CICATRIZES

             O trauma de quem esteve no campo de batalha embaraça destinos e cria razões que, como sugeriu Pascal, a própria razão desconhece.

           Há os que exibem troféus da luta para um público nem sempre crédulo de suas histórias. Lembro que, na minha infância, seguidamente, passava lá por casa um senhor que dizia ser ex-combatente. Gostava de contar sobre a longa viagem de navio até a Itália. Mastigava as palavras, numa fala lenta, carregada de “veja isso”, “assim é que é”. Conversava sozinho, trazia uma trouxinha com moedas – algumas do estrangeiro eram de “alto valor” – e outras tantas trouxas com latas velhas e bugigangas. Pracinhas à deriva não deveria ser fato incomum à altura dos anos 60. Em todo caso, nunca pude comprovar se aquele nosso visitante ocasional teria, de fato, lutado na Segunda Guerra. A verdade é que a vivência de situações-limite deixa suas marcas.

           Haverá, por exemplo, aqueles nos quais a obsessão do combate nunca cessa. Parece ser essa a categoria do soldado japonês que morreu há alguns meses. Contava 91 anos e se escondeu durante quase três décadas na selva filipina, porque, simplesmente, não acreditava no fim da Segunda Guerra. Esforços não faltaram para informá-lo do contrário. Conta-se, por exemplo, que durante anos foram jogados panfletos de aviões para convencê-lo de que o exército imperial havia sido derrotado. A incredulidade do velho combatente, porém, resistia, o que acabou lhe dando notoriedade planetária.

            Mais do que negar o fim do conflito, há, ainda, os que se sentem vítimas de conspirações. Aqui perto de nós, em São Borja, nos anos 80, conheci uma dessas figuras falastronas características de nossa região fronteiriça. Na época, já contava duas décadas de autoexílio do lado argentino. Tinha mania de perseguição – sabe-se lá se com algum fundamento – e aparecia em solo brasileiro sempre carregado de muita cautela, embora, ao que se contava, não houvesse indício de que estivesse na mira da ditadura brasileira, aliás, à época, já nos seus estertores.

            Em todo caso, como apregoa a emblemática canção de luta, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Pensei nesses versos de Geraldo Vandré, outro dia, em aula, ao indagar sobre os livros que, no calor da hora, com a cara e a coragem, colocaram em pauta o tema da ditadura. Nesse capítulo, poucos autores merecem mais destaque do que Antonio Callado. Seu Bar Dom Juan, por exemplo, saiu em 1970, num momento de forte repressão e censura. Bar Don Juan, como outros livros escritos por Callado, é um romance coral, pois faz as vezes de crônica de geração. No caso, a trama gira em torno de um grupo de jovens que, fascinados pelo mito da revolução cubana e pela figura de Che Guevara, imaginam derrubar o regime militar brasileiro, exportando a insurreição marxista para o conjunto América Latina.

            Callado já visitara o tema da repressão em 67, com Quarup, e voltaria a fazê-lo em 76, com Reflexos do baile, uma denúncia da imagem grotesca do aparato repressivo da ditadura e da fragmentação ilimitada de repressores e vítimas. Aos livros de Callado soma-se o registro de outro corajoso do período. Trata-se de Renato Tapajós. Câmera lenta, de sua autoria, foi publicado em 1977 e logo censurado. O livro descreve a captura e a tortura de uma jovem guerrilheira e seu companheiro, destacando a lógica da época de empurrar a culpa de uma instância inferior para uma superior, que, por sua vez, subtraía-se à lei. Por fim, outro exemplar digno de registro é Incidente em Antares, do nosso Erico Verissimo. Publicado em 71, com tom de alegoria política, consumou-se como a uma sátira mordaz ao poder censório e discricionário.

             Permanece nessas obras escritas e publicadas durante a ditadura no Brasil um libelo contra a repressão e a tortura. Quem, como eu, trabalha com textos literários, pode dizer com orgulho que se trata de um conjunto de romances que denuncia a vergonha e a insensatez de um mundo social e político que, cinquenta anos atrás, se enviesou e passou a cultivar um perene estado de exceção. Hoje, quando avivamos a luta permanente por um mundo melhor, vale a pena ler de novo. Para descobrir a qualidade das obras, sim, mas, também, como homenagem e reconhecimento a quem perdeu a razão e a esperança em batalhas desiguais.

            Como sugere Lulu Santos, leva tempo pra fechar o que feriu por dentro. Em alguns casos, de fato, uma vida não basta.

 

NOVO ROMANCE DE MARCELO MIRISOLA

Hosana na sarjeta

∗LANÇAMENTO∗

Na frente da lendária boate Kilt, em São Paulo, começa a trama do novo romance de Marcelo Mirisola. A história gira em torno de um certo MM e sua relação com duas mulheres: Paulinha Denise e Ariela. Na trama, um diamante contrabandeado, um réveillon trash no Rio de Janeiro e a terrível maldição de uma cigana, endereçada ao protagonista: “Você nunca vai amar ninguém nessa vida”. Anunciado inicialmente como Hosana poluída, trechos da obra já circulavam na imprensa desde março passado. Polêmico, Marcelo chega ao mercado                             com seu sexto romance.

 

MIRISOLA, Marcelo. Hosana na sarjeta. São Paulo: Editora 34, 2014. 144 pags. R$ 30,00 em média.

Pai da matéria

Narrei futebol na década de 80 pela Rádio Guarathan, de Santa Maria. Como ouvinte aficionado, que ainda sou, acompanhei muito Osmar Santos na Globo de São Paulo. Algumas vezes, enquanto me deslocava para trabalhar na velha Baixada Melancólica, o rádio do carro sintonizava uma abertura de transmissão com o comando do Osmar. Era um show de vozes a que imprimia um ritmo trepidante e renovador. Com bola rolando, foi mestre dos bordões e da interpretação do sentimento do torcedor. Como ouvinte, torci muito para que pudesse continuar, depois do infeliz acidente de trânsito que o vitimou. Por fim, seus admiradores, acabamos agradecendo por ter escapado com vida. No Rio Grande do Sul, os narradores de minha geração viemos de uma escola diversa, mais sisuda, talvez, anterior a do Osmar (mesmo que ele, como é próprio da comunicação de massa, tenha sido uma mistura de estilos já ensaiados ou experimentados aqui e acolá). Jamais me atrevi a tentar imitá-lo. Mas que dava gosto ouvi-lo, isso dava.

Santos 1×0 Corinthians. Gol de Serginho. Estádio Morumbi, final Paulistão, 02/12/1984.

Osmar Santos, também conhecido como “Pai da Matéria”, foi locutor esportivo das Rádios Jovem Pan, Record e Globo. Trabalhou, ainda na televisão. Narrou a Copa do Mundo de 86 pela Rede Globo, como primeiro locutor (Galvão Bueno era o segundo e Luis Alfredo o terceiro). Na Copa de 90, transmitiu pela Manchete. No dia 22 de dezembro de 1994, foi vítima de grave acidente de carro, que lhe afetou várias funções neurológicas. Nunca mais pode narrar.

CAPPARELLI DE VOLTA AO ROMANCE

VIAGEM A CALÁBRIA

∗LANÇAMENTO∗

Sergio Caparelli, após a incursão de vários anos pela literatura infanto-juvenil, retoma o romance para adultos. Lançado no segundo semestre de 2014, Viagem à Calábria conta a história de um personagem em busca de suas origens. Na verdade, mais do que isso, a ida até a Itália e o reencontro com o irmão representam a resposta que, enfim, pode lhe trazer paz. Sua dúvida é sobre as razões que teriam levado seu irmão, Zuiudo, logo após o golpe de 1964, a revelar à polícia o local em que ele e o pai se escondiam. Os irmãos passeiam pela região da Calábria em meio a diversas lembranças. As cenas de sua infância em Uberlândia voltam à cabeça como flashes. Em instantes, o protagonista se transporta para sua meninice no cerrado, onde, aos 11 anos, via as dificuldades e a tristeza do pai – caixeiro-viajante que ensaia Antígona com a trupe de teatro que criara com seus oito filhos – por não ter dinheiro para retornar à Itália, sua terra natal. Relembra, também, os passos da revolta do povo, cansado das ameaças contra a greve e das mentiras envolvendo a morte de Nego Juvêncio. Com Zuiudo, o protagonista mergulha nas recordações, tentando descobrir o que realmente aconteceu no passado: a crítica em público do pai à ação policial, a emboscada que provocou a fuga para Brasília e o dia de sua captura. Em linguagem direta e comovente, Viagem à Calábria nos fala das mudanças que vieram com a construção de Brasília, a nova capital, e dos novos rumos do cerrado. E fala também das mudanças emocionais desse protagonista, da raiva, que, transformada em arrependimento, o torna capaz de restabelecer sua relação com o irmão, e dar sentido à sua história.

CAPPARELLI, Sergio. Viagem a Calábria. Rio de Janeiro: Record, 2014. 288 pags. R$ 40,00 em média.

RUMOS NA POLÍTICA

    Num tempo em que os supermercados ainda não haviam assumido a ponta do abastecimento popular, meu avô, por muitos anos, teve armazém.

      Dos estertores dessa fatura, carrego gostos que os anos não apagam, como o arroz de carreteiro e o bacalhau com batatas. Minha avó, melhor que todos, sabia transformar a carne e o peixe secos, que empestavam o anexo dos frios, nos pratos mais saborosos que minha infância conheceu.

     Numa época em que a carne fresca era farta, o charque e o bacalhau tinham preços de segunda e podiam ser encontrados no armazém da esquina. Hoje, que a indústria permite ofertas variadas e amplas, essas alternativas artesanais tornaram-se raras. Assim, o que era barato e popular, tornou-se caro e seletivo.

    Em verdade, por experiência própria ou próxima, concluímos: mudam-se os hábitos, mudam-se os preços. No capítulo das mudanças, “transforma-se o amador na cousa amada”, como já cantava Camões em verso célebre a respeito do nobre comércio do amor, este em que, como apregoa o poeta, o sujeito busca no corpo do outro a forma ideal para sua alma de apaixonado. As flutuações nos hábitos e na economia – ou até mesmo no amor – são, portanto, coisas que aprendemos e às vezes experimentamos com a vida.

       Agora, por mais que tudo se transforme e que as transformações sejam muito persuasivas em relação a nossos gostos e pontos de vista, vamos convir que mudança brusca a gente demora para racionalizar. O que ocorre no atual quadro da eleição presidencial é, definitivamente, algo do campo do Sobrenatural de Almeida, para citar aquela personagem do Nelson Rodrigues,  espécie de fantasma, que, segundo o autor, era protagonista de gols improváveis, especialmente os que vitimavam o Fluminense, seu time do coração.

      Entre 2012 e o início de 2013, há pouco mais de um ano, os índices de aprovação do governo alcançaram escores positivos inéditos na moderna história política do Brasil. Por outro lado, se não bater Marina, na atual corrida, Dilma Rousseff sucumbirá em meio a mais espetacular mudança de expectativa no curto prazo de nossa história. Quando comecei a pensar sobre isso, ocorreu-me a questão: a avalanche de Marina se compara com a de Jânio ou a de Collor?

        Não demorou para descobrir que minha dúvida estava longe de ser original. Li várias referências a respeito nos últimos dias e até na propaganda eleitoral já apareceu. Tem esse negócio da falta de base partidária e do aceno da moralização que torna a aproximação muito mais visível do que pensei inicialmente. Porém, melhor achei o alcance do que li do Ronai (blog “Coisas do Campo”). Meu colega da Filosofia e talentoso cronista de horas não tão vagas, em texto dedicado ao assunto, busca entendê-lo a partir de três ciclos que a vida política brasileira teria experimentado nos últimos cinquenta anos e que aqui me arrisco a reproduzir.

     O primeiro remontaria ao início dos 60 e seria representado pela turbulência democrática trazida pela ascensão/queda fulgurantes de Jânio e pela curta era Jango. Avalanches populares foram logo tragadas no flagelo da ditadura que inaugurou o mito da “política técnica, sem mazelas e corrupção”. Ao longo desse ciclo, até 85, foi preciso sair à rua na busca de recuperar a democracia perdida.

      Em meados de 80, teríamos o segundo ciclo. Com a abertura, as pessoas recolhem-se em casa. Volta à rua, então, somente em situações episódicas, como no fora-Collor. Por fim, chegamos a 2013 e ao que o autor define como o terceiro ciclo de nossa combalida história política contemporânea: “a insatisfação com os novos padrões de consumo, criados a partir da estabilidade econômica e de programas de inserção, vem tentando achar uma voz”.

       O ponto de arremate é, pois, sobre esse terceiro ciclo que, a meu juízo, nos ajuda a situar o atual quadro na perspectiva de um crescente senso comum pautado no entendimento de que, como assevera o articulista, o mal feito pode ser erradicado pelo trabalho dos bem-intencionados. No passado, sim, esse equívoco custou caro. Hoje, porém, temos uma sociedade melhor preparada, uma ordem institucional, sob vários aspectos, mais firme. É, ao menos, o que penso. Enquanto isso, fiquemos com as batatas, mesmo porque, o bacalhau tá caro demais.