A FEIRA

            Ela está de volta. Estamos vivendo a oportunidade de rever, na praça, os livros e as atrações de lançamentos, palestras e intervenções artístico-culturais.

            Sábado, 25/4, na abertura, todos nos emocionamos com as homenagens. O sol da manhã iluminou o burburinho e testemunhou a emoção da patronesse Haydée Hostin Lima. Fundadora da Casa do Poeta de Santa Maria e membro da Academia Santa-Mariense de Letras, Haydée é justamente reconhecida pelo seu talento literário e pela militância em prol de autores e livros. A seu lado figura José Newton Cardoso Marchiori, professor homenageado. Pertencente ao Curso de Engenharia Florestal de nossa UFSM, José Newton, além da atividade acadêmica, distingue-se pela organização e publicação de obras raras de autores rio-grandenses. Por fim, entre abraços, lembramos com saudade as menções a Vinícius Pitágoras Gomes. Falecido em 2013, o homenageado póstumo desta edição de 2015 distinguiu-se como escritor, poeta, autor de várias composições premiadas em festivais nativistas.

            Como costumo dizer: a Feira é o palco para que os agentes que lidam com o livro renovem seu fôlego, mostrem-se em praça pública e, principalmente, reafirmem o compromisso do ofício. No nosso caso, isso decorre de dois aspectos particulares e destacados: o forte veio da literatura infantil e o grande número de títulos locais que, este ano, confirmam a escrita com mais de uma centena de escritores. Arriscaria afirmar que Santa Maria consolida um sistema literário com certa autonomia, ou seja, há hoje em nosso meio um grupo significativo de autores que publicam e circulam preferencialmente no âmbito de nossa microrregião.

            Na medida em que circulam, os livros e seus autores incrementam a formação e a consolidação de leitores, mostrando que o horizonte da palavra impressa pode ser um poderoso fator de letramento, inclusão e autonomia.

            Em reconhecimento aos homenageados de 2015, registro minha alegria por este reencontro fraterno entre livros e reforço o convite aos leitores de todos os quadrantes, gêneros e idades.

O MISTÉRIO DO MAL

o mistério do mal

∗LANÇAMENTO∗

Neste breve volume, ao interpretar a renúncia do papa Bento XVI, em chave a um só tempo teológica e política, escatológica e histórica, Giorgio Agamben aborda a questão da crise da sociedade e das instituições contemporâneas ressaltando como ponto crucial a confusão entre legalidade e legitimidade. No bojo de suas considerações, o filósofo italiano aponta ainda o papel da Igreja nos dias atuais.O livro é composto por dois textos. O primeiro, “O mistério da Igreja”, é uma reflexão sobre o significado do gesto de Bento XVI à luz de Ticônio, teólogo donatista do século IV cuja doutrina teria influenciado fortemente Santo Agostinho em sua concepção das duas cidades, a dos homens e a de Deus.O segundo, “A história como mistério”, é a transcrição de uma conferência que o autor proferiu na Suíça, em novembro de 2012, quando recebeu o título Honoris Causa em Teologia. Logo no início do volume, Agamben adverte o leitor da pertinência de publicá-los lado a lado: ambos tratam da mesma questão, o “significado político do tema messiânico do fim dos tempos, tanto hoje como há vinte séculos”. O autor é um dos principais intelectuais de sua geração, publicou muitos títulos e é responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin.

AGAMBEN, Giorgio. O mistério do mal. Trad. Patricia Peterle e Silvana de Gaspari. São Paulo: Boitempo, 2015. 80 págs. R$ 29,00.

O BAR

            Meus primos mais velhos estariam na faixa dos 20 quando eu mal tinha chegado aos 10 e eram frequentadores assíduos de bares.

            Tinha a turma das 11, mas sem dúvida a galera mais numerosa era a que se reunia a partir das 6 da tarde. Ficavam normalmente em pé, num canto, próximo ao balcão e raramente se misturavam com clientes eventuais. Ali, num convívio genuinamente masculino, faziam tipos inteligentes, comentavam as últimas ouvidas no noticiário, defendiam teses sobre a Guerra Vietnam, falavam das sacadas lidas no Pasquim e até discutiam literatura. Pelo que contam ainda hoje, o mais letrado da roda era o consultor de plantão para as dúvidas sobre música, literatura, cinema, enfim, o que rolasse.

            No seu Bar Don Juan, livro de 71, Antonio Callado propõe uma interessante recuperação dessa nossa cultura cotidiana de gregarismo. As ações se passam no Rio de Janeiro. Diferentemente de meus primos, perdidos e alienados em pequena comunidade interiorana, a turma do Don Juan é uma verdadeira fauna. Estudantes, cineastas, escritores, homens, mulheres, estrangeiros, todos fazem o gênero engajado. Anima-os o fascínio pela resistência à ditadura, algo que encaram com certo espírito aventureiro. Nos encontros diários, gastam o tempo em intermináveis discussões teóricas, regadas, é claro, a bebedeiras memoráveis e a ardentes encontros amorosos. A turma, enfim, reproduz o propalado gênero conhecido como esquerda festiva.

            Tudo poderia, de fato, terminar em festa, não fosse a aventura de Corumbá, na fronteira com a Bolívia, de onde o grupo planejava seguir para encontrar Guevara na selva. Após uma série de trapalhadas, a turma acaba descoberta e quase todos são eliminados. Tal desfecho trágico coincide com o episódio histórico do assassinato de Guevara, cujo registro nas páginas de Callado é indicativo de que o sonho ingênuo da liberdade estava terminado. Da turma do Don Juan, restaram vidas despedaçadas lambendo chagas destinadas a ficarem abertas por décadas afora.

            Antonio Callado pegou muito bem o clima daquela geração e viu no bar, mais do que um espaço privilegiado de convivência, um ponto de resistência: “quando o processo histórico se interrompe, a impossibilidade se alia ao ócio, a hora é boa para se abrir um bar”. Hoje há muitos outros espaços de convivência nas cidades, os públicos também se ampliam e se diversificam. Mas não é difícil perceber que os bares, esses que cativam clientes e formam suas rodas permanentes, resiste aos tempos e às gerações.

IMÓVEIS PAREDES

Imóveis paredes

∗LANÇAMENTO∗

Teté Paredes, como é conhecido pelos amigos, sofre uma grande provação ao receber uma oferta irrecusável pelo casarão em que viveu toda sua vida. Na defesa de um crescimento sustentável e do bairro onde habita, o protagonista luta contra um mercado imobiliário corrosivo e corrupto em Imóveis Paredes. Diante de imposições físicas e psicológicas, Teté age com ironia instintiva e surpreendente para preservar o casarão e a sua dignidade. Com simpatia e cumplicidade, o narrador aproxima-se dos leitores ao retratar seus conflitos íntimos. A retomada com uma antiga namorada e as instáveis relações afetivas com a filha desenvolvem-se em Imóveis Paredes junto à angústia da especulação imobiliária e à luta pela preservação do bom convívio em sociedade. Miguel da Costa Franco foi autor contratado da Rede Globo, atuando como corroteirista do telefilme e da série de tevê Doce de Mãe, produzidos pela Casa de Cinema de Porto Alegre, para quem também foi argumentista e roteirista do curta metragem O último desejo do Doutor Genarinho. Publicou contos e crônicas em coletâneas, dentre elas, Antologia de Contistas Bissextos (L&PM, 2007). Filho de Sérgio da Costa Franco, historiador e escritor gaúcho. É engenheiro agrônomo e ex-funcionário do Banco do Brasil. Este é seu primeiro romance.

COSTA FRANCO, Miguel. Imóveis paredes. Porto Alegre: Libretos, 2015. 164 págs. R$ 32,00

VIDA DE CRIANÇA

Vida de criança

∗LANÇAMENTO∗

O livro do João Pedro, de 11 anos, aluno do 6º ano do básico, é produto de uma produção que começou aos 6, praticamente junto com a alfabetização, e se estendeu até os 9. Foi um período rico de aprendizagem escolar e de descoberta do mundo. O livro reflete a sensibilidade de um olhar tocado pelas transformações da natureza, pelo convívio familiar e pelo comportamento dos bichos de casa – neste capítulo ganham destaque os cachorrinhos domésticos, um casal de vira latas que atendem por Tobi e Teca. O conteúdo mescla textos curtos, como poemas e minicontos, e textos mais longos em forma de narrativas. Esse conjunto é dividido em sete tópicos, assim denominados: Paisagem, Aventuras, Os cachorros, Em casa, Pesadelos, Fábulas e Poesia. As ilustrações, frutos de trabalho artesanal, são assinadas por Lisianne Gonçalves, mãe do João Pedro, que é artista plástica formada pela UFSM e professora da rede municipal de Santa Maria. O selo é da WS, editora rio-grandense que tem investido em projetos dirigidos ao universo infantil e juvenil.

Em tempo: lançamento neste sábado, 18/4/2015, às 10h30min, na Athena Livraria e Café (rua Mal. Floriano Peixoto, 1112 – Centro – Santa Maria, RS).

SANTOS, João Pedro Gonçalves. Vida de criança. Ilustração Lisianne Gonçalves. Porto Alegre: WS Editor, 2014. 64 págs. R$ 30,00.

CRIAR E TRANSFORMAR

         Dar a cara a tapa, eis um ato de coragem nestes tempos de julgamentos apressados e de exposição midiática frenética.

            Essa é a bronca que meu colega Fernando Villarraga resolveu encarar. Com um grupo de alunos, o Fernando está à frente da Vento Norte Cartonero, uma editora que tem por objetivo fazer livros artesanais e colocá-los no mercado a baixo custo. Numa época que o próprio Fernando costuma chamar de pós-tudo, esta atenção manual à fabricação de livros (capas personalizadas de papelão, uso de pintura, colagens e que tais) é um eco de singularidade em meio a um mar de igualdade. O lançamento dos três primeiros títulos – entre eles o volume de ensaios E agora José?, do próprio Fernando – ocorreu semana passada. O pessoal é talentoso e promete. Pude abraçar colegas e ex-alunos. Parabéns a todos.

           Ainda neste papo livro e a propósito de produções caseiras, aproveito para registrar o orgulho pelo Vida de criança. Os textos (poemas, relatos infantis e mini contos) foram escritos pelo João Pedro, a maioria entre os 6 e os 9 anos. Agora ele está com 11. A edição ganhou ilustração artística cuidada e requintada da mamãe Lisianne. Foi um trabalho bem família. O Walmor (da WS) acreditou e encampou. O lançamento ocorrerá no próximo sábado, dia 18, às 10h30min na Athena Livraria. Estaremos todos lá. Orgulhosos do João Pedro e esperando pelos leitores. Presentes e futuros.

            Por fim, no capítulo coragem e iniciativa, preciso registrar que a ascensão pública de Renato Janine Ribeiro à Educação teve, para mim, o sabor de ver um colega de minhas relações nesta posição estratégica. O Renato sempre me pareceu um sujeito de posições firmes, mas também afável e aberto ao diálogo. Foi dele, por exemplo, na Comissão de Avaliação da CAPES, a iniciativa, ainda hoje vigente, de, uma vez ao ano, levar todos os coordenadores de cursos de pós-gradação a Brasília para, numa reunião geral, discutir os problemas afetos ao sistema.

          Torço para que dê certo. Pelo Renato, claro. Mas, principalmente, por todos nós que acreditamos na força transformadora da criação.

VENTO NORTE CARTONERO

E agora José

∗LANÇAMENTOS∗

A mais nova editora santa-mariense de livros artesanais lançou, no último dia 8/4, seus três primeiros títulos: Xorok Kopox do poeta, desenhista e criador de fábulas Zuca Sardan, brasileiro radicado na Alemanha e considerado um dos pais da literatura marginal; Interferências, poesias do escritor mineiro Bruno Brum; E Agora José?, ensaios do professor venezuelano Fernando Villarraga (UFSM), que, através de uma linguagem “nada acadêmica”, propõem uma reflexão sobre o ambiente universitário. Entre os volumes de poemas, destaque-se que Sardan é arquiteto de formação e diplomata de profissão. Nos anos 70, integrou a geração mimeógrafo e, posteriormente, destacou-se no circuito editorial brasileiro (Editora da UNICAMP, Ossos do coração e As de colete; Companhia das Letras, Babylon; Cosac Naify, Ximerix). Quanto a Bruno Brum, mineiro de Belo Horizonte, Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2010), é curador da coleção Leve um Livro, projeto destinado a distribuir em Belo Horizonte, de forma gratuita, microantologias de 24 poetas contemporâneos. Já no tocante à ensaística, entre os lançamentos da semana,  Villarraga, que é professor de Literatura, cujas primeiras letras foram cursadas “na cidade mais feia do mundo, segundo a frase cáustica de Gabo”, através de uma visada crítica, enfoca particularmente a área de Letras, questionando uma noção produtivista diante da qual perderam espaço os referenciais relevantes de quem, como o autor, teve sua formação na “ciudad letrada”, “sabendo que, pelas condições de uma modernidade periférica, a de América Latina, apresentava uma peculiar fisionomia transculturada e heterogênea”. Títulos como “Divagações de um homo sapiens diplomado”, “Do passado das Letras às Letras do passado” e “Os Cursos de Letras na época do pós-tudo ou o mordomo levou a passear as Letras” dão o tom algo sarcástico do autor que, como ele mesmo ressalta, já lhe valeu a pecha, entre os pares, de “forasteiro fora do lugar”. Vale a pena conferir.

 VILLARRAGA, Fernando. E agora José? Santa Maria: Vento Norte Cartonero, 2015. 94 págs. R$ 10,00

SARDAN, Zuca. Xorok Kopox. Santa Maria: Vento Norte Cartonero, 2015. 34 págs. R$ 10,00.

BRUM, Bruno. Interferências. Santa Maria: Vento Norte Cartonero, 2015. 34 págs. R$ 10,00

GÜNTHER GRASS E EDUARDO GALEANO

As-veias-abertas-da-América-Latina

∗PERDAS∗

           Por uma ironia macabra destes estranhos tempos, nos deixam na mesma data – segunda-feira, 13/4, os escritores Günther Grass e Eduardo Galeano. Tendo habitado latitudes diversas do globo, a fé na redenção política do homem aproxima suas estaturas morais, definitivamente, assinaladas em obras destinadas a permanecerem.

GÜNTHER GRASS

          Morreu nesta segunda-feira, 13/4, aos 87 anos, o escritor Gunter Grass. Nascido a 16 de outubro de 1927, na antiga Danzig – tornada Gdansk na atual Polónia, onde detém o título de cidadão honorário – estudou naquela cidade até aos 16 anos, tendo-se alistado na juventude hitleriana. Sua interferência em favor de vítimas do totalitarismo, sua corajosa posição contra o terrorismo de estado em Israel, seu permanente combate à escuridão europeia de profundas raízes históricas, estão entre as bandeiras que levantou e defendeu com ardor. A luta pelos direitos permanentes da vida emprestam contornos particulares à sua figura. No limite da complexa relação entre criador e criação, talvez possamos referir o quanto sua obra decorre de uma espécie de tensão gerada pelo político.  Na notícia que o “Público” colocou na edição on line, sublinha-se que  Gunther Grass “era considerado um porta-voz da sua geração” e um “defensor de causas de esquerda” e que se “manifestou por exemplo contra as intervenções militares no Iraque”. O jornal lembra ainda: “Em 2012 foi considerado persona-non-grata por Israel, depois de ter comparado a acção deste país com os regimes ditatoriais. Ficou proibido de entrar no país, tendo recebido até críticas dos próprios alemães. Houve mesmo um pedido à Academia Sueca, que foi rejeitado, para que ao escritor fosse retirado o Nobel da Literatura. Também em 2012, o escritor publicou um poema de apoio à Grécia. Chamou-lhe A Vergonha da Europa e não se conteve nas críticas à atitude da chanceler alemã Angela Merkel. O Nobel da Literatura lembrava a história da Grécia, a quem a Europa muito deve. “Tu vais definhar privada de alma sem o país que te concebeu, tu, Europa”, escreveu Günter Grass, num poema com 12 estrofes de dois versos cada”.

          Na sua biografia regista-se: “Membro da Academia das Artes de Berlim, Günter Grass, que ganhou o reconhecimento internacional com O Tambor de Lata publicado em 1959, recebeu, além do Nobel, distinções tão importantes como o Prêmio Literário Príncipe das Astúrias, o Prémio Internacional Mondello ou a Medalha Alexander-Majakovsky. Em 2006, o escritor contou a sua história numa polêmica autobiografia, na qual confessou que se alistou nas Waffen-SS, uma unidade de elite da Alemanha nazi, quando tinha 17 anos. Descascando a Cebola aborda a vida do escritor entre 1939 e 1959. Grass relembra a sua adolescência numa Alemanha devastada pela guerra, o seu trabalho como mineiro e a decisão de fugir para Paris, onde escreveu O Tambor de Lata -  o primeiro volume da chamada “Trilogia de Danzig” (os outros são O Gato e o Rato e O Cão de Hitler), em que Grass recria com ironia e humor cáustico o ambiente da sua cidade natal, Danzig, antes e durante a II Guerra Mundial”.

EDUARDO GALEANO

          Morreu em Montevidéu na manhã deste 13/4, aos 74 anos, o escritor Eduardo Galeano. Famoso pela multiplicidade (escreveu livros de História, ficção e ensaios), denunciou a opressão no continente latino em As Veias Abertas da América Latina, traduzido para dezenas de idiomas e referência no assunto até hoje. Abaixo, crônica do jornalista Moises Mendes, publicada em ZH on-line, sob o título “Os ventos continuam estando”.

           Em novembro de 2008, Ivan Pinheiro Machado e Ruy Carlos Ostermann inventaram que o Centro Cultural CEEE poderia abrigar todos os que desejavam ver e ouvir Eduardo Galeano. A L&PM trazia Galeano para lançar Espelhos – Uma História quase Universal, e para uma entrevista dos Encontros com o Professor.

          O Ivan e o Ruy conheciam Galeano como poucos, mas subestimaram Galeano. Uma multidão passou a pegar senhas para o evento. Tiveram de transferir a conversa para o auditório da Assembleia. Foi no dia 13 de novembro de 2008. Quando cheguei e vi a fila que descia a Praça da Matriz e passava do Theatro São Pedro, pensei: onde vão botar tanta gente?

          Não iriam botar. Os que estavam na fila já eram os retardatários e não entrariam no auditório. E quem estava lá dentro? Jovens, jovens, jovens aos borbotões. Não, não eram os velhos da geração pós-68, que aprenderam a enxergar a História da América Latina de outro jeito, a partir de Galeano. Jovens amontoavam-se nas escadarias.

          O uruguaio morreu nesta segunda-feira em sua casa em Montevidéu, aos 74 anos. Galeano já havia, há muito tempo, conseguido um feito raro na literatura: autor e obra ganharam perenidade, apesar das tentativas neoliberais de desqualificá-los. Os jovens queriam ver e ouvir Galeano, e não só ler o que ele escreveu.

          Na entrevista, Ruy tentava, compreensivelmente, falar de Galeano. E o uruguaio abria seu caderninho minúsculo, com anotações em letras microscópicas, como se dissesse: eu quero que a minha obra fale. E lia trechos dos seus sueltos:

          – Pois bem, quando eu já não estiver, o vento estará, continuará estando.
Galeano hipnotizava. Já havia sido assim no Fórum Social Mundial, em 2001, na fala mais concorrida do evento.

          Esse cara enriqueceu muita gente que usou o seu Veias Abertas da América Latina como pretexto para produzir contrapontos medíocres. Diziam que Galeano era demasiado engajado e lírico, que glamourizava selvagens e que, no fundo, queria apenas fazer sua pregação comunista.

          Duas semanas antes da sua vinda em 2008, o entrevistei por e-mail. Estava paciencioso e feliz porque, um ano antes, se livrara de um câncer. Respondia o que eu perguntava, eu enviava outras perguntas, ele voltava a responder, sem nunca reclamar da minha insistência.

          Por coerência entre literatura e política, Galeano pensou a América Latina na terra que nos deu Mujica. Sem ele, é provável até que um outro nos ajudasse a ler História de um outro jeito. Mas Galeano foi o único a nos oferecer essa História com tanta delicadeza e tanta poesia. Pois bem, seu vento continuará estando.

LONGE DAS ALDEIAS

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∗LANÇAMENTO∗

Robertson Frizero é escritor, tradutor, dramaturgo e professor de oficinas literárias. Mestre pela PUCRS, teve seu livro de estreia, o infantil Por que o Elvis não latiu? (2010), indicado como finalista do Prêmio Açorianos de Literatura (2011). Primeira narrativa longa do autor porto-alegrense e mais uma novidade de ficção no mercado editorial sulino, Longe das aldeias conta a história de Emanuel, um jovem de 17 anos, que, mirado em seus próprios traços físicos, tenta recompor as características do pai que não conheceu em virtude de circunstância dramática: quando garoto, migrou com a mãe para o Brasil em fuga de uma guerra civil. Próximo da maioridade, o jovem, concebido em meio ao caos do conflito armado, inicia a jornada de busca da identidade paterna. Para alcançar seu objetivo, porém, terá de enfrentar um desafio: percorrer as memórias da mãe, que sofre de uma doença que a faz se esquecer do passado. O romance desdobra-se a partir do núcleo familiar composto por Emanuel, o protagonista, a mãe, Marija, a tia, Mirna, e o buscado pai, ingredientes que, na opinião do comentador Gustavo Melo Czekster, revelam “o amor como um jogo de neblina e de espelhos e trata(m) a vida como uma longa história repleta de reticências e de pontas soltas”.

 FRIZERO, Robertson. Longe das aldeias. Porto Alegre: Terceiro Selo, 2015. 96 págs. R$ 32,90.

FUNDO DO POÇO

            Teve um tempo, na minha infância, que éramos prevenidos a não nos aproximarmos do bocal do poço.

            Refiro-me, sim, à cisterna que tínhamos no pátio de casa. Minha avó, sempre exagerada em seus zelos, era a principal guardiã do reservatório, considerando-o zona proibida à circulação da criançada. Mais tarde, quando cheguei a uma idade confiável, foi com sede de quem desvenda mistério grande que espiei pela primeira vez para o fundo escuro daquela cratera. Causou um misto de medo e fascínio olhar o brilho opaco da água silenciosa.

            Quanto mistério escondia-se na profundidade soterrada do fundo de nosso pátio! Quem, nestas condições, um dia mirou fundo de poço, sabe que, neste mundo, há que se ter atenção para esses sumidouros disfarçados. Que o digam os mouros, tão acostumados à inclemência dos desertos, que, em tempos primitivos, foram logo se meter em um poço para se refugiar dos cristãos. Reza a lenda que se tocaram a cavar terra adentro, com a esperança de nunca chegarem ao fundo. A coisa andou até ouvirem uma voz misteriosa que os fez retornarem à superfície, pensando tratar-se de sinal de outro mundo. Por precaução, antes de abandonarem a empreitada, fecharam uma porta, para que as almas de lá não passassem para cá. E é por isso que essas almas insondáveis, quiçá perigosas, habitam nas profundezas, de onde estão sempre aguardando nosso mau passo.

            Naquela época, em todo o caso, o petróleo estava muito longe de se tornar a poderosa moeda que azedou a Petrobras. Pior para nós, que vivemos nesta era em que os sortilégios caíram em descrédito e todo o mundo se põe a cavar impunemente, soltando pela terra tanta cobiça e tanta ilicitude. Até em nosso Brasil grandão, que nem teve assim tanta influência da mouraria, acabamos atarantados com califas e vizires que grassam na política nacional, vindos sabe-se lá de que vazantes.

            O pior é que essa gente, definitivamente, parece não temer o fundo do poço. Acertado mesmo está o Verissimo, para quem, no Brasil, o fundo do poço é apenas uma etapa.