A SEGUNDA PÁTRIA

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A ficção científica é uma forma literária que lida, principalmente, com o impacto da ciência, tanto verdadeira como imaginada, sobre a sociedade ou os indivíduos. Seu exercício mais freqüente é colocar em marcha uma espécie de invasão de futuro. O que acontece, porém, quando a livre imaginação envolve fatos já consagrados do passado histórico? Este é o desafio lançado pelo escritor paranaense Miguel Sanches Neto (Hóspede secreto, Contos para ler no bar, A primeira mulher, entre outros). O ponto de partida de A segunda pátria repousa em transformar a posição do Brasil na Segunda Guerra Mundial, colocando-nos como aliados do Eixo. Como parte do acordo, é estabelecido que os estados do Sul, com grande presença de descendentes alemães, podem pôr em prática os princípios do nazismo, como o racismo, o antissemitismo e a eugenia. Em Blumenau, à medida que a saudação Heil Hitler se torna corriqueira, o engenheiro Adolpho Ventura convive atônito com o progressivo cerceamento de sua liberdade. Seu crime é ser negro e pai de uma criança mestiça. Em meio a isso, num clima de mistério e tensão, a jovem Hertha, que encarna todos os predicados da superioridade ariana, recebe uma inusitada missão. Com o uso de violência e sensualidade, Miguel Sanches Neto revela uma paixão proibida, enquanto subverte os fatos para criar um Brasil que não está nos livros de história, mas nem por isso deixa de ser assustadoramente plausível.

SANCHES NETO, Miguel. A segunda pátria. Curitiba: Intrínseca, 2015. 320 pags. R$ 35,00.

O FAROL DA SOLIDÃO

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Alcy Cheuiche, em uma centena e meia de páginas, resume mais de dois séculos de história. Através do ponto de vista da personagem principal, o romance privilegia aspectos importantes da biografia de Carlos Santos, jornalista, sindicalista e político, primeiro negro a ser eleito presidente da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul entre 1968 e 1969. O relato volta no tempo e nessa linha de valorizar a luta abolicionista recria o quilombo causador do naufrágio do navio inglês Principe de Gales, origem da Questão Christie (1862-1865), que levou Dom Pedro II a romper relações com a Inglaterra. Tudo isso em torno do argumento central do livro que é a história de um sujeito isolado, voluntariamente, do convívio humano. Cheuiche retorna, assim, com a criatividade de sempre, ao romance histórico, gênero através do qual já retratou, ao longo de sua obra, personagens e fatos importantes da realidade brasileira.

CHEUICHE, Alcy. O farol da solidão. Porto Alegre: AGE, 2015. 145 pags. R$ 30,00

ALMANAQUE DO LUPI 100 ANOS

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O livro é organizado em capítulos temáticos. Ao tópico de abertura, seguem-se pequenos textos, notas, e profusão de ilustrações. Tudo isso para dispor, de maneira cronológica, vida e obra de Lupicínio Rodrigues, entre 1880 (nascimento do pai em Canguçu) e 1974 (a morte no Hospital Ernesto Dornelles, dias antes de completar 60 anos). Trechos de letras de músicas pontuam todas as páginas. No final, está a lista das 286 canções conhecidas, registradas ou não em editoras, os discos gravados por ele e por outros, os livros e trabalhos acadêmicos sobre sua obra. O autor, Marcello Campos, tem credencial. Jornalista e pesquisador, Marcello vinha mirando em Lupicínio desde que publicou seu primeiro trabalho, Week-end no Rio (2006), sobre o Conjunto Melódico Norberto Baldauf. Considerando a dificuldade prática de biografar o gênio da dor-de-cotovelo, o autor fez verdadeira preparação de campo, atividade que resultou em dois outros títulos: Minha Seresta – Vida e Obra de Alcides Gonçalves, de 2011, que versa sobre quem primeiro gravou Lupi e um de seus principais parceiros; e Johnson – O Boxeur-cantor, de 2013, sobre o maior amigo e compadre de Lupi. Almanaque integra as comemorações do centenário de nascimento do compositor e músico, ocorrido em 2014.

CAMPOS, Marcello. Almanaque do Lupi. 100 anos. Porto Alegre: Editora da Cidade/Letra&Vida, 2015. 102 pags. R$ 40,00.

PROSCRITOS

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Publicado pela Editora Siglaviva e lançado no final do ano passado, trata-se do segundo livro da trilogia Os flagelantes (o primeiro é Endiabrados, de 1980, e o último, A terceira vigília, permanece inédito). Proscritos foi produzido em 1964 e, devido às conturbações que se seguiram ao golpe militar, o autor manteve o material engavetado. Após sua morte, ocorrida em 85, os manuscritos inéditos foram transferidos para o acervo da PUCRS. Recuperados por Camilo Mattar Raabe, tornaram-se objeto de dissertação de mestrado em Letras. Camilo também assina o posfácio da edição na qual trabalhou, para, finalmente, emprestar à luz do público este mais este texto revelador do consagrado ficcionista gaúcho.

MACHADO, Dyonelio. Proscritos. (fixação de Camilo Mattar Raabe). Porto Alegre: Siglaviva, 2014. 240 pags. R$ 35,00.

LITERATURA EM TEMPOS DE INTERNET

              Há uns três anos, em uma Feira do Livro, dei-me conta do quanto é significativa a parcela do que podemos chamar de circuito de escritores blogueiros.

            Refiro-me à comunidade que se dirige diretamente ao mercado jovem, publica obras sintonizadas com o universo de consumo rápido e adaptadas ao internetês. A pergunta que não quer calar é: até onde ainda se sustentam os parâmetros que deram guarida a um conceito de arte que, no caso da literatura, depositou no livro a ideia de uma mercadoria cuja lógica de circulação nunca perdeu de vista certos reguladores advindos do campo da estética e das instituições sustentadoras desse campo?

            De acordo com os referidos parâmetros, há diferença entre o livro que veicula grande literatura e o livro cujo conteúdo dispensa essa preocupação. O primeiro singulariza-se por qualidade e permanência; o segundo, por ser raso e transitório.

            Foi o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) quem nos ensinou que a produção e a circulação de bens simbólicos é regulada por essa oposição entre procedimentos restritivos e estratégias de massa. De um ou de outro modo, o conceito de autor e a centralidade do mercado editorial tornaram-se pilares sustentadores do processo.

            Com o advento da internet, essas duas figuras – autor e editora – perdem espaço. E é aí que entram os blogueiros. Terminou a era do “não tenho quem me publique”. Em outras palavras: perdeu terreno o monopólio dos grupos editoriais e de comunicação. E, com isso, começou uma nova era sob o imperativo que aponta cada vez mais a impossibilidade de construir sozinho o passado e de atualizar o presente à deriva da imensa comunidade que se aventura pelos horizontes amplos da internet.

            Isso significa que há novos agentes no mercado. No mínimo, altera-se a equação que, historicamente, tem colocado a crítica e o cânone acadêmico na regulação da prática de autores e na estrutura de hábitos de leitura. Até que ponto isso modificará os conceitos de literatura e de arte é cedo para saber. Valha-nos, em todo o caso, a sentença do Barão de Itararé: “há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira”.

PILATOS E JESUS

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Influente filósofo e historiador de origem italiana, profundo conhecedor das obras de Walter Benjamin, Heidegger, Nietzsche e Foucault, Giorgio Agamben mostra como o encontro fugaz entre Pilatos e Jesus colocou em jogo um evento enorme e inédito. Trata-se de ensaio breve, saliente por destacar que em nenhum outro momento a eternidade cruzou a história de modo tão contundente. Há tempos, Giorgio Agamben vem construindo uma obra extensa que visa a dar conta, entre outras coisas, dos desafios próprios à ação política na contemporaneidade. É o que também procura fazer neste Pilatos e Jesus, aproximando atualidade e passado distante ao observar a forma do processo que foi montado à época. A tradução é de Patricia Peterle e Silvana de Gaspari. O selo é Boitempo em consórcio com a Editora da UFSC.

AGAMBEN, Giorgio. Pilatos e Jesus. Trad. Patricia Peterle e Silvana de Gaspari. São Paulo: Boitempo; Florianópolis: Editora UFSC, 2014. 80 pags. R$ 28,00

JOÃO SIMÕES FAZ 100 ANOS

              No dia 9 de março, completaram-se 150 anos do nascimento de João Simões Lopes Neto, expoente da literatura rio-grandense.

            Referir João Simões é, na verdade, falar de um desses talentos naturais da espécie humana que, como disse uma vez o Sérgio Jockymann, em contexto diverso, Deus coloca no mundo de tempos em tempos para que os demais não percam a esperança.

            Refiro-me ao gênio, à inspiração, esse algo que parece vir do fundo do caráter ou do espírito, da própria natureza de um ser, atributos que já foram considerados dons divinos.  Trata-se de uma força criadora internalizada como uma espécie de espírito ou emanação de um eu profundo. Seja mítica ou não a natureza de sua fonte, a verdade é que dessa origem rara, atributo de poucos, chega-se à designada autonomia crescente de uma faculdade – o talento, a genialidade – que, na arte em geral, acaba designando facilidade certeira de observação e percepção.

            Em Simões Lopes, talento natural e obsessão se uniram para compor o estro de um escritor perdido na provinciana Pelotas do início do século XX. Dilacerado ante as solicitações da cidadania e a sedução do imaginário, cresceu entre a identificação com sua classe (proprietários, ricos, brancos e letrados) e os seus avessos (peões, pobres, iletrados). Tolerante, buscou compreender as ideias em choque nesses dois mundos. Muitas vezes, confundiu seu amor por homens e mulheres concretos de sua história pessoal, dispersando-o em abstrações: os gaúchos, os brasileiros, a nação, a pátria.

            De como desses descaminhos amorosos e existenciais chegou à literatura e, daí, à glória póstuma, é mistério insondável. A verdade é que, passados 150 anos de seu nascimento e 99 de sua morte, somente cresce o reconhecimento da verdadeira revolução que sua arte – de resto, pequena em extensão – causou na literatura regional brasileira. Testemunho de talento raro, registro que comove e, como diz Roland Barthes, segura o olhar.

O CORONEL E O LOBISOMEM

O coronel e o lobisomem

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Título que inaugura, no mercado editorial brasileiro, o projeto da Companhia das Letras de reedição das obras de José Cândido de Carvalho (1914-1989). O livro saiu originalmente em 1964 e continua sendo, até hoje, destaque do fértil veio da literatura regionalista. A adaptação para o cinema, em 2005, com direção de Maurício Farias e Diogo Vilela de protagonista, reforçou vigor da fatura literária. Conta a história de Ponciano de Azevedo Furtado, cujo juízo agrava-se depois de trocar o campo pela cidade. Tudo isso, porém, numa linguagem viva, com situações que alternam o humor e o fantástico e com direito a sereias, onças, rabos de saia e – claro – o dito lobisomem do título.

CARVALHO, José Candido de. O coronel e o lobisomem. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 408 pags. R$ 49,00.

O BRILHO DO BRONZE

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Diário escrito pelo historiador Boris Fausto (84 anos, professor aposentado da USP, autor da canônica História do Brasil). A princípio, voltado a reflexões dolorosas acerca do luto pela perda da esposa, companheira por 49 anos, os escritos pouco a pouco se abrem para o cotidiano concreto, ainda que envolto pela marca da ausência. O resultado revela um olhar crítico e atento à vida contemporânea, permeado pelo senso de humor inabalável do autor. O elemento central da narrativa, que motiva o título, é a lápide num túmulo do cemitério do Morumbi, em São Paulo. Em suas visitas, o autor do diário se demora diante da lápide, examina cada um dos seus contornos, passa ternamente os dedos no nome ali inscrito, letra a letra. Traz flores para enfeitá-la. Contrata um funcionário para que a mantenha sempre brilhante. A lápide não é, definitivamente, só uma lápide. A certa altura, escreve: “Não consigo e nem quero pensar que há ali apenas um memorial. Prefiro pensar que, de algum modo, nos comunicamos com muito amor”. O título leva o selo da Cosac Naify.

FAUSTO, Boris. O brilho do bronze. São Paulo: Cosac Naify, 2014. 140 pags. R$ 40,00.