sentir. Como dizem os versos famosos de João Cabral de Melo Neto: ”a física do susto percebida entre os gestos diários; susto das coisas jamais pousadas porém imóveis naturezas vivas”.

            Esta semana, falando para os alunos do ensino médio de Caçapava do Sul, durante a Feira do Livro de lá, salientei exatamente que a vida e a poesia estão bem mais perto uma da outra do que às vezes imaginamos. E que uma e outra se misturam nos pequenos gestos do cotidiano. Acho que livros e autores abertos à interação com o público reforçam exatamente esse sentido comunitário e cotidiano da literatura. Por isso, viva as nossas Feiras! A de Caçapava está bela e movimentada, como a nossa, aqui de Santa Maria.

            E já que o tema é recorrente, aproveito para agradecer acolhidas e reforçar convites. O João Pedro, com Vida de criança, já foi a Caçapava e estará na Feira de Santa Maria nesta quarta, às 15h30min. Com direito à poesia e, claro, com o devido louvor aos cachorros.

OS MIL OUTONOS DE JACOB DE ZOET

Os mil outonos

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O pano de fundo exótico para esta trama é o Japão da virada do século  XVIII para o XIX. No ano de 1799, o império japonês está totalmente fechado aos estrangeiros, com uma única exceção: na ilha artificial de Dejima, na costa de Nagasaki, seus últimos parceiros comerciais europeus, os holandeses, mantêm uma feitoria. Em busca da fortuna que lhe permitirá casar-se com sua amada Anna, o jovem escriturário Jacob de Zoet parte de navio para o Oriente e acaba sendo incumbido por seu tutor da missão de investigar os registros de Dejima em busca de evidências de corrupção. David Mitchel, o autor, nasceu em 1969, em Worcestershire, na Inglaterra. Viveu anos no Japão e atualmente mora na Irlanda com a esposa e dois filhos. Este é seu quinto romance (anteriormente lançou GhostwrittenNumber9dream,Cloud Atlas e Menino de lugar nenhum). Escrito com grande atenção aos detalhes, numa prosa repleta de episódios cômicos e reflexões filosóficas e históricas, Os mil outonos de Jacob de Zoet mostra por que David Mitchell é reconhecido como grande autor contemporâneo de língua inglesa. Eleito um dos melhores jovens escritores britânicos pela revista Granta em 2003 e indicado a prêmios importantes (foi duas vezes finalista do Man Booker Prize, com o cultuado Cloud Atlas e depois com Os mil outonos de Jacob de Zoet), Mitchell é dono de imaginação fértil e de um estilo escorreito, com o qual transita fluidamente entre gêneros como o romance histórico, a ficção científica e o romance de formação. A tradução é do festejado escritor Daniel Galera, paulista, filho de pais gaúchos e residente em Porto Alegre. O tradutor, ao longo do trabalho, postou na rede alguns trechos com uma prévia de seu projeto. A seguir um desses trechos onde aparece a mão firme de Galera, procurando manter a força da ambientação e o ritmo da frase do original: Da torre da igreja de Domburg, Jacob viu muitas ventanias chegarem a galope da Escandinávia, mas um tufão oriental tem algo de senciente e ameaçador. A luz do dia é violentada; a floresta se debate no crepúsculo prematuro das montanhas; a baía negra enlouquece com as ondas agitadas; golfadas de espuma do mar borrifam os telhados de Dejima; a madeira range e suspira. Os marujos do Shenandoah estão descendo a terceira âncora; o primeiro imediato dá berros inaudíveis no tombadilho. Para o leste, os comerciantes chineses e a equipagem fazem o que podem para proteger o que possuem. O palanquim do intérprete atravessa a Praça Edo vazia; a fileira de plátanos balança e chicoteia; não se vê nenhum pássaro voando; os barcos dos pescadores vão sendo arrastados até a margem e açoitados em grupo. Nagasaki está se recolhendo para uma noite das piores.

MITCHELL, David. Os mil outonos de Jacob de Zoet. Trad. Daniel Galera. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 568 págs. R$ 64,90 e R$ 45,90 (e-book).