O GRINGO MANTEGA

Enquanto a maioria dos seus pares pisou em ovos e se esforçou ao máximo para cumprir a fachada da imparcialidade no curso da eleição recém finda, Moisés Mendes fez a diferença. Bateu de frente quando os desafios de abordagem viram-se cercados por todas as patrulhas e quando a opinião pública entornou o caldo da intolerância e da má educação. Não é diferente agora, em meio à baixaria pós resultados. Reproduzo, na íntegra, sua coluna publicada em ZH desta terça, 29/10/2014, que é um exemplo de inteligência e fino trato de matéria que é jornalística e de interesse geral.

    Pretendia escrever sobre os ataques aos nordestinos. Eles escaparam dos holandeses, ainda tentam escapar dos coronéis, da seca e dos racistas em geral. Agora, têm que se livrar dos reacionários do Sul. Que sina. As avós dos agressores deveriam chamá-los para uma conversa. Para falar dos ancestrais, das dificuldades que passaram, por que vieram parar aqui (geralmente porque não tinham nem onde morrer) e por que nenhum de seus descendentes deveria discriminar ninguém. Não seria uma lição de História, mas uma singela aula de dignidade. Mas aí também não se sabe se seria ouvida ou entendida.

     Como disse seu Mércio, o guardinha aqui da Zona Sul: nessa eleição, eu vi nas redes sociais muita briga por pedaço de pau como se fosse osso. Não vou escrever sobre a retomada do massacre contra os nordestinos, porque estaria jogando mais osso no pátio das redes sociais. Vou escrever sobre Guido Mantega, o imigrante italiano que contribuiu para a redução das desigualdades no Brasil.

     A família de Mantega veio de navio para cá em 1951. Ele tinha três anos e meio. O pai, Giuseppe, fazia móveis em Gênova. Queria prosperar em São Paulo e prosperou. O filho deveria cuidar da fábrica depois de formado em Economia, mas decidiu estudar mais e ser militante político. 

     Mantega foi o formulador dos primeiros programas do PT. Esteve ao lado de Lula em todas as derrotas e finalmente virou ministro em 2006, mas só porque Palocci caiu. Hoje, você olha para o ministro e pensa: ele e Patrícia Poeta estão com os dias contados. Mantega deixará a Fazenda no segundo governo Dilma. Mas Mantega continua lá (assim como já avisaram que Patrícia não será mais a parceira de Bonner no JN, e a moça está ali, bela, altiva, cumprindo sua missão até o fim).

     A revista britânica The Economist, bíblia do liberalismo econômico, pediu há dois anos a cabeça de Mantega. Algozes e vozes do mercado pedem a cabeça dele todos os dias, e com agressividade. Mantega deu lógica ao projeto lulista de fazer crescer renda, emprego e consumo pela criação de um vigoroso mercado interno. Os pobres brasileiros passaram a comprar carro e a viajar de avião. Mas a economia parou de crescer. Os incomodados com os pobres que invadem aeroportos e shoppings (e agora ainda podem virar doutores) tiveram então o pretexto da estagnação.
Mantega vai cair, depois de oito anos. Sua cabeça pode acalmar o mercado.

     Quando já sabia que seria demitido, no meio do tiroteio da eleição, o ministro teve o desprendimento de aceitar um debate ao vivo na Globo News com o candidato a ministro da Fazenda tucano Armínio Fraga. Como um debate como aquele poderia ser bom para ele e para o governo? Pois Mantega foi debater com Armínio, apenas pretendente ao posto que não seria mais dele. E uma semana antes da eleição, em defesa da moeda, avisou ao mercado que todos os que conspirassem contra o real se dariam mal.

     Nunca vi, nunca entrevistei, nunca passei perto de um lugar em que estivesse Guido Mantega. Mas me convenci de que desempenhou sua missão como ministro com integridade. Dizem que pode ser embaixador na Itália, para onde voltaria 50 anos depois da viagem de navio para o Brasil. Pela trajetória, porque é odiado pelo mercado e por tudo o que fez para contrariar os interesses de quem se esbaldava com os juros altos, às custas de todos nós, certamente não irá para o setor financeiro – como acontecia nos velhos tempos.

     Que seja um grande embaixador. O gringo Guido Mantega me representa.

PAZ NA TERRA

          Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade. A sentença é tradução, mais ou menos livre, do que está escrito no Evangelho de São Lucas (Lucas 2,14).

          Para mim, antes de mais nada, é evocação de infância e está associada ao rádio. A antiga rádio Tupã, gloriosa Z-Y-U 64, que transmitia na frequência de 1480 quilohertz, “uma emissora a serviço da coletividade”, encerrava suas atividades diárias às 19h. Durante o chimarrão da tardinha, meus pais ouviam o intransponível programa sertanejo (hoje se diria sertanejo de raiz) e, finda a programação, seguia-se o encerramento das transmissões. Na despedida, o locutor, em estilo solene, fechava com o compungido bordão: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”.

          Tantos anos depois, na sala aqui de casa, terminado o jantar e com os resultados das eleições já sacramentados, ao ouvir relatos de meu filho e de minha mulher sobre o que rolava no Facebook, eis que me volta a frase da infância. Fiquei pensando na vida de gente simples como era a nossa, e na importância de se respeitar limites, términos, intervalos.

          Tenho lido na imprensa que a baixaria nas redes sociais continua solta com agressividades de parte a parte. Acredito. Porém, entre os que me cercam – família, colegas de trabalho, amigos – apenas ouvi relatos sobre ofensas, desqualificações e insolências dirigidas ao PT e a seus eleitores. Nessa linha, o cronista Antonio Prata, dizendo-se eleitor de Dilma, afirmou que torceria pela vitória de Aécio por acreditar que a oposição anda precisando de certo choque de realidade, para parar de ver em cada esquina “a ameaça de uma revolução cubana comandada por travestis-negras-maconheiras-aborteiras”.

          Como se não bastasse os desaforos e desqualificações que estouraram a paciência durante a campanha, neste início de semana os desdobramentos tornam a recair sobre negros, pobres e nordestinos. Era, mesmo, só o que nos faltava. Vivemos no Brasil, gente! Temos uma democracia ainda em construção. O governo erra? Erra, sim! Mas, há, também, inegáveis acertos no projeto que está aí e não é com o culto ao ódio e à discriminação que avançaremos na construção de uma sociedade melhor e mais justa para todos. Amadureçamos. Abaixo o rancor. Paz na terra. E boa vontade em todos os corações.

LAVA JATO OU FORA PT?

A tensão eleitoral não apenas cresce em função do debate proporcionado pela propaganda em curso. No início desta semana, coincidindo com a largada para o segundo turno, vazaram na íntegra os depoimentos da chamada delação premiada. Acho que as posições e definições são legítimas e naturais do processo. Porém, honestamente, em nome do senso de equilíbrio que nos resta, é preciso denunciar que a cobertura da grande mídia, neste caso, para dizer o mínimo, é desequilibrada. Sempre acho que a notícia, no Brasil, é pobre em contraponto. Mas, definitivamente, estamos frente à seleção de trechos dos depoimentos que interessam divulgar. Numa passada rápida pelas redes sociais, percebi que o tema está bombando e há depoimentos de norte a sul condenando a divulgação e questionando sua legalidade. Sem querer me alongar no tema – até porque o foco do blog não é bem este, indico o texto do jornalista Luis Nassif, há tempos, uma voz dissonante da mediocridade geral da grande mídia.

SONETOS DE SHAKESPEARE

William Shakespeare

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Chega ao mercado brasileiro, pela Editora Landmark, os Sonetos Completos, de William Shakespeare. Trata-se de edição bilíngue dos 154 sonetos escritos no final do século XVI pelo maior dramaturgo inglês. Sobre a Landmark, é interessante lembrar o rumoroso caso de alguns anos atrás, quando esta editora processou a tradutora Denise Bottmann. À época, Denise mostrara diversas semelhanças entre a tradução do livro Persuasão, de Jane Austin, assinada por Fábio Cyrino, diretor editorial da empresa, e a versão de Isabel Sequeira, publicada pela portuguesa Europa-América em 1996. O processo não prosperou e Denise mantém ativos seus posts contra plagiadores de traduções. Esta de Shakespeare, em todo caso, parece não correr riscos. O trabalho é assinado pelo poeta e escritor Vasco Graça Moura. O livro, originalmente publicado em Portugal em 2002, foi elogiado pela crítica especializada por seu preciosismo.

SHAKESPEARE, William. Sonetos completos. São Paulo: Landmark, 2014. 344 pags. R$ 55,00.

A IDADE DO SERROTE

A idade do serrote

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Publicado originalmente em 1968 e esgotado há muitos anos, era um dos livros difíceis de encontrar, mesmo em sebos. É, pois, bem vinda a bela reedição feita pela Cosac Naify, dentro do projeto de relançar a obra de Murilo Mendes (1901-1975). A idade do serrote é um texto memorialístico, no qual o autor, através de uma estrutura melódica e repleta de citações, reconstitui lembranças, ora na ficção, ora na dicção. Apesar de o autor ter vivido grande parte da vida em outro país, sua obra salienta a infância e a adolescência na cidade de Juiz de Fora. Nesse universo afetivo, destacam-se a Rua Halfeld, as pessoas com quem o autor conviveu, tios, tias, o padre Júlio Maria e outros tantos que fizeram parte de sua trajetória. A edição da Cosac traz posfácio assinado por Cleusa Rios Passos, professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo. Há também uma crônica de Carlos Drummond de Andrade sobre o livro, publicada no jornal Correio da Manhã, em 1968, e uma carta-resposta de Murilo – ambas inéditas em livro.

MENDES, Murilo. A idade do serrote. São Paulo: Cosac Naify, 2014. 130 pags. R$ 36,00 em média.