MI BUENOS AIRES QUERIDO

         CENA 1

             Estou no Terminal Rodoviária do Retiro em Buenos Aires. É início da tarde. Aguardo horário do ônibus para Mar del Plata.

            Faz umas boas duas décadas – ou quase isso – não revejo a capital portenha. Da última vez, a prosperidade ainda grassava por aqui. Foi aquela época do câmbio fixo da década de 90. Um peso valia um dólar. Em 99, mesmo com a maxidesvalorização, o governo manteve a paridade. Em seguida, as exportações caíram, o ministério desandou, a recessão pegou, o PIB despencou e a crise criou raízes, colocando por terra uma das economias mais prósperas da América do Sul.

            Nesse meio tempo, nossa economia, antes a grande vilã do hemisfério, experimentou significativa reação e estabilidade. Penso nisso tudo enquanto espero meu ônibus. Reflito sobre crises e derrocadas e me vem  à memória o quanto nossas culturas vizinhas estão pautadas pela rivalidade.

            Lembro claramente a eclosão da grande crise de 2001, quando se anunciou que a Argentina, enfim, quebrara. Eu estava em São Borja numa missão da universidade – ali do ladinho de Santo Tomé – e não foram poucos os comentários que ouvi, na base do “bem feito pra eles”. É isso: sempre detestamos a soberba argentina assim como eles detestam nosso amadorismo e improvisação.

            De outro modo, é tocante estar aqui e ver os estragos produzidos por esta década e meia de instabilidade econômica. No Retiro observo que a antiga fleuma convive com uma crescente favelização desse belo pedaço da capital. Para chegar-se ao Terminal, por exemplo, é preciso margear uma imensa favela, plantada em um dos extremos deste local amplo e bem projetado. Ao sair do táxi, topamos com mendigos pelos passeios e pedintes de toda ordem. Lá dentro, roupas puídas e sapatos rotos acusam a marca indelével desses tempos bicudos.

            Esta é a Buenos Aires revejo. Aqui deste Terminal do Retiro.

          CENA 2

             Buenos Aires não vive apenas de lamentar os calçados rotos e as vestes puídas impostos pela grave crise econômica.

            Um dia na capital argentina – melhor ainda – uma noite, é tempo suficiente para o turista reencontrar a velha e envolvedora alma portenha. Contornar a esquina da Calle Florida e subir pela Corrientes, em direção ao Obelisco, é entrar naquele universo mágico de luzes, bares, restaurantes e livrarias. Uma espécie de Broadway latino-americana. Gente elegantemente vestida forma fila, circula, embarca e desembarca, enquanto os padrões de luzes indicam as fachadas de atrações que não cessam.

            Para quem curte literatura, estar aqui é reencontrar a alma de Cortázar, Bioy Casares, Ernesto Sabato, Robert Arlt e Jorge Luis Borges, ficcionistas e ensaístas cujas obras certamente foram decisivas para firmar essa vocação para o espetáculo notívago. Em um ensaio antigo publicado nos Estados Unidos, o crítico John  Young salienta a formação platina desses autores. Às margens do Rio da Prata, Buenos Aires não sofreu a experiência de uma intensa miscigenação racial, como em outras regiões da América. Daí decorre a atitude cultural que guarda maior fidelidade aos padrões europeus face às tendências mais agudamente nacionalistas presentes em outras partes do hemisfério.

            Gabriel Garcia Marquez, a propósito, com dose de mordaz ironia, costumava dizer que “Buenos Aires é a última capital europeia do mundo”. Provavelmente, o baixo grau de miscigenação seja, de fato, um dos fatores determinantes dessa cultura. Pero que si, pero que no, é um peso de civilização o que nos espia por de trás das calles e dos monumentos. De sorte que, a Corrientes, a Florida, o Caminito, o Cemitério de La Recoleta, a Casa Rosada, a Catedral e tantas outras referências resistem ao tempo e às crises.

            Rever Buenos Aires é, pois, reencontrar o tipo bem aprumado que caminha com entono pelas áreas centrais. E é, principalmente, rever a arquitetura, os hábitos de consumo, a arte e a gastronomia nos quais continua se expressando esse traço indelével que nos acostumamos a associar com a Europa. É algo excêntrico em meio a nossa indomável latinidade. Mas, para quem aprecia o esforço civilizatório, é lindo de se ver.

SUCESSÃO

 

Por estes dias em que me ocupo entre encerramento do semestre acadêmico e algumas viagens, tem sobrado pouco tempo para dar o ar da graça por aqui. Também por isso, continuo aproveitando para dividir algumas leituras feitas ao correr do tempo. A crônica seguinte é do Luis Augusto Fischer e saiu na ZH de domingo, 09/11/2014. Ainda é sobre o resultado da eleição e há, nela, alguma coisa de geração que o Fischer pega muito bem, como sempre. Segue a reprodução.

     A derrota da candidatura de Tarso Genro ao governo do Estado (e a de Olívio Dutra ao Senado) me deixou com um desconforto que ainda agora estou tentando entender. Não se trata apenas da derrota dos candidatos da minha predileção, nem da vitória do Sartori, a quem, falando nisso, desejo um excelente governo, esperando que se cerque de gente boa e faça o que cabe fazer. Para a Cultura, não são poucos nem são fracos os potenciais secretários. Na minha área, estão aí José Fogaça e Sergius Gonzaga, duas figuras de primeiro nível.

     E, bem, não estou aqui para dar palpites, nem o futuro governo precisa deles, bem sei. Quero é tentar encontrar o fio da meada do meu desconforto. Onde ele começa?


     Acho que é uma certa sensação de orfandade o meu ponto. O primeiro enunciado me surgiu assim: bá, os meus candidatos, agora derrotados, andam na volta dos 70 anos. É certo que hoje em dia ter 70 anos não impede nada em matéria de vida produtiva, até na política, essa arena tão particular e agora tão rebaixada da vida. Mas mesmo assim aos 70 anos a curva da vida é outra que aos 50, nem falar dela aos 40 ou 30. (E aproveito para desejar vida longuíssima e fértil aos setentões em causa.)

     Tarso, Olívio, Raul Pont, Flávio Koutzii, para ficar nos mais notórios líderes petistas do Estado, vêm de pendurar as metafóricas chuteiras eleitorais. O Flávio já tinha largado quatro anos atrás, agora foi o Raul, e os dois se somam aos derrotados de agora. Minha pergunta é: o que se aposenta com eles?

      Não sei responder. Certo que há setentões e mesmo oitentões na ativa, no PT e em outros partidos palatáveis para um eleitor e cidadão como eu, capazes de vir a fazer coisas boas e importantes na gestão pública; mas algo se perdeu nas derrotas e aposentadorias aqui evocadas. E me dou conta de que estou fazendo é um balanço da minha geração.

     Nós, que andamos entre os 50 e os 60, mais ou menos, quem somos, na arena da política? Sem citar nomes, porque não se trata disso (meus deputados são da minha geração e são gente de valor), penso que não obtivemos mais a síntese que os aposentandos eram e simbolizaram – de algum modo, eles reuniam em si as características de serem ao mesmo tempo gente de ação e de formulação, de eleição e palanque, como de pensamento e crítica teórica. Uns mais, outros menos, essas figuras foram e são a maturidade, talvez o zênite, de um específico jeito de ser de esquerda depois da II Guerra Mundial – e aqui é inevitável ajuntar o adjetivo “sartreano” a esse jeito.

     Com o Olívio, o Tarso, o Raul e o Koutzii deu sempre para falar de um grande romance, um filme marcante, um poema, tanto quanto para formular uma leitura da conjuntura política de varejo e para discutir os fundamentos e estruturas do poder. (Evito perguntar ao meu eventual leitor de quantos mais se poderá dizer o mesmo.)

     Sei, ainda dá para falar com eles, que estão aí, com saúde e inteligência, e sei que gente como eu vai continuar a contar com eles. Repito que desejo tê-los perto por décadas ainda, mas não consigo deixar de me sentir um tanto órfão com as aposentadorias e derrotas recentes.


     Diria um latino, já de si uma figura de outra época: “Tempus fugit”. Bem isso.