TUPÃ DONA DA NOITE

            Das tantas recordações que me tocam da velha Rádio Tupã, na qual trabalhei como locutor entre 1974 e 1977, restou uma, materializada na moldura da parede. É um diploma que recebi, com pompa, em jantar festivo no Clube Comercial. Tenho vaga lembrança do nervosismo engomado daquela noite e de minhas mãos trêmulas segurando a comenda conferida a “Tupã Dona da Noite”.

            Bem mais à vontade, por certo, do alto de meus quinze anos, me perfilava no velho estúdio da General Osório, onde, das nove à meia noite, comandava o tom romântico, recheado com declamação de poemas e programação musical em geral ditada pelas cartinhas chegadas ao longo do dia e pelos bilhetinhos que os ouvintes, ligados no som do carro, depositavam na rádio enquanto circulavam, aos pares ou em turmas, naquela época de combustível farto e barato.

            (Esta experiência de fazer rádio noturno, em verdade, não passou do primeiro ano de uma carreira que continuaria de forma ininterrupta por bem mais de uma década e que ainda repercute na lembrança bondosa de tantos amigos. Lembro que, ao fim do curso ginasial, pedi transferência de aula para o turno da noite e, definitivamente, daí para a frente, concentrei o trabalho durante o dia e elegi o foco do jornalismo e do esporte, funções que, mais tarde, me trouxeram para Santa Maria e para o prefixo da Rádio Guarathan).

            O “Tupã Dona da Noite” era completamente inspirado – inclusive no nome e na eleição da cortina musical – no “Itaí Dona da Noite”. No entanto, corria em faixa própria, uma vez que a concorrente da capital não tinha potência suficiente para nos alcançar em Tupanciretã.

            A propósito do “Dona da Noite” porto-alegrense, é impressionante como tem gente insuspeita que confessa saudade daqueles tempos pré-fm. Para citar um exemplo, não faz muito, o jornalista David Coimbra registrou um post nostálgico que ilustra o prestígio do indigitado congênere:

Eu tinha lá meus 12 anos e namorava uma gatinha chamada Silvia Lemos. Namoro é forma de falar. Naquele tempo era coisa inocente, de pegar na mão e beijar no rosto e pronto. Mas era uma emoção, cara. A maior paixão. O irmão da Silvia Lemos era o meu melhor amigo, o Nique. Por coincidência, ele namorava com a minha irmã, que, por outra coincidência, também se chama Silvia. Então ficávamos nós dois com nossas Silvias, os quatro mais brincando que namorando, crianças que éramos, mas, de alguma forma, flutuando encantados nos primeiros vagidos do amor. Um dia, eu e o Nique ligamos para a rádio Itaí [Dona da noite] a fim de oferecer uma música para as nossas garotas. Pedimos o sucesso do momento e ouvimos enlevados no radinho de pilha, olhando para o céu azul-escuro de Porto Alegre através da janela do meu quarto às margens da Avenida Plínio Brasil Milano.

            Com o depoimento do David me dei conta de que, na verdade, registros radiofônicos como aqueles musicais notívagos dos anos 70 encarnavam um espírito lovemeter bem próprio da época. Prova está no grande apelo público que alcançaram.

            Em reconhecimento a esse espírito – e como tributo à minha empreitada juvenil, ora bolas – o prefixo musical daquela ode à vida. Na Rádio Tupã era a segunda faixa do lado A de um compacto duplo do Herb Alpert. A música chama-se “Mae”. Terminados os comerciais, com seus acordes ao fundo, caprichando nos graves e cuidando para não espichar conversa, o que era uma das marcas do horário, infalivelmente eu entrava com o Tupããã – Dooona da noite, dava a hora, registrava os ouvintes e anunciava as próximas duas músicas.

            Então, com vocês, Mae – Herb Alpert & Tijuana Brass…

         Mae. Herb Alpert & Tijuana Brass. A&M Records, 1965

ÁGUAS REVOLTAS

            Há tempos mantenho certa distância dos temas político-partidários e um olhar enviesado sobre a cobertura da grande mídia.

            Da Veja a Globo, passando por Época, Istoé e Folha, as manchetes pautam a compreensão média das ruas que é de crescente hostilidade a políticos e governantes. Ganha corpo o discurso de que vivemos no pior dos mundos, sob águas revoltas de um denuncismo hipócrita.

            O escritor e economista Eduardo Gianetti, em seu livro Autoegano, apresenta uma visão original sobre a necessidade que temos de nos iludir em determinados momentos, e as implicações éticas envolvidas nesta escolha. O autoengano ocorre quando você passa a desejar ardentemente que algo aconteça. Esse desejo é mobilizador: você começa a achar motivos para que ele se realize.

            Motivos, de fato, não faltam. Essa questão da Petrobras, por exemplo, é das mais escusas: o clima de terra arrasada em cima de uma petrolífera que é das maiores do mundo e tem uma história que é orgulho nacional. É preciso lembrar que há alguns anos a ideia era transformá-la em Petrobrax. A quem interessa esse clima inquisitorial, de caráter midiático, com alvos ardilosamente editados? E onde estão os elos perdidos de um processo cuja história recente já tem, pelos menos, 20 anos?

            Digo isso não para ser contra ou a favor de uns e outros, mas em nome de um pouquinho de bom senso. Somos um povo maravilhoso, sim, mas de imaginação exacerbada e que oscila muito. Ora nos achamos eleitos, abençoados por Deus e bonitos por natureza, ora viramos um desastre, um fracasso. O complexo de vira-lata é o avesso do ufanismo. São os dois lados da mesma moeda.

            É aquela história: cautela e caldo de galinha… Quando a grande mídia se pauta pela delação premiada de sujeitos que mais querem é salvar a própria pele, é hora de recobrar a razão e nos vacinar contra o autoengano. Ademais, como sugere o inspirado verso de Fernando Pessoa: “navegar é preciso; viver não é preciso”.

AOS CANALHAS QUE QUEREM DESTRUIR A PETROBRAS

Com o título de “Aos canalhas que querem destruir a Petrobras”, o jornal digital Brasil 247 publicou nesta terça-feira, 03/2, texto de um dos jornalistas que faz a diferença em meio ao blá blá blá da dita crise moral do governo Dilma: Mauro Santayana, 83, colunista político do Jornal do Brasil e comentarista de Carta Capital. Paixões políticas à parte, o texto de Santayana é daqueles que valoriza a perspectiva histórica, ajuíza dados e fatos para solidificar os argumentos e, verdadeiramente,  bota a cabeça pra pensar…

 

     O adiamento do balanço da Petrobras do terceiro trimestre do ano passado foi um equívoco estratégico da direção da companhia, cada vez mais vulnerável à pressão que vem recebendo de todos os lados, que deveria, desde o início do processo, ter afirmado que só faria a baixa contábil dos eventuais prejuízos com a corrupção, depois que eles tivessem, um a um, sua apuração concluída, com o avanço das investigações.

     A divulgação do balanço há poucos dias, sem números que não deveriam ter sido prometidos, levou a nova queda no preço das ações.

   E, naturalmente, as novas reações iradas e estapafúrdias, com mais especulação sobre qual seria o valor — subjetivo, sujeito a flutuação, como o de toda empresa de capital aberto presente em bolsa — da Petrobras, e o aumento dos ataques por parte dos que pretendem aproveitar o que está ocorrendo para destruir a empresa — incluindo hienas de outros países, vide as últimas idiotices do Financial Times – que adorariam estraçalhar e dividir, entre baba e dentes, os eventuais despojos de uma das maiores empresas petrolíferas do mundo.

     O que importa mais na Petrobras?

    O valor das ações, espremido também por uma campanha que vai muito além da intenção de sanear a empresa e combater eventuais casos de corrupção e que inclui de apelos, nas redes sociais, para que consumidores deixem de abastecer seus carros nos postos BR; à aberta torcida para que “ela quebre, para acabar com o governo”; ou para que seja privatizada, de preferência, com a entrega de seu controle para estrangeiros, para que se possa — como afirmou um internauta — “pagar um real por litro de gasolina, como nos EUA”?

     Para quem investe em bolsa, o valor da Petrobras se mede em dólares, ou em reais, pela cotação do momento, e muitos especuladores estão fazendo fortunas, dentro e fora do Brasil, da noite para o dia, com a flutuação dos títulos derivada, também, da campanha antinacional em curso, refletida no clima de “terrorismo” e no desejo de “jogar gasolina na fogueira”, que tomou conta dos espaços mais conservadores — para não dizer golpistas, fascistas, até mesmo por conivência — da internet.

    Para os patriotas, e ainda os há, graças a Deus, o que importa mais, na Petrobras, é seu valor intrínseco, simbólico, permanente, e intangível, e o seu papel estratégico para o desenvolvimento e o fortalecimento do Brasil.

    Quanto vale a luta, a coragem, a determinação, daqueles que, em nossa geração, foram para as ruas e para a prisão, e apanharam de cassetete e bombas de gás, para exigir a criação de uma empresa nacional voltada para a exploração de uma das maiores riquezas econômicas e estratégicas da época, em um momento em que todos diziam que não havia petróleo no Brasil, e que, se houvesse, não teríamos, atrasados e subdesenvolvidos que “somos”, condições técnicas de explorá-lo?

    Quanto vale a formação, ao longo de décadas, de uma equipe de 86.000 funcionários, trabalhadores, técnicos e engenheiros, em um dos segmentos mais complexos da atuação humana?

     Quanto vale a luta, o trabalho, a coragem, a determinação daqueles, que, não tendo achado petróleo em grande quantidade em terra, foram buscá-lo no mar, batendo sucessivos recordes de poços mais profundos do planeta; criaram soluções, “know-how”, conhecimento; transformaram a Petrobras na primeira referência no campo da exploração de petróleo a centenas, milhares de metros de profundidade; a dezenas, centenas de quilômetros da costa; e na mais premiada empresa da história da OTC – Offshore Technology Conferences, o “Oscar” tecnológico da exploração de petróleo em alto mar, que se realiza a cada dois anos, na cidade de Houston, no Texas, nos Estados Unidos?

     Quanto vale a luta, a coragem, a determinação, daqueles que, ao longo da história da maior empresa brasileira — condição que ultrapassa em muito, seu eventual valor de “mercado” — enfrentaram todas as ameaças à sua desnacionalização, incluindo a ignominiosa tentativa de alterar seu nome, retirando-lhe a condição de brasileira, mudando-o para “Petrobrax”, durante a tragédia privatista e “entreguista” dos anos 1990?

     Quanto vale uma companhia presente em 17 países, que provou o seu valor, na descoberta e exploração de óleo e gás, dos campos do Oriente Médio ao Mar Cáspio, da costa africana às águas norte-americanas do Golfo do México?

     Quanto vale uma empresa que reuniu à sua volta, no Brasil, uma das maiores estruturas do mundo em Pesquisa e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, trazendo para cá os principais laboratórios, fora de seus países de origem, de algumas das mais avançadas empresas do planeta?

    Por que enquanto virou moda — nas redes sociais e fora da internet — mostrar desprezo, ódio e descrédito pela Petrobras, as mais importantes empresas mundiais de tecnologia seguem acreditando nela, e querem desenvolver e desbravar, junto com a maior empresa brasileira, as novas fronteiras da tecnologia de exploração de óleo e gás em águas profundas?

    Por que em novembro de 2014, há apenas pouco mais de três meses, portanto, a General Electric inaugurou, no Rio de Janeiro, com um investimento de 1 bilhão de reais, o seu Centro Global de Inovação, junto a outras empresas que já trouxeram seus principais laboratórios para perto da Petrobras, como a BG, a Schlumberger, a Halliburton, a FMC, aSiemens, a Baker Hughes, a Tenaris Confab, a EMC2 a V&M e a Statoil?

     Quanto vale o fato de a Petrobras ser a maior empresa da América Latina, e a de maior lucro em 2013 — mais de 10 bilhões de dólares — enquanto a PEMEX mexicana, por exemplo, teve um prejuízo de mais de 12 bilhões de dólares no mesmo período?

    Quanto vale o fato de a Petrobras ter ultrapassado, no terceiro trimestre de 2014, a EXXON norte-americana como a maior produtora de petróleo do mundo, entre as maiores companhias petrolíferas mundiais de capital aberto?

     É preciso tomar cuidado com a desconstrução artificial, rasteira, e odiosa, da Petrobras e com a especulação com suas potenciais perdas no âmbito da corrupção, especulação esta que não é apenas econômica, mas também política.

     A PETROBRAS teve um faturamento de 305 bilhões de reais em 2013, investe mais de 100 bilhões de reais por ano, opera uma frota de 326 navios, tem 35.000 quilômetros de dutos, mais de 17 bilhões de barris em reservas, 15 refinarias e 134 plataformas de produção de gás e de petróleo.

     É óbvio que uma empresa de energia com essa dimensão e complexidade, que, além dessas áreas, atua também com termoeletricidade, biodiesel, fertilizantes e etanol, só poderia lançar em balanço eventuais prejuízos com o desvio de recursos por corrupção, à medida que esses desvios ou prejuízos fossem “quantificados” sem sombra de dúvida, para depois ser — como diz o “mercado” — “precificados”, um por um, e não por atacado, com números aleatórios, multiplicados até quase o infinito, como tem ocorrido até agora.

    As cifras estratosféricas (de 10 a dezenas de bilhões de reais), que contrastam com o dinheiro efetivamente descoberto e desviado para o exterior até agora, e enchem a boca de “analistas”, ao falar dos prejuízos, sem citar fatos ou documentos que as justifiquem, lembram o caso do “Mensalão”.

     Naquela época, adversários dos envolvidos cansaram-se de repetir, na imprensa e fora dela, ao longo de meses a fio, tratar-se a denúncia de Roberto Jefferson, depois de ter um apaniguado filmado roubando nos Correios, de o “maior escândalo da história da República”, bordão esse que voltou a ser utilizado maciçamente, agora, no caso da Petrobras.

     Em dezembro de 2014, um estudo feito pelo instituto Avante Brasil, que, com certeza não defende a “situação”, levantou os 31 maiores escândalos de corrupção dos últimos 20 anos.

     Nesse estudo, o “mensalão” — o nacional, não o “mineiro” — acabou ficando em décimo-oitavo lugar no ranking, tendo envolvido menos da metade dos recursos do “trensalão” tucano de São Paulo e uma parcela duzentas menor que a cifra relacionada ao escândalo do Banestado, ocorrido durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso, que, em primeiríssimo lugar, envolveu, segundo o levantamento, em valores atualizados, aproximadamente 60 bilhões de reais.

     E ninguém, absolutamente ninguém, que dizia ser o mensalão o maior dos escândalos da história do Brasil, tomou a iniciativa de tocar, sequer, no tema — apesar do “doleiro” do caso Petrobras, Alberto Youssef, ser o mesmo do caso Banestado — até agora.

     Os problemas derivados da queda da cotação do preço internacional do petróleo não são de responsabilidade da Petrobras e afetam igualmente suas principais concorrentes.

     Eles advém da decisão tomada pela Arábia Saudita de tentar quebrar a indústria de extração de óleo de xisto nos Estados Unidos, aumentando a oferta saudita e diminuindo a cotação do produto no mercado global.

     Como o petróleo extraído pela Petrobras destina-se à produção de combustíveis para o próprio mercado brasileiro, que deve aumentar com a entrada em produção de novas refinarias, como a Abreu e Lima; ou para a “troca” por petróleo de outra graduação, com outros países, a empresa deverá ser menos prejudicada por esse processo.

     A produção de petróleo da companhia está aumentando, e também as descobertas, que já somam várias depois da eclosão do escândalo.

     E, mesmo que houvesse prejuízo — e não há — na extração de petróleo do pré-sal, que já passa de 500.000 barris por dia, ainda assim valeria a pena para o país, pelo efeito multiplicador das atividades da empresa, que garante, com a política de conteúdo nacional mínimo, milhares de empregos qualificados na construção naval, na indústria de equipamentos, na siderurgia, na metalurgia, na tecnologia.

     A Petrobras foi, é e será, com todos os seus problemas, um instrumento de fundamental importância estratégica para o desenvolvimento nacional, e especialmente para os estados onde tem maior atuação, como é o caso do Rio de Janeiro.

     Em vez de acabar com ela, como muitos gostariam, o que o Brasil precisaria é ter duas, três, quatro, cinco Petrobras.

    É necessário punir os ladrões que a assaltaram?

     Ninguém duvida disso.

     Mas é preciso lembrar, também, uma verdade cristalina.

     A Petrobras não é apenas uma empresa.

     Ela é uma Nação.

     Um conceito.

     Uma bandeira.

     E por isso, seu valor é tão grande, incomensurável, insubstituível.

     Esta é a crença que impulsiona os que a defendem.

    E, sem dúvida alguma, também, a abjeta motivação que está por trás dos canalhas que pretendem destruí-la.

 

RANZOLIN

Se o rádio esportivo um dia teve uma voz de comando, esta se chamou Armindo Antonio Ranzolin. Com ele ao microfone, tudo se coordenava: os repórteres, o plantão, a estatística, os demais resultados e, se facilitasse, até jogadores e torcedores. Na verdade, minha geração aprendeu a gostar de futebol ouvindo rádio. O grande narrador era Pedro Carneiro Pereira. Ranzolin foi seu substituto naquela lendária equipe da Rádio Guaíba (Milton Jung, Lauro Quadros, Rui Carlos Osterman, João Carlos Belmonte…). Por um tempo, fomos viúvas do Pedro Pereira, tragicamente falecido. Ranzolin parecia muito cadenciado, empacava no meio da frase. Não custou para que todos descobrissem o grande narrador e se acostumassem ao seu raro senso de comando nas jornadas, antes, durante e depois dos jogos. Seu grito seco de gol foi conquistando nossos ouvidos. Sério e equilibrado, aperfeiçoou um estilo que lembrava Oduvaldo Cozzi com as definições espontâneas – espécies de traduções do jogo – que iam se somando a cada lance.

Grenal válido pela semifinal do Brasileirão/88.Chamado de Grenal do Século. Estádio Beira-Rio,12/02/1989. Nilson, 26 do segundo tempo, gol da vitória colorada por 2x1.

Armindo Antonio Ranzolin chegou a Rádio Guaíba em 1969, como segundo narrador. Com a morte de Pedro Carneiro Pereira, em 73, transformou-se o número um, posição que manteve até a aposentadoria, em 2006. Em 84 ingressou na rádio Gaúcha, a última emissora em que trabalhou. Na década de 60 narrou, ainda, na Difusora e Farroupilha. Foi titular em 7 Copas do Mundo (na sequência, de 74 a 94) e transmitiu os grandes feitos do futebol gaúcho na conquista do Brasil, da América e do Mundo.

PONTAS DA VIDA

            Entre os 14 ou 15 anos e até os 20 e tantos a vida é absoluta. A consciência de que se é muito jovem com esta idade chega somente depois dos 30.

            Em todo caso, mesmo sentindo-se senhor de si, quem, como eu, está hoje entre os 50 e os 60, enfrentou, na fase “teen”, a ideia de que o mundo adulto era algo, sob muitos aspectos, inacessível. Talvez, também por isso, muitos entravam cedo no mercado de trabalho, que era uma das formas de romper essa barreira e poder habitar “do lado de lá”.

            Penso nessas equações existenciais porque na última quinta-feira(29/1) completei exatos 40 anos da assinatura de meu primeiro contrato de trabalho. Está na carteira, cuja versão conservo comigo, como testemunha daquela quadra de descobertas. E, por estes caminhos por onde a vida tem me levado, aproveito para externar meu preito a tantos amigos e amigas com os quais nunca me canso de aprender. Hoje, como ontem. De qualquer modo – para retomar o fio da meada -, ter uma carteira assinada e desfrutar das benesses de trabalhar fora aos 15 ou 16 foi algo bastante ordinário para minha geração.

            Quando leio as manifestações desse menino sergipano de 14 anos que acaba de passar no vestibular de medicina e ganha na justiça o direito de ingressar no ensino superior, com a perspectiva de estar formado aos 20, e percebo suas respostas seguras e bem articuladas, e as comparo com o tempo de meus 14, percebo que precocidade tornou-se algo anacrônico. Afinal, na minha época, acordar cedo para a vida no rumo do trabalho e do estudo, como disse, estava longe de ser incomum.

            O curioso é que, atualmente, diminuiu a distância entre a infância e a vida adulta. Hoje, justamente quando as duas pontas – a dos jovens e a dos maduros – parecem mais próximas, é interessante como os rebentos querem sair mais tarde de casa e como nos espantamos que alguém de 15, como este menino que passou em medicina – se mostre completamente pronto para habitar o universo dos grandes. Como já vaticinava Machado de Assis, coisa difícil é atar as pontas da vida.

PARIS PARA SEMPRE

I

            Há limites para a liberdade de expressão? Por certo que há. Em locais públicos, nem precisamos olhar para o lado para saber que estamos sendo vigiados. Quando sozinhos, a consciência nos vigia.

            Freud classificou como censura as tendências que dominam nossa consciência com a finalidade de inibir outras tendências que lhe são opostas, forçando estas últimas para o inconsciente. Desse modo, fruto do recalque de desejos que podem representar perigo a nossa própria integridade – quiçá a de outros! – tornamo-nos seres sociais e sociáveis. Vem daí a noção – também freudiana – de que a felicidade deve estar subordinada ao sistema estabelecido de lei e ordem. A cultura, como substrato da vida em sociedade, supõe, de acordo com essa ótica, uma rígida sujeição às atividades e expressões socialmente úteis.

            Eis o ponto: o perigo de afirmar que o Charlie Hebdo brincou com fogo e, de certo modo, provocou a reação fundamentalista de que foi vítima, é que quando dizemos isso estamos reforçando um código de conduta – e foi justamente em nome de um código de conduta que agiram os celerados fundamentalistas islâmicos.

            Linhas editoriais como a do Charlie aspiram, justamente, a quebrar todos os protocolos. Com isso, se inscrevem em uma antiga tradição do riso e das expressões satíricas diante da qual o politicamente correto só vale como mais um motivo… de piada. O etnocentrismo, a xenofobia e o conjunto de estereótipos usados para alimentar as piadas e as manifestações que visam a denunciar o ridículo de ordenações sociais à direita e à esquerda, à leste e à oeste – em especial as mais rígidas e mais focadas na noção de verdade – incorporam um estatuto de “licença do riso”, que, aliás, na França, possui uma tradição milenar amplamente alicerçada nas artes e na cultura popular.

            Valha-nos, uma vez mais, o argumento de Freud em O chiste e sua relação com o inconsciente: “o humor, como o são em outros níveis a neurose, a loucura, a embriaguez e o êxtase, é um meio de defesa contra a dor”. Condenar o riso é, pois, condenar nossa válvula de escape contra a dureza de viver.

II

                De onde vem, afinal, esta força oculta que nos afeiçoa a certas cidades que, mesmo distantes geograficamente, sentimos como espaços próximos e familiares?

                Antes de mais nada, isso decorre da capacidade irradiadora lograda por algumas culturas. Às vezes, como é comum no Brasil, o fenômeno se dá no nível da cultura de massa. Nesse aspecto, é impressionante como o Rio de Janeiro e São Paulo, como sedes de nossos impérios de comunicação social, desde cedo multiplicaram suas atrações sobre os mais remotos rincões do território brasileiro, transformando-se, em contrapartida, em espécies de sínteses da representação nacional para o estrangeiro. Outras vezes, a irradiação se dá através de um sedimento cultural composto por uma teia de manifestações muito mais complexa. Entram aqui aspectos tão variados como a tradição arquitetônica e gastronômica. E entram, principalmente, as vigorosas correntes de pensamento capazes de moldar corpos e mentes pelo mundo afora.

                Desde que Paris, com base nesses últimos postulados, firmou seu nome como capital internacional no século XIX, nenhuma outra cidade alcançou tamanha estatura como matriz do que podemos chamar de alta cultura. Quando falamos em artes ou em filosofia modernas, precisamos reconhecer que, além dos fenômenos genuinamente franceses, boa parte dos grandes nomes alemães, ingleses, espanhóis ou holandeses tornaram-se autênticos cidadãos do mundo depois que, de alguma forma, passaram pela capital francesa.

                O mundo, hoje, talvez não reconheça mais essa proeminência dos parisienses. Na França, porém, esse sentimento de protagonismo e autossuficiência, paradoxalmente ensimesmado e solidário, é o que empurrou milhões de pessoas para as ruas no  ato público exemplar contra o terrorismo. Olhei com emoção as imagens na TV e no computador naquelas primeiras semanas do janeiro que já ficou para trás. E fiquei pensando nos cálidos cafés do Quartier Latin e na Paris que revejo seguidamente pela verve da Raquel Fonseca e da Amanda Scherer, nossas professoras que frequentam aqueles espaços com intimidade e que são, entre nós, exemplos presentes de uma Paris que não morreu nem nunca morrerá.